O SERVIÇO DA MISERICÓRDIA

O evangelista Lucas nos ensina que, um certo dia, Cristo retornou à cidade de Nazaré, onde havia sido criado. Ele entrou na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Entregaram-lhe o livro do Profeta Isaías. Abrindo o livro, Ele leu a seguinte passagem: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres; Ele me enviou para pregar aos cativos a liberdade e devolver a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, para anunciar um ano da graça do Senhor”. (Lc 4, 18-19).

Ao final da leitura, Cristo enrolou o Livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Naquele momento, todos na sinagoga tinham os olhos fixos n’Ele. Então, o Senhor Jesus, por meio de uma declaração messiânica, disse-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. (Lc 4, 21).

Todos os que estavam presentes na sinagoga olharam, com espanto, para o Cristo, pois essa passagem de Isaías anunciava a chegada do Messias esperado, evidenciando que o Messias é um Deus misericordioso que está sempre atento as necessidades espirituais e materiais dos seres humanos. Desse modo, era evidente que o Cristo estava afirmando que Ele é o Messias, o Salvador.

Diante da afirmação de Jesus, muitas pessoas ficaram estarrecidas com o seu pronunciamento, mas, mesmo diante do olhar daquelas pessoas que não haviam percebido os sinais da Sua divindade, Ele deixou claro que é o Deus misericordioso que jamais passa indiferente ao lado das misérias humanas, ou seja, onde há dores, tristezas, solidão e vazios, ali Ele está socorrendo a todos com compaixão.

Desde os primeiros séculos, Cristo acompanha a nossa História, socorrendo-nos com a Sua bondade. Por ser misericordioso, Ele nos convida a crescer na correspondência ao Seu amor e nos desafia a viver a misericórdia sem reservas. No cotidiano de nossa fé, Ele sussurra aos nossos ouvidos: “Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso!” (Lc 6,36). Em outras palavras, Ele nos diz: Não deixe para fora da porta do seu coração as pessoas, o mundo e as dificuldades do seu tempo, coloque-as em sua alma, carregue-as em sua mente e apresente-as a Mim na oração, a fim de que você possa buscar e encontrar os meios para a realização da ação da misericórdia que sustenta a fé, a esperança e toda a vida da Igreja.

Quando ouvimos o convite desafiador de Cristo, nós percebemos que, para cumprirmos este desafio, nós devemos realizar, cotidianamente, as obras de misericórdia corporais e espirituais, pois essas obras enobrecem os nossos sentimentos, incrementam nossa caridade, fazem-nos generosos e nos enriquecem espiritualmente.

Podemos afirmar que as sete obras de misericórdia corporais e as sete obras de misericórdia espirituais são os eixos e o sólido alicerce que evidenciam a plena certeza de que Cristo é o rosto misericordioso de Deus e, por isso, Ele nos concede a nobre missão de sermos o coração, os pés e as mãos que não poupam esforços para expressar misericórdia. Portanto, em nome de Cristo, nós devemos sempre fazer o bem a todas as pessoas que estão ao nosso lado, pois, ser ou ter misericórdia é olhar o próximo com bondade e traduzir esse olhar em ações concretas, tais como visitar doentes, idosos e presos, acolher o estrangeiro ou colaborar na tarefa de ensinar os ignorantes.

Uma fecunda lição que aprendemos no serviço da misericórdia é a certeza de que todo aquele que é conquistado por Jesus se torna um sinal visível da divina misericórdia. De algum modo, podemos afirmar que toda a nossa vida é a expressão do resgate acolhedor da misericórdia. Inúmeros são os detalhes da misericórdia de Cristo para conosco. Quando percebemos esses detalhes, somos tocados pelo Espírito Santo que nos concede o dom de ouvirmos a voz de tantas pessoas que suplicam pelo nosso acolhimento e pela nossa misericórdia. Movidos pelo Divino Paráclito, nós professamos que quem experimentou em sua própria vida a misericórdia de Jesus Cristo não pode e não deve permanecer indiferente diante das necessidades dos irmãos.

Quando o desafio que Cristo nos faz, de sermos misericordiosos, alcança raízes profundas no terreno sagrado do nosso coração, nós testemunhamos que, diante de uma pessoa que sente fome e sede, não adianta, por exemplo, fazermos belos discursos sobre a má distribuição da riqueza do mundo, pois o que adianta de fato e de imediato é dar-lhe de comer e de beber. Diante dos muros que impedem o acolhimento dos refugiados que precisam vencer o frio, a pobreza e o medo, não adianta recordarmos as inúmeras teses que abordam a construção de um mundo novo, pois o que adianta de fato é garantirmos, o mais rápido possível, a derrubada dos muros, a construção de novas pontes e o pleno cumprimento dos direitos humanos. Traduzindo: as obras de misericórdia não são palavras vazias e nem mesmo teoria sem prática. As obras de misericórdia são gestos que consolam e aliviam o sofrimento, são atitudes que renovam o nosso compromisso de caminharmos na fé e de nos comportar de maneira coerente com o Evangelho.

Insisto: por ser misericordioso, Cristo está renovando o desafio de nos tornarmos protagonistas no serviço da misericórdia. Ele quer fazer de nós uma resposta concreta aos sofrimentos e necessidades dos nossos contemporâneos. Ele quer que sejamos um sinal do Seu amor misericordioso em todos os ambientes sociais que frequentamos. Ele nos faz perceber no fundo de nossa alma que “servir com amor e ternura as pessoas que precisam de ajuda faz-nos crescer, a todos, em humanidade; e abre-nos a passagem para a vida eterna: quem cumpre obras de misericórdia não tem medo da morte”. (Discurso do Papa Francisco, na visita ao Hospital Pediátrico de Prokocim, na Cracóvia, em 29 de julho de 2016).

Por que não devemos temer a realidade iniludível da morte? Simplesmente porque o próprio Cristo nos assegura que, pelo pleno cumprimento do serviço da misericórdia, nós seremos mais que vencedores: seremos herdeiros do Reino dos céus e membros da Igreja triunfante. Se a cada novo dia nós reforçarmos o aprendizado e a vivência das obras de misericórdia, no dia feliz do nosso encontro com Jesus ouviremos de Seus lábios: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me recolhestes, estava nu e me destes o que vestir, adoeci e me visitastes, estive na prisão e viestes a Mim”. (Mt 25, 35-36).

Quando chegar o dia da nossa entrada na Igreja triunfante, diante de nosso Redentor, nós iremos recordar toda a nossa vida, palavras e ações, e assim iremos agradecer a Sua infinita misericórdia e a graça de termos sido renovados pelo Seu amor. Agradeceremos também por todas as ocasiões que servimos a Ele em cada pessoa marginalizada ou excluída.

Nesse dia, com renovada emoção, nós diremos ao Cristo: Senhor, a misericórdia nunca foi para mim uma obrigação, mas sim, um aprendizado de esperança. Senhor, muito obrigado, pois, pelo alcance da Sua misericórdia; eu fui abençoado e, de alguma forma, eu consegui abençoar o meu próximo, evidenciando a medida, a largura e a extensão do Seu Sagrado Coração.

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)