O QUE QUERES DE MIM, SENHOR?

O mês de agosto, que é tradicionalmente dedicado ao tema da vocação, nos ajuda a refletir sobre o chamado de Deus em nossas vidas, ou seja, qual é a vocação que Deus designou para nós. Desde o dia em que fomos concebidos, Ele nos chamou a viver uma vocação e, no decorrer de nossas vidas, nos concedeu alguns sinais para que possamos discernir qual é esta vocação.

Primeiramente, é bom que saibamos que a vocação é, acima de tudo, um mistério da eleição divina. É o próprio Deus, em Seu desígnio de amor, que nos chama, prepara e capacita para uma determinada vocação. Em todas as etapas de uma vocação é imprescindível saber ouvir o Cristo que nos diz: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça.” (Jo 15,16)

Por meio de etapas sucessivas, Deus vai aos poucos revelando o que Ele quer de nós. A primeira etapa do discernimento de uma vocação é a adesão ao amor de Cristo. Aderindo ao amor de Deus, percebemos que também é necessário aderir à vocação que Ele nos predestinou. Mediante diversos meios, tais como: orientação espiritual, estudo da doutrina e o aconselhamento dado por outros cristãos coerentes, Deus vai elucidando o que espera de cada um de nós.

Devemos ter consciência de que nem sempre é fácil perceber a revelação de Deus. É nesta fase que, em oração, devemos perguntar a Deus: “O que devo fazer, Senhor?” (At 22,15). No entanto, não podemos nos limitar a uma mera pergunta, pois é essencial querer ouvir a resposta, mesmo sabendo que, em muitos casos, a resposta pode ser contrária àquela que queríamos ouvir. O melhor critério para distinguir a vontade de Deus é viver uma docilidade ao Espírito Santo e buscar, sem descanso, uma maturidade de fé que nos proporcione uma adesão incondicional à vontade de Cristo.

Esta adesão de fé é a segunda etapa do discernimento de uma vocação. Quando percebemos qual é a nossa vocação, desde o primeiro instante, devemos professar: “Eis-me aqui!” (Is 6,8). Ou ainda: “Em fazer a tua vontade, ó meu Deus, me deleito, e a tua lei está no íntimo do meu coração!” (Sl 40,8-9). Após o nosso sim e de nossa entrega sem reservas nas mãos de Deus, a vocação será purificada, ou seja, poderá passar por períodos de dúvidas, questionamentos e até mesmo de incertezas.

Nestes momentos, a plena confiança em Deus será sempre nossa melhor resposta. Com os ouvidos da fé, nós temos que saber ouvir o nosso Redentor que nos ampara e fortalece, afirmando: “Tu hás de ser minha testemunha, diante de todos os homens, do que viste e ouviste. E agora, que estás esperando?” (At 22,15).

Mergulhando, destemidamente, ao encontro da vontade de Deus, passamos a entender que “a escolha é vocação para aquele ‘por’ em que o ser humano simplesmente solta as amarras, ousando dar o salto que o afasta de si próprio e o lança no infinito e que, no entanto, é o único capaz de fazê-lo chegar a si mesmo.” (Cardeal Joseph Ratzinger, “Introdução ao Cristianismo”). Para realizar plenamente nossa condição de cristãos, é fundamental que saibamos aderir ao projeto que Deus estabeleceu para nós e será certamente no cumprimento desta vocação que teremos maiores possibilidades de atingir a vida eterna.

Perante as intempéries que a vida nos apresenta, somos chamados a renovar, com plena disposição, a vontade de colocar-nos nas mãos amáveis de Cristo. Cumprir a vocação que Ele nos predestinou é querer consagrar-se totalmente ao Seu serviço. O cumprimento de minha vocação deve ser a lei soberana de minha alma que me levará a ser obediente àquilo que Deus quer. “E aquilo que Deus quer de mim é a única coisa que me convém. Deus conhece a minha fraqueza, sabe de que necessito e escolhe sempre aquilo que me ficará melhor. Que me compete, pois, fazer, senão tratar de descobrir essa santa vontade de Deus a meu respeito para cumpri-la com amor?” (São Pedro Julião Eymard, “A Divina Eucaristia”, Volume III). Ao descobrir nossa vocação, estupefatos de alegria, podemos agradecer a Deus, dizendo: “Meu coração está pronto, ó meu Deus, a cumprir com amor todas as vossas vontades!”.

A vida é o tempo necessário de que dispomos para descobrir, aderir e fazer frutificar nossa vocação. Existem diversas vocações: matrimonial, sacerdotal, religiosa, leigos consagrados e tantas outras. A qual destas vocações somos chamados? Todas as vocações são santas e santificadoras e “na condição em que cada um foi chamado, irmãos, é que deve permanecer perante Deus.” (1 Cor 7,24).

Quanto mais cedo ocorrer o discernimento da nossa vocação, melhor será para nós e para o nosso próximo, pois a vocação é um mistério que não se limita apenas à nossa pessoa; ela está inserida em uma comunidade e é um referencial para ela. Como nos diz São João Paulo II: “Quem abre o seu coração a Cristo não só compreende o mistério da sua própria existência, mas também o da sua própria vocação e amadurece excelentes frutos de graça”. (Mensagem do Papa João Paulo II, em perspectiva do 42º Dia Mundial de orações pelas vocações). Testemunhar ou vivenciar uma vocação é uma preciosa graça que repercute em abundantes frutos de santidade para o bem de toda a Igreja.

Elevemos, sem cessar, nosso louvor a Deus pela graça de poder contemplar a beleza de tantas vocações. É uma imensa riqueza poder acompanhar os casais que cumprem a vocação matrimonial e se esforçam em edificar uma igreja doméstica. É um grande dom conhecer jovens em tenra idade que se lançam sem medo à vocação sacerdotal. Independentemente da vocação, todos aqueles que cumprem, sem condições e sem reservas, o chamado que Deus lhes faz podem professar, com ardor: “O serviço de Jesus será o alvo da minha vida, da minha piedade, das minhas virtudes, dos sacramentos a receber, dos sacrifícios a fazer. Esforçar-me-ei em tudo por ser um servo fiel de Jesus. Não me queixarei das dificuldades que encontrar em Seu serviço, qual servo dedicado e bom”.  (São Pedro Julião Eymard).

Como bons servos da messe do Senhor, temos a certeza de que a adesão à vocação é a mais perfeita obediência que podemos realizar nesta vida. O maior erro que podemos cometer é tentar escapar da vontade de Deus, mas, por outro lado, aderir ao chamado que Cristo nos faz é uma bela demonstração de amor, de esperança e de confiança no Deus Altíssimo.

Nós seremos felizes no dia em que soubermos acatar a vocação que Deus nos concedeu, bradando com renovada fé: “Tu, nosso Deus, és bom e verdadeiro, és paciente e tudo governas com misericórdia. Conhecer-te é a justiça perfeita, acatar teu poder é a raiz da imortalidade”. (Sb 15-1-3). Saibamos corresponder, com afinco, ao chamado de Cristo, com a convicção de que cumprir a nossa vocação é o caminho mais curto para a plena vivência da santidade!

Aloísio Parreiras

 

2020-08-03T13:08:51-03:0003/08/2020|