SALVIFICI DOLORIS

Nesses nossos dias, em que estamos enfrentando a pandemia da Covid-19, a realidade do sofrimento humano é escancarada diante dos nossos olhos, evidenciando as nossas dores, fraquezas e limitações e, por isso, precisamos professar, com renovada fé, que o sofrimento humano tem sentido e é plenamente esclarecido no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, com a consciência de que “o sofrimento é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, destinado a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo”. (Papa João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici Doloris, nº 2).

Por que sofremos é uma pergunta recorrente em todos os séculos e gerações, pois o sofrimento é sempre algo difícil e inquietante. Entender, ou pelo menos procurar as necessárias respostas do que é o sofrimento, é um desafio para todos os seres humanos e, em especial, para os fiéis cristãos. Deste modo, para todos aqueles que procuram uma melhor compreensão do que é o sofrimento, eu recomendo a leitura da Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, “o sentido cristão do sofrimento humano”, do saudoso Papa João Paulo II, que foi assinada no dia 11 de fevereiro de 1984, dia da Memória Litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.

Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II, tinha muita propriedade para falar sobre o sofrimento, pois ele conheceu o sofrimento desde jovem, pois perdeu a sua mãe muito cedo e enfrentou, bem de perto, a Segunda Guerra Mundial, a ascensão do Nazismo, do Fascismo e do Socialismo. Em seu pontificado, o Papa João Paulo II também conviveu, de forma muito particular, com o sofrimento, pois, por volta das 17 horas do dia 13 de maio de 1981, dia de Nossa Senhora de Fátima, ao atravessar a praça de São Pedro, ele sofreu um grave atentado, sendo atingido por um tiro disparado pelo terrorista turco, Ali Agca. Estes episódios, em especial o atentado sofrido na praça de São Pedro, levaram o Papa a escrever sobre a riqueza do sofrimento humano, pouco tempo depois do restabelecimento das boas condições de sua saúde, ou seja, três anos após o atentado terrorista. Nesse documento singular e esclarecedor, o Papa nos ensina que o sofrimento humano só pode ser compreendido na sua perspectiva cristológica, a partir do sofrimento redentor de Jesus.

Essa Carta Apostólica possui uma introdução, seis capítulos e uma conclusão. Logo na introdução, o Santo Padre recorda-nos as palavras surpreendentes de São Paulo aos Colossenses: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja”. (Cl 1, 24). Desde modo, já nas primeiras linhas da Carta Apostólica, nós somos chamados a perceber que o sofrimento é uma experiência humana fundamental de que ninguém pode escapar, da qual cada um de nós tem a sua própria vivência, seja no campo físico, psíquico ou espiritual. O sofrimento é uma experiência forte e direta, que não deixa ninguém indiferente, pois “o sofrimento humano suscita compaixão, inspira também respeito e, a seu modo, intimida”. (Salvifici Doloris, nº 4).

Mergulhando na riqueza do sofrimento, o Papa nos adverte que o sofrimento é um mistério que está além do entendimento humano. É um ato humano se questionar: Por que existe o mal no mundo? Por que Deus permite o sofrimento? Mas, é um ato de fé reconhecer que o sofrimento está associado ao amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o mediante o sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da Cruz de Cristo e nela encontra constantemente o seu princípio. Sem a contemplação do sofrimento redentor de Cristo, toda e qualquer explicação sobre o sofrimento se mostra inadequada e insuficiente. Em outras palavras: “Na Cruz está o Redentor do homem, o Homem das dores, que assumiu sobre Si os sofrimentos físicos e morais dos homens de todos os tempos, para que estes possam encontrar no amor o sentido salvífico dos próprios sofrimentos e respostas válidas para todas as suas interrogações” (Salvifici doloris, nº 31).

No capítulo sobre o mundo do sofrimento humano, o Papa nos adverte que “o sofrimento é algo mais amplo e mais complexo do que a doença e, ao mesmo tempo, algo mais profundamente enraizado na própria humanidade”. (Salvifici doloris, nº 5). As dimensões do sofrimento são janelas que se abrem, mesmo diante das dores, deixando entrar o ar puro e sagrado da fé. A vida humana é bela e deve ser vivida plenamente, mesmo quando é frágil ou envolvida pelo mistério do sofrimento.

