O SEMEADOR

Nosso Senhor Jesus Cristo se utilizava frequentemente de parábolas, histórias sobre os acontecimentos do cotidiano, para exemplificar os Seus ensinamentos e transmitir a Boa Nova da Salvação. As parábolas de Jesus eram repletas de aspectos comuns e familiares aos Seus contemporâneos e abordavam temas tais como aspectos da vida familiar e metáforas pastoris e agrícolas.

É nesse contexto que se insere a célebre parábola do semeador, onde o Cristo nos conta que “o semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outras sementes caíram em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. As sementes logo brotaram, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz. Outras sementes caíram no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram e sufocaram as plantas. Outras sementes, porém, caíram em terra boa e produziram à base de cem, de sessenta e de trinta frutos por semente. Quem tem ouvidos ouça!” (Mt 13, 3-9).

Para os agricultores e as pessoas que vivem no meio rural se dedicando à preparação do solo, ao plantio, à irrigação do terreno, ao manejo e controle das pragas e das plantas daninhas e à tão esperada colheita, a parábola do semeador é extremamente clara, simples e determinante. Mesmo para as pessoas que habitam nos grandes centros urbanos, essa parábola é, de algum modo, uma ilustração precisa de uma realidade maior que evidencia que um fazendeiro lançou sementes em vários lugares e obteve diferentes resultados que foram determinados pelo acolhimento, cuidado ou desprezo que foi dado à semente.

Vinte e um séculos se passaram desde aquele dia em que o Cristo contou essa parábola aos Seus Apóstolos e ela continua falando a cada um de nós, pois nos recorda que o nosso coração é o solo, o terreno propício onde o Senhor lança, com generosidade, a semente da Palavra e do Seu amor. Com que disposições nós acolhemos a Palavra do Senhor? Como é o solo do nosso coração? Com qual dos terrenos o nosso coração se assemelha: uma estrada, um terreno pedregoso ou uma terra boa?

A parábola do semeador é uma das três parábolas registradas em mais do que dois evangelhos, e também é uma das únicas que Cristo explicou especificamente aos Apóstolos, esclarecendo que a semente é a Palavra de Deus e, por isso, por meio do anúncio da Boa Nova da Salvação, Cristo continua lançando as sementes da verdade, da caridade, da fé e da esperança no solo dos nossos corações, a fim de que, mediante o processo germinativo do acolhimento e da perseverança, a vida cristã gere frutos generosos no cotidiano da nossa santidade.

Para evidenciar a importância de acolhermos a semente da Palavra em nossas almas, o Cristo nos diz: “As palavras que Eu vos disse são espírito e vida”. (Jo 6,63). “Quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou tem a vida eterna”. (Jo 5,24). Ele também nos diz: “A palavra que sair de Minha boca não voltará para mim vazia; antes, realizará tudo que for da Minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la”. (Is 55, 11).

Por outro lado, quando não escutamos a Palavra de Deus e não temos intimidade com o Cristo, nós permitimos que os pássaros glutões, as pedras e os espinhos sufoquem e matem a semente. Agindo assim, nós perdemos a capacidade de vencermos as tendências desordenadas da carne, o pecado e o mal, e nos tornamos terrenos irregulares, desérticos, desnivelados e inférteis onde o amor e a misericórdia de Deus não são acolhidos.

Cristo nos concede os meios oportunos para que o nosso coração seja um terreno bom, sem espinhos e sem pedregulhos. É em união com Ele que aprendemos a desbravar e cultivar, com esmero, o terreno de nossos corações, a fim de que possamos produzir frutos bons, doces e saudáveis. Por isso, em nosso exame diário de consciência, nós temos que nos questionar: hoje, o meu coração esteve aberto para acolher a semente da Palavra de Deus? Encontrei as necessárias virtudes da coragem e fortaleza para preservar a limpeza de meu coração? Adubei o meu coração com o Evangelho de Cristo e o reguei com a água renovadora dos sacramentos?

Na caminhada da fé, nós adquirimos a consciência de que Cristo é o divino Semeador que está no campo do mundo, difundindo a boa semente da alegria do Evangelho, mas, assim como nos primeiros séculos da era cristã, ainda hoje existem pessoas que ouvem superficialmente a Palavra, mas não a acolhem; há outros que a recebem no momento, mas não perseveram e perdem tudo; há depois aqueles que são dominados pelas tempestades, noites escuras e seduções do mundo; e há enfim aqueles que escutam de modo acolhedor, receptivo e produzem frutos em abundância.

A semente é a mesma, o Semeador é o mesmo e a única coisa que muda e determina a abundância ou a escassez dos frutos é a qualidade do solo dos corações humanos. Desse modo, “se olharmos ao nosso redor, para este mundo que amamos porque é obra saída das mãos de Deus, observaremos que a parábola se converte em realidade: a Palavra de Jesus Cristo é fecunda, suscita em muitas almas desejos de entrega e de fidelidade. A vida e o comportamento dos que servem a Deus mudaram a História, e até muitos dos que não conhecem o Senhor se deixam guiar, talvez até sem o saberem, por ideais nascidos do Cristianismo”. (São Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, nº 150).

É motivo de alegria sabermos que Cristo é, ao mesmo tempo, o Semeador e a semente, pois Ele não se cansa de semear o Evangelho em nossas vidas e em nossa História. Ele semeia com a generosidade do amor e jamais desanima do esforço de aumentar os frutos de santidade em nosso mundo.

Quando o nosso coração se torna uma boa terra para acolher a semente da Palavra de Deus, nós ouvimos a doce voz de Jesus nos convidando a participar do trabalho de semeadura da divina semente. Nesse contexto, Ele nos ensina: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, permanece ele só; mas se morrer, dará muito fruto”. (Jo 12, 24). Ou seja, Ele nos demonstra que existe uma correlação entre a morte da semente e a abundância dos frutos. Em outras palavras: sem sacrifícios, renúncias, entrega e doação, a semente não produzirá frutos.

Quando estamos enraizados em Cristo, nós somos uma terra fértil que acolhe a mensagem salvífica de nosso Redentor e produzimos frutos de perdão, de fraternidade e de justiça na comunidade da Igreja, em nossa família e na sociedade.  Quando estamos enraizados em Cristo, a Palavra do Senhor permanece em nós, renovando os nossos propósitos de santidade com a luz, o amor e a paz que só Deus pode nos conceder, a fim de que possamos ser testemunhas da alegria do Evangelho, mananciais de comunhão e de misericórdia.

Senhor, nós queremos ser semeadores da Vossa Palavra neste Terceiro milênio da era cristã. Queremos ajudar no preparo dos corações e, se for possível, queremos contemplar, com entusiasmo, mesmo que os frutos não sejam nossos, a tão esperada colheita de generosos frutos de unidade, de conversão, de mudança de vida e de serviço desprendido a Vós e ao nosso próximo!

Aloísio Parreiras

2020-07-12T11:39:54-03:0012/07/2020|