OS SANTOS REIS

A cena descrita por Mateus – a adoração dos Magos ao Menino Jesus recolhido na manjedoura de Belém – se constitui em um dos ícones que trazemos gravado na memória e que, certamente, inspirou inúmeros artistas na confecção de incontáveis presépios. Em termos históricos, encontramos essa representação nas pinturas das catacumbas de Priscila, em Roma, já no início do século II. “Uns Magos vindos do Oriente”. (Mt 2,2). Estes Magos que, segundo a tradição, eram uns sábios que se dedicavam ao estudo das estrelas, eram provenientes da Pérsia, e são para nós testemunhas admiráveis da fé em Deus. Por meio deles, o refrão do salmo adquire uma nova conotação: “Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra!” (Sl 71,11).

De algum modo, os reis Magos tinham conhecimento de que a história do Povo de Israel havia sido traçada por Deus; consequentemente, para descobrir o único e verdadeiro Deus, era necessário que eles procurassem os seus sinais, principalmente nos livros proféticos.  Miquéias e Isaías, entre outros profetas, previram preciosos detalhes sobre a vinda do Messias. Quando contemplaram o Menino Jesus nos braços de Nossa Senhora, certamente esses reis do Oriente se recordaram das palavras de Isaías: “Brilha sobre ti a glória do Senhor!” (Is 60,1).

Somos chamados a perceber que a narração da adoração dos Magos indica-nos um roteiro de espiritualidade, e de alguma maneira podemos fazer um paralelo entre Emaús e os reis Magos. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que os discípulos de Emaús e os magos do Oriente se encontravam a caminho. O caminho de todos eles é um caminho no espírito. Caminho que muitas vezes se revelou árduo e cansativo, mas foi a perseverança no alcance do ideal que os conduziu à mais bela revelação. Diante dessa revelação, os reis Magos clamam: “Palpitará e dilatar-se-á o teu coração!” (Is 60,5). Na Fração do Pão, os discípulos de Emaús bradam: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, quando nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). Todos nós nos encontramos a caminho, e quantas vezes, no decorrer desse caminho, somos também surpreendidos com os sinais de Deus, e então parece que nosso coração não cabe em nosso corpo. Em profundos gestos de amor, o nosso coração se expande, se transforma e sussurra: “Senti o bem do Senhor!” (Sb 1,1).

Um segundo passo nesse roteiro de espiritualidade é sentir que os reis Magos e os discípulos de Emaús nos convocam a ler, a refletir e a conhecer de cor as Palavras de Deus contidas nas Sagradas Escrituras. Os Magos questionavam: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” (Mt 2,2). Cléofas perguntava: “Tu és o único forasteiro em Jerusalém que ignora os fatos que nela aconteceram nestes dias?” (Lc 24,18). Junto destes companheiros de caminho é vital que reconheçamos que, para encontrar o nosso Redentor, é preciso ter intimidade com as Palavras do Altíssimo. É preciso descobrir que em Cristo encontramos a resposta a todos os nossos questionamentos. “Em Jesus Cristo, que por nós permitiu que Lhe transpassassem o coração, apareceu o verdadeiro rosto de Deus. Segui-lo-emos junto com a grande multidão de quantos nos precederam. Então caminharemos pela via justa”. (Discurso do Papa Bento XVI na vigília de oração com os jovens em Marienfeld).

O ponto mais alto do caminho dos discípulos de Emaús, bem como dos magos do Oriente, foi reconhecer em Cristo a razão de ser de suas vidas. Nós, homens, somos convocados a encontrar a Deus por meio da constante adoração. Os Magos, “prostrando-se, adoraram-no!” (Mt 2,11). De um modo novo, devemos adentrar a escola dos reis Magos, pois “eles dizem-nos que, quando se encontrou Cristo, é necessário saber deter-se e viver profundamente a alegria da intimidade com Ele. (…) Doravante, as suas vidas são entregues Àquele Menino, pelo qual tinham enfrentado as asperezas da viagem e as insídias dos homens. O Cristianismo nasce, e continuamente regenera-se, a partir desta contemplação da glória de Deus que resplandece no rosto de Cristo”. (Homilia do Papa João Paulo II, no fechamento da porta santa do grande jubileu do ano 2000).

Com o coração ardendo, os discípulos de Emaús balbuciam argumentos para reter Cristo junto a eles: “Permanece conosco, pois cai a tarde e o dia já declina”. (Lc 24,29). Não há maior felicidade do que saber que Cristo impera e reina em nossas almas. Não há maior satisfação do que testemunhar que a graça de Deus em nós é uma realidade constante. Nosso maior entusiasmo é crer que “nós temos um Pão e uma bebida que os homens não podem ver!” (Tb 12,19).

O testemunho é a consequência imediata do nosso encontro pessoal com Jesus Cristo. Os reis do Oriente “retiraram-se, por outro caminho, para a sua terra”. (Mt 2,12). Cléofas e seu companheiro “levantaram-se e voltaram para Jerusalém”. (Lc 24,35). Ao retornarem para a Pérsia, os Magos notaram que o Menino Jesus desaparecera de sua limitada visão humana. Após a Fração do Pão, Jesus ficou invisível diante dos discípulos de Emaús. Quando temos Cristo no coração e em nossas almas, não é mais necessário contemplá-Lo com os olhos humanos, pois o enxergamos com os olhos do coração. Mais do que vê-Lo, sentimos que O temos em nós. Deslumbrados com essa visão sobrenatural que somente a fé nos permite ter, partimos em missão, com o intuito de proclamar um edito que diga a todos: “Inspirai-vos nos mesmos sentimentos de Cristo Jesus.” (Fl 2,5).

Não podemos concluir esta exposição sem nos referirmos a Maria, a Mãe do Salvador. “Ao entrarem na casa, os Magos viram o Menino com Maria, Sua Mãe”. (Mt 2,11). São Lucas não nos diz se Cléofas e seu companheiro se encontraram com Nossa Senhora, após o caminho de Emaús; mas certamente eles a procuraram e lhe disseram: “O Senhor ressuscitou!” (Lc 24,34). É junto dos reis Magos, dos discípulos de Emaús e sobretudo de Nossa Senhora que devemos buscar forças para testemunhar corajosamente ao mundo a ressurreição vitoriosa de Cristo.  Com esses ícones, bem arraigados em nosso íntimo, devemos viver com plena satisfação a realidade de um Deus que é amor e Se encarnou pela nossa salvação. Realidade essa que chamamos pelo nome de Natal.

Devemos aprender com os reis Magos e com os discípulos de Emaús a percorrer o nosso itinerário de espiritualidade. Nesse caminho, contamos com a poderosa intercessão da Virgem Santa Maria, e por isso, rogamos: “Mãe de Deus, ensina-nos a amar Jesus. Ajuda-nos a acolhê-Lo, como naquele dia o acolheste: com infinita adoração, respeito, gratidão, amor e comoção! Concede-nos proclamar e ouvir, como se fosse pela primeira vez, as palavras antigas e sempre novas: No início era o Verbo… E o Verbo se fez Carne… Vimos a Sua glória!” (Fr. Raniero Cantalamessa, “O mistério da transfiguração”).

 

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2021-01-06T12:13:22-03:0006/01/2021|