RECOMEÇAR EM CRISTO

A alvorada de uma nova manhã é muito mais do que a repetição da sequência dos dias, pois, a cada manhã, nós recebemos inúmeras possibilidades de sermos melhores, novas bênçãos e um novo convite para recomeçar. A cada manhã, podemos afirmar, utilizando as palavras de Santo Agostinho: “Enquanto houver vontade de lutar, haverá esperança de vencer”.

Recomeçar, em termos humanos, é uma necessidade. Mas, por outro lado, recomeçar, em termos espirituais, é imprescindível, pois, quando não nos renovamos no campo da fé, nós ficamos paralisados, acomodados, e até mesmo negligentes e, por isso, no itinerário da santidade, é vital que saibamos recomeçar a partir de Cristo sempre de novo; afinal, apesar dos nossos erros e infidelidades, Ele sempre nos estende a mão, mostra-se solidário para conosco e recupera tudo aquilo que em nós estava perdido. Como nos ensina o Documento de Aparecida, “a todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.

Para quem se encontra com o Cristo, na caminhada cotidiana da vida, não há meios termos: ou se reconhece necessitado d’Ele, do Seu amor e de Sua misericórdia, ou passa sem Ele e vive como um soberbo que se julga no controle de tudo. Inseridos na soberba, corremos o sério risco de esquecermos que “quem corre atrás do nada, torna-se ele próprio nulidade”. (Jr 2,5). Inseridos na soberba, corremos o sério risco de sermos um farrapo existencial de corpo e alma.

Pelos relatos dos Evangelhos, nós percebemos que Pedro, João, André, Levi, Zaqueu, a mulher adúltera, a samaritana, Nicodemos, Paulo, e tantos outros, recomeçaram suas vidas a partir de um encontro determinante e decisivo com Jesus, pois foram conquistados pelo jeito simples e acolhedor de Cristo e, a partir daquele momento, se sentiram respeitados, amados, resgatados e restaurados dos desencantos da vida, da indiferença e do descarte da sociedade. As frases proferidas pelo Cristo, tais como: “dá-me de beber”, “hoje quero entrar na sua casa”, “também Eu não te condeno, vai e não peques mais”, soaram no ouvido de seus interlocutores como uma oportunidade de ser feliz, de mudar a rota da vida, de navegar em águas mais profundas.

Além dessas pessoas, em Sua vida pública o Cristo transformou a existência de inúmeras outras que ouviram o Seu chamado e abraçaram o caminho do Evangelho quando se abriram para um novo recomeço, uma singular oportunidade. No decorrer dos séculos, o Cristo continuou transformando vidas e corações e, ainda hoje, Ele está à procura de pessoas desanimadas, tristes e deprimidas que não conseguem vislumbrar novos horizontes. Ele está vivo e ressuscitado na Igreja e, em especial, nos sacramentos que são fontes de esperança para todos nós. Ele ilumina o nosso caminho, cumulando-o de graça, infundindo-nos a fortaleza necessária para enfrentarmos os desafios cotidianos. Este é o anúncio que não podemos cessar de renovar e propagar, conscientes de que Deus é a resposta para todas as nossas inquietações.

Mas, como podemos decifrar a voz de Cristo e vislumbrar os vestígios e sinais de Sua presença em nosso meio? Como interpretar os sinais dos tempos nestes dias no qual se fazem presentes zonas de sombra e de mistério? Como corresponder a um anseio de esperança tão profundo? Penso que o melhor meio é sempre a abertura de coração, para que possamos perceber as pegadas de Cristo em nossa história. Não podemos esquecer que Deus não desiste de nós e Suas palavras são sempre atuais, “eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. (Mt 28,20).

O Cristo que caminha conosco é a Fonte da esperança que não desilude, o manancial que sacia a nossa sede de eternidade. Ele é o Deus amado que nos comunica a Sua ternura e nos envolve com bondade e humildade. Ele tem predileção pelos pequenos, pelos fracos e pelos pecadores. Ele retira do pó os indigentes e nos faz assentar à Mesa do Reino. Deste modo, quando aderimos ao amor de Deus, percebemos que Ele tomou sobre Si nossas dores e carregou em Seu Corpo os nossos pecados.

As fugas, as insanas escapadas que podemos realizar no campo da fé jamais serão boas e, por isso, é sempre oportuno voltarmos às fontes, a fim de que possamos recomeçar a partir de Cristo, pelo encontro com Sua Pessoa que nos diz: “não tenham medo! ” (Mt 24,6), “coragem, Eu venci o mundo! ” (Jo 16, 33). Hoje, nós somos provocados a recomeçar. É uma nobre atitude poder recomeçar a partir de cada queda, com a consciência de que não somos os pecados que cometemos; nós somos, sim, os discípulos de Cristo que não desistem de se levantar com a certeza de que o Senhor nos indica uma nova estrada. Levantar-se, e ser acolhido pelo Cristo, é sempre uma grata surpresa, é um passo decisivo para adentrarmos a porta estreita que nos ajuda a recobrar um novo alento, a esperança sempre nova que nos desinstala da acomodação, do derrotismo e da preguiça.

O primeiro passo que devemos trilhar ao atravessarmos a porta da fé que se abre diante de nossos olhos é cultivar a intimidade com Cristo, por meio do conhecimento de Suas palavras, gestos e ações. O segundo passo é, após a identificação com o Senhor, buscar imitá-Lo no acolhimento, no exercício da misericórdia e no encontro com o outro, diferenciando o pecado do pecador. O terceiro e decisivo passo é sempre mais exercitamos a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência e a mansidão. Agindo assim, poderemos salmodiar: “O Senhor, meu Deus, é a força que me salva! ”. (Sl 139,8).

Recomeçar a partir de Cristo é, de algum modo, perceber que o Espírito Santo age na história e nos ensina a tirar lições dos dramas humanos. É o Divino Paráclito quem, da própria agitação dos povos, suscita em nossas almas a nostalgia de um mundo diferente, onde Deus seja amado, acolhido, adorado e reconhecido como o Senhor de todas as coisas. O Espírito Santo nos ensina que, quando acolhemos as luzes de Deus, nada é mérito nosso. Ensinai-nos, Doce Espírito, a anunciar o amor de Deus com o exemplo e a força atraente da ternura que não poupa gestos e expressões acolhedoras!

Senhor Jesus Cristo, hoje e sempre, nós queremos recomeçar, a partir de Vós, com a certeza de que não podemos mais viver sem a Vossa presença transformadora, não podemos mais desperdiçar os tesouros da graça que reservastes para nós. Que a Vossa Mãe, a Virgem Santa Maria, Aurora de um novo mundo, vele sobre a Igreja e todos nós e nos torne prontos para anunciar, celebrar e servir o Evangelho da esperança.

Aloísio Parreiras 

2020-04-08T12:46:54-03:0008/04/2020|