PERMANECER NO AMOR!

Em todos os livros da Sagrada Escritura, desde o Gênesis até o Livro do
Apocalipse, a cada nova página do Livro dos séculos, nós podemos vislumbrar o feliz
anúncio do pleno amor de Deus por nós, pois a Bíblia Sagrada não só nos fala do amor
de Deus, mas, principalmente, nos demostra que “Deus é amor”. (1 Jo 4,8).
São João Evangelista, o discípulo amado, nos ensina: “Nisto consiste o amor:
não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele quem nos amou e enviou-nos o Seu
Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados (…) Quanto a nós, amemos,
porque Ele nos amou primeiro”. (1 Jo 4,10.19).
O amor é o sinal distintivo de Deus e é, também, a principal característica dos
discípulos missionários de Jesus. O amor se mede pela fidelidade ao Senhor e pela
identificação com o Seu projeto salvífico. Desse modo, não basta somente dizer que
amamos a Deus; é imprescindível que demonstremos com obras que verdadeiramente O
amamos.
O amor não é estático e, pela sua própria natureza, está constantemente em
expansão, buscando novas formas de entrega e de complementação. Por ser expressão
de afinidade e demonstração de serviço, o amor está sempre se deparando com novos
desafios e inúmeras provações. “Temos de estar seguros de que, por mais pesadas e
tempestuosas que sejam as provações que nos esperam, não ficaremos abandonados à
nossa sorte, não cairemos nunca das mãos do Senhor, as mãos que nos criaram e que
agora nos acompanham no caminho da vida”. (Papa Bento XVI, “Audiência geral” em
07 de dezembro de 2005).
No aprendizado da fé e da santidade, o Senhor Jesus nos diz: “Permaneçam no
meu amor!” (Jo 15,9). Ele não Se limita a um pedido, a uma solicitação, pois, antes de
tudo, Ele nos concede todos os meios necessários para que possamos perseverar na
prática do Seu amor. Cristo é o amado de nossa alma e, por isso, declaramos que “o
meu Amado é para mim e eu para Ele!” (Cânt 2,16).
No dia do nosso batismo, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações,
por meio do Espírito Santo que nos foi dado”. (Rm 5,5). Desde o nosso nascimento na
vida sobrenatural da graça, nós devemos amar sem reservas Aquele que habita em nós,
capacitando-nos para a vivência do amor.
Esse nascimento na vivência do amor tende a um contínuo amadurecimento;
consequentemente, não podemos pôr limites à maturação do amor. Dia feliz em nossas
vidas foi aquele em que, movidos pelo amor, salmodiamos com a voz do coração que
“Deus é para nós refúgio e força, auxílio sempre próximo nas tribulações. Por isso, não
tememos se a terra treme, se as montanhas se abismam no fundo do mar”. (Sl 46).
A contínua resposta ao amor nos propicia a certeza de que é possível ser fiel a
toda hora e em todos os momentos. Amar é não hesitar na adesão ao bem, à verdade, à
justiça e à paz. Amar é, acima de tudo, adentrar as profundezas da misericórdia de Deus,
participando da força renovadora do amor.
Saint Exupéry, em seu livro “Terra dos homens”, nos diz que “a experiência
mostra que amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção”. Para
descobrir o que é o amor, devemos contemplar o exemplo de Cristo e saber em detalhes

