PENTECOSTES – 23/05

Dom Paulo Cezar

Arcebispo de Brasília

 

O dom do Espírito Santo

 

Estamos celebrando o dom do Espírito Santo. O Espírito agiu conduzindo Jesus durante o seu ministério terreno e agora é dado à Igreja. O Senhor ressuscitado foi ao Pai e manda aos seus o dom do Espírito Santo.

O texto de Jo 7,39 diz: “Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado”. João afirma que o Espírito não tinha sido derramado sobre todos. Aos homens, o Espírito é doado por meio de Jesus e somente depois da Sua glorificação. O texto de João 19,30.33ss afirma que, na cruz, Jesus “entregou o Espírito”. O sopro humano ou pneuma, unido ao verbo paradidomi, pode significar que Jesus começou a dar o Espírito já na Sua glorificação na cruz (exaltação, a glorificação no levantamento da terra, típico da teologia joanina). Hipólito de Roma sublinha este aspecto com uma metáfora: “como o vaso despedaçado espalha o perfume que contém, assim, Cristo, vaso despedaçado na cruz, doa aquilo que tem, o Espírito Santo”. Em Jo 20,22 o sopro de Jesus ressuscitado sobre os discípulos é o dom do Espírito Santo. João faz aqui uma vinculação interna entre o Espírito recebido por Jesus e depois dado por Ele mesmo. Santo Irineu afirma que, depois da Páscoa, recebemos a abundância daquele Espírito recebido por Jesus no batismo do Jordão.

Em At 1,5.8 e At 2,1ss há a promessa do Espírito Santo e a atualização desta promessa em Pentecostes. São Lucas é o evangelista que mais fala do Espírito Santo. Já na concepção de Jesus, o Espírito está agindo: Maria concebe por obra do Espírito Santo (Lc 1, 35). A ação do Espírito perpassa todo o Evangelho, porém, não há uma efusão que atinja todos os presentes. A efusão se dá só depois da ressurreição/exaltação de Jesus em Pentecostes. Sobre os apóstolos reunidos, com Maria, vem o dom do Espírito Santo. Em Pentecostes, a Igreja se manifesta na sua vocação de universalidade e unidade. O evangelho deve chegar a todos os povos, línguas, nações, mas o Espírito é espírito de unidade. A verdadeira diversidade, quando provém do Espírito, é sempre geradora de unidade.

O Livro dos Atos dos Apóstolos mostra como o Espírito conduziu a Igreja nascente e a obra da evangelização. Este mesmo Espírito está presente guiando e conduzindo a Igreja hoje. Orígenes afirma que «depois que Jesus subiu aos céus, deu-nos o Espírito Santo, e nos deu no tempo da ressurreição». Irineu diz que “Jesus recebeu o Espírito do Pai, no batismo, que depois o deu à Igreja”. Tertuliano diz que “este Espírito de Jesus é dado a todos”.  Não há uma ligação cronológica, mas intrínseca. De fato, Orígenes afirma que “Jesus, agora que é novo na ressurreição, torna os apóstolos novos com a novidade da graça do Espírito Santo”. Só assim se manifesta a plenitude do Espírito que torna os homens capazes de receber a filiação divina em Cristo, na sua humanidade divinizada. Jesus torna, assim, a fonte deste Espírito, recebido do Pai, que o faz ressuscitar.

Porque não havia antes o Espírito? Porque o Espírito devia levar antes Jesus ao Pai, fazer da humanidade de Jesus aquilo que depois fará a nós, homens na Igreja. O Espírito devia ter a sua plenitude na ressurreição de Jesus, depois de ter comunicado a vontade do Pai a Jesus na sua vida terrena.

 

2021-05-24T11:53:50-03:0024/05/2021|