O Tempo Litúrgico – Deus entra na história humana e santifica o tempo

Deus entra na história do homem, mesmo ele sendo Senhor do tempo e da história, para salvá-lo. Ao escolher um dia para ressuscitar, o Domingo, ele santifica um dia e o consagra remetendo ao dia da salvação, logo, celebrar o domingo é celebrar um fato extraordinário.

O Papa São João Paulo II em sua Carta Apostólica Dies Domini afirma que a centralidade do domingo, na vida do cristão, não pode ser relativizada, tendo em vista que não é um dia qualquer, mas a Páscoa semanal para o povo fiel. Certamente, muitos já escutaram o questionamento do porquê da mudança do dia do Senhor do sábado para o Domingo. Pormenorizar essa discussão seria motivo para uma outra reflexão, mas, de forma resumida, o motivo principal da mudança é que a Ressurreição de Cristo inaugura uma Nova Aliança de Deus com o homem, portanto, nada mais justo que celebrar o Domingo. São Gregório Magno sintetiza bem a razão da mudança: “nós consideramos como verdadeiro sábado a Pessoa do nosso Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo.” [1]

Sendo o Domingo, Páscoa semanal, o centro da vida do cristão durante a semana, o Mistério Redentor de Cristo, no Tríduo Pascal – que culmina na Ressurreição –, é o centro do Ano Litúrgico e, a partir dele é que todas as outras datas importantes da Igreja são calculadas.

Diferente do ano civil, mas não contrário a ele, o Ano Litúrgico não possui uma data fixada de começo e fim. Ele se inicia no I Domingo do Advento e se encerra no sábado da 33ª (ou 34ª) semana do Tempo Comum, semana iniciada com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Essa última solenidade do Ano Litúrgico marca o sentido do Senhor como soberano do tempo e de tudo o que é criado.

Viver os Tempos Litúrgicos é adentrar a pedagogia da Igreja e, mas do que isso, envolver-se em uma realidade espiritual que vai além das coisas palpáveis deste mundo: da mesma forma que Deus entra na realidade humana, o homem experimenta a transcendência divina. Na sabedoria de perceber que tudo é de Deus, a Igreja vê a criação e a dinâmica dela como uma possibilidade de, observando o movimento divino, calcular o centro do Ano Litúrgico a partir das estações do ano. Primeiro é preciso procurar o início da primavera no hemisfério norte, a partir da primeira lua cheia conta-se a Páscoa no domingo seguinte. Da definição do Dia da Páscoa emanam todas as outras datas móveis do calendário litúrgico.

“A Igreja quis distribuir ‘todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor. Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes em todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça’.[2] A Igreja, pois, torna presente na vida da comunidade os dois grandes ciclos do Mistério da Salvação: O ciclo da Páscoa e o ciclo do Natal.

O ciclo da Páscoa tem início na Quarta-Feira de Cinzas, início também da Quaresma, tendo o seu centro no Tríduo Pascal, encerrando-se no Domingo de Pentecostes. A solenidade de Pentecostes é o coroamento de todo o ciclo da Páscoa. Já o ciclo do Natal se inicia no primeiro domingo do Advento e se encerra na Festa do Batismo do Senhor, tendo seu centro, isto é, sua culminância, na solenidade do Natal. No meio destes dois grandes períodos está o chamado “Tempo Comum”. É o tempo verde da vida litúrgica. Após o Natal, exprime a floração das alegrias natalinas, aí aparecendo o início da vida pública de Jesus, com suas primeiras pregações. Após o ciclo da Páscoa, este tempo verde anuncia vivamente a floração das alegrias pascais. Os dois ciclos litúrgicos, com suas duas irradiações vivas do Tempo Comum, são como que as quatro estações do Ano Litúrgico.

Pelo fato de a Liturgia ter uma dimensão visível da graça que não se pode enxergar com olhos humanos, para levar o fiel a uma participação mais eficaz nos Mistérios celebrados, até as cores dos paramentos utilizados pelos sacerdotes ao oficiar os Sacramentos ajudam ao entender o que se está celebrando. As cores litúrgicas, por isso, têm sua razão de ser e um sentido para cada uma.

A cor roxa simboliza a preparação, penitência ou conversão. Usa-se no Advento, na Quaresma, na Semana Santa (até Quinta-Feira Santa de manhã), e na celebração de Finados, como também nas exéquias.

A cor branca simboliza a alegria cristã e o Cristo vivo. Usa-se na solenidade do Natal, no Tempo do Natal, na Quinta-Feira Santa, na Vigília Pascal do Sábado Santo, nas festas do Senhor e na celebração dos santos. Também no Tempo Pascal é predominante usada a cor branca.

A cor vermelha simboliza o fogo purificador, o sangue e o martírio. É usada no Domingo da Paixão e de Ramos, na Sexta-Feira da Paixão, no Domingo de Pentecostes e na celebração dos mártires, apóstolos e evangelistas.

A cor rósea simboliza uma breve “pausa” na tristeza da Quaresma e na preparação do Advento. Pode-se usar no terceiro Domingo do Advento chamado “Gaudete” e no quarto Domingo da Quaresma chamado “Laetare”. Esses dois domingos são classificados, na liturgia, de “domingos da alegria”, por causa do tom jubiloso de seus textos.

A cor preta simboliza a morte. Usada em funerais e na celebração de Finados.

A cor verde simboliza a esperança que todo cristão deve professar. É usada em todo o Tempo Comum, exceto nas festas do Senhor nele celebradas, quando a cor litúrgica é o branco.[3]

Esses detalhes mostram que tudo tem uma razão de ser na Fé Católica e tudo converge para levar a alma do homem a Deus. Para o mundo atual em que tudo é profundamente superficial, imediato e descartável, detalhes como esses são irrelevantes, entretanto, quando Deus fala ao homem, ele quer dar todas as possibilidades para que esta amizade seja frutificada cada vez mais.

[1] São Gregório Magno in Epis. 13,1: CCL 140A, 992.

[2] Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 102.

[3] https://www.cnbb.org.br/saiba-quais-sao-as-cores-das-vestes-liturgicas-e-seus-significados/