Nas dores, dificuldades e contrariedades, é para o Cristo crucificado que devemos elevar o nosso olhar, pois, morrendo na Cruz, Ele compartilhou conosco a dor de toda a humanidade, Ele demonstrou que o sofrimento é vencido pelo Amor. Dessa maneira, “não nos é permitido passar adiante, com indiferença diante de quem sofre. Bom samaritano é todo homem que se detém junto ao sofrimento de um outro homem, seja qual for o sofrimento. Bom samaritano é todo homem sensível ao sofrimento de outrem, o homem que se comove diante da desgraça do próximo”. (Salvifici doloris, nº 28).

Nos capítulos seguintes dessa Carta Apostólica, o Papa esclarece que muitas vezes é preciso um longo tempo para que a compreensão do que é o sofrimento se torne perceptível. Mas não podemos esquecer que o sofrimento será sempre um mistério intangível; afinal, o primeiro passo no caminho do sofrimento deve ser sempre um sim ao chamado de Deus, que nos apresenta a cruz do sofrimento. Ele nos diz: “Segue-me! Vem! Por meio do seu sofrimento toma parte na obra de salvação do mundo que se realiza na Minha Cruz! ”.

Como sabemos, os sofrimentos de valor infinito de Cristo, Homem e Deus verdadeiro, não têm necessidade de outras dores para salvar, constituindo a única causa de salvação para todos. Cristo nos salva por intermédio da morte do Seu Corpo. Nós, os seres humanos, somos salvos, e ajudamos a salvar, com os sofrimentos de Jesus, que oferece a todos nós a oportunidade de sofrer com Ele e, juntamente com Ele, em ordem a continuar a salvar n’Ele, também mediante o sofrimento da Sua própria carne. Cristo nos salva na Igreja e a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, continua a salvar o mundo por meio dos padecimentos de cada um dos seus membros. Assim, por sermos membros da Igreja, nós completamos por vocação recebida do Senhor os mesmos sofrimentos de Cristo.

O Papa deixa claro que existe o Evangelho do sofrimento, ou seja, o sofrimento é uma boa nova que liberta, quando evidencia que “no sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular”. (Salvifici doloris, nº 26).  Essa graça precisa ser acolhida, cuidada e adubada, a fim de que possa crescer na justiça e na esperança, fortalecendo o nosso agir cristão que nos leva a testemunhar que “o Evangelho é a negação da passividade diante do sofrimento”. (Salvifici doloris, nº 30). Afinal, “Cristo ensinou o homem a fazer o bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer o bem a quem sofre”. (Salvifici doloris, nº 30).

Na conclusão, o Papa reitera: “Tal é o sentido do sofrimento: verdadeiramente sobrenatural e, ao mesmo tempo, humano; é sobrenatural, porque se radica no mistério divino da Redenção do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a sua própria missão”. (Salvifici doloris, nº 31).  Antes de concluir, o Papa faz ainda um pedido a todos aqueles que estão atravessando a noite escura do sofrimento: “Pedimos, a todos vós que sofreis, que nos ajudeis. Precisamente a vós, que sois fracos, pedimos que vos torneis uma fonte de força para a Igreja e para a humanidade. Na terrível luta contra as forças do bem e do mal, de que o nosso mundo contemporâneo nos oferece o espetáculo, que vença o vosso sofrimento em união com a Cruz de Cristo! ”. (Salvifici doloris, nº 31).

Nessa noite escura da pandemia da Covid-19, nós estamos observando inúmeras manifestações de sofrimento no Brasil e no mundo que estão gravemente enfermos e, por isso, em alguns momentos, nos sentimos incapazes de agir e, se não cuidamos, podemos ser arrastados pelas dificuldades espirituais, pelo desânimo e pela aridez. Mas, por outro lado, essa noite escura é um tempo favorável para reforçarmos nossa pertença a Deus e à Igreja com a consciência de que o mundo necessita do testemunho de fé e de esperança dos fiéis cristãos; o mundo precisa vislumbrar a maturidade interior e a grandeza espiritual dos membros da Igreja e, por isso, professemos a certeza de que o sofrimento é um mistério, mas é, acima de tudo, um convite do Cristo para participarmos da Sua obra redentora. Mergulhados nos mistérios salvíficos de Jesus e “com Maria, Mãe de Cristo, que estava de pé junto à Cruz, nós nos detemos junto a todas as cruzes do homem de hoje”. (Salvifici doloris, nº 31).

Aloísio Parreiras

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.