para onde Ele está olhando. O olhar de Cristo nos ensina a não ter um olhar civilizado,
que se limita a regras vazias e sem sentido. Ao contrário, o olhar de Cristo nos ensina a
acolher a todos, a perdoar a todos e a se preocupar com a salvação de todos.
Olhar no fundo da pupila dos olhos de Cristo é “reconhecer que o Senhor é
Deus: Ele nos fez e somos dEle!” (Sl 100,3). Somente movidos pelo amor, teremos
coragem de olhar no fundo da pupila de Cristo, pois lá encontraremos a nossa
verdadeira face, sem máscaras e sem falsas imagens. O amor deve moldar em nossas
faces o rosto amoroso e acolhedor de nosso Redentor, a fim de que possamos evidenciar
os sinais da caridade e da divina misericórdia.
Se o mundo e cada um dos seres humanos soubessem o que é o amor na sua
essência, descobririam o fecundo valor da vida e a preciosidade que é retribuir, com
gestos de amor, o menor gesto de doação. Eis aí o segredo para se vencer as guerras, os
combates e as constantes guerrilhas que incomodam nosso sono e nossa paz.
O amor é o maior potencial de transformação que temos oculto em nossas
almas. O amor é a força que nos impele em direção à construção de um novo mundo,
onde a Boa Nova de Cristo será a regra da nossa convivência e a alavanca que nos
impulsiona na prática de todo o bem.
O amor exige uma constante regeneração, renovação, entrega, sacrifícios e um
amplo combate contra o egoísmo e o pecado. O amor exige uma mudança de vida. “A
regeneração é o início de uma vida nova. Mas, para começar uma segunda vida, é
preciso antes pôr fim à precedente. Como na corrida dupla nos estádios, em que estão
previstos uma pausa e um descanso antes de recomeçar a corrida em sentido oposto,
assim na mudança de vida faz-se necessário que uma morte se interponha entre as duas
vidas para pôr fim ao que procede e dar começo às coisas subsequentes”. (São Basílio
Magno, “De Spiritu Sancto”, XV, 35).
O amor exige uma luta diária contra as falhas, os erros, a inveja, o ciúme e todas
as imperfeições. O amor determina a contínua realização das obras materiais e
espirituais de misericórdia. Temos que aprender a apresentar ao mundo o Evangelho do
amor; afinal, o Cristianismo é a religião do amor. Amar não é uma brincadeira e nunca
será um bom passatempo. Amar é se identificar com o Deus Altíssimo. Amar é permitir
que resplandeçam em nosso corpo e em nosso espírito os sinais distintivos do amor de
Cristo.
Expressando a beleza de sua alma, Charles de Foucauld nos dá esse testemunho:
“Assim que acreditei que havia um Deus, dei-me conta de que não podia fazer outra
coisa a não ser viver para Ele”. Quando descobrimos o amor, adquirimos a certeza de
que nascemos para O amar. Correspondendo ao amor, professamos que “nada nos pode
separar do amor de Deus!” (Rm 8,39).
Da nossa permanência no amor de Cristo, brotarão em nós fecundos frutos de
santidade, de fé e de esperança. Por ser o nosso Deus adorado e amado, Cristo nos
convida à vivência do amor. “Cristo precisa de vós e vos chama para ajudar milhões de
irmãos vossos a ser plenamente homens e salvar-se. Vivei com esses nobres ideais na
vossa alma e não cedais à tentação das ideologias do hedonismo, do ódio e da violência
que degradam o homem. Abri o vosso coração a Cristo, à Sua lei de amor, sem
condicionar a vossa disponibilidade, sem medo às respostas definitivas, porque o amor e

a amizade não têm ocaso”. (Papa João Paulo II, discurso em Xavier, em 06 de
novembro de 1982).
Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo a graça de corresponder ao Seu amor com
todo o nosso ser. Senhor, sustentai-nos com o Vosso amor e ensinai-nos a amar com
obras e de verdade! Senhor, ajudai-nos a perceber que se não nos sentimos convocados
a servir, é porque amamos pouco! Senhor, queremos permanecer no Vosso amor, a fim
de que possamos produzir, com nosso suor, entrega, sacrifícios e a Vossa contínua
ajuda, um campo dourado de esperança, onde o nosso próximo possa contemplar a
generosa e bela floração da caridade que jamais terá fim!

Aloísio Parreiras

2020-07-23T07:43:49-03:0023/07/2020|