SANTA CLARA DE ASSIS

A história da Igreja ao longo dos séculos revela a presença e a importância de santas mulheres que transformaram a sua época e os costumes desde as primeiras comunidades cristãs e, por isso, nós temos na Igreja um número expressivo de santas mulheres que foram canonizadas. Existem, inclusive, algumas que receberam o título de doutoras da Igreja, pois se destacaram por seu saber teológico: Teresa de Ávila, Catarina de Sena, Teresa de Lisieux e Hildegarda de Bingen.

Uma das santas mulheres que brilha na constelação da Igreja e nos inspira na correspondência ao amor de Cristo é Santa Clara de Assis, que nasceu em 1193, no século XII, na Itália. Clara pertencia a uma família aristocrática e rica e foi contemporânea e grande amiga de São Francisco de Assis.

Uma curiosidade a respeito de Clara de Assis é que o seu nome vem de uma inspiração dada à sua fervorosa mãe. Por meio dessa inspiração, a sua mãe teve conhecimento de que teria uma filha que haveria de iluminar o mundo com sua santidade.

Desde a sua infância, Clara demonstrava caridade, ternura, acolhimento e respeito para com os pobres e os excluídos da sociedade e, por isso, aos 18 anos, após ouvir os sermões de Francisco e refletir sobre o sentido da vida, com um gesto audaz e repleto de fé, a jovem Clara de Assis renunciou à nobreza e à riqueza para viver humilde e pobre, seguindo a forma de vida proposta pelo jovem e entusiasmado Francisco.

No Domingo de Ramos de 1211, ela abandonou o seu lar e foi ao encontro de Francisco na Porciúncula, onde teve seus cabelos cortados como sinal de entrega total ao Cristo pobre e obediente. Seu pai teve dificuldades em aceitar a sua vocação e tentou levá-la de volta para casa, mas ao ver a cabeça raspada de sua filha, percebeu a profundidade da vocação de Clara. Por meio desse gesto de desprendimento da riqueza e até de seus belos cabelos, Clara se tornou a virgem esposa de Cristo, pobre e humilde, consagrando-se totalmente ao nosso Redentor. Por meio desse gesto de entrega, Clara professava ao Senhor: “Não procuro as tuas coisas, eu te procuro!”. (2 Cor 12, 14).

A partir daquele Domingo de Ramos, Clara testemunhou sempre mais a sua entrega, o seu serviço e disponibilidade para a obra de Deus em favor dos pobres e dos marginalizados. Em todas essas ações, Clara testemunhava que, quando participamos do Reino de Deus, adquirimos a consciência de que reinar é servir. No cuidado dos pobres, ela gostava de afirmar: “Beata pobreza! Aos que te amam e te abraçam, dás riquezas eternas”.

A serviço da Igreja, Clara e outras moças que eram suas amigas, fascinadas pelo amor de Cristo e renovadas pela graça, ajudaram a concretizar o pedido de Deus a São Francisco: “Reconstrói a minha Igreja”. Trabalhando nesse serviço de reconstrução da igreja, ali, na igreja de São Damião, Clara de Assis deu início à Ordem, contemplativa e feminina, da Família Franciscana, as Clarissas, da qual se tornou mãe e modelo.

Em obediência à vontade de Deus, “Clara foi a primeira mulher na história da Igreja a compor uma Regra escrita, sujeita à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis fosse preservado em todas as comunidades femininas que se iam estabelecendo já nos seus tempos e que desejavam inspirar-se no exemplo de Francisco e Clara. São os santos aqueles que alteram o mundo para melhor, transformam-no de modo duradouro, incorporando as energias que somente o amor inspirado pelo Evangelho pode suscitar. Os santos são os grandes benfeitores da humanidade”. (Papa Bento XVI, Catequese em 15 de setembro de 2010).

Clara encontrou em Francisco de Assis não apenas um mestre cujos ensinamentos devia seguir, mas inclusive um amigo fraterno, um irmão que nutria um amor singular por Jesus Cristo e que expressava a beleza do Evangelho na vivência da divina Providência e na santificação da senhora pobreza. A amizade entre Clara e Francisco é um belo testemunho de que a santidade é contagiante, pois todo aquele que abraça o serviço do Reino dos Céus carrega consigo outras pessoas que ajudam a transformar o que parece impossível em possível, mediante um forte estímulo para percorrer o itinerário da perfeição na correspondência ao Amado.

No ano de 1198, a cidade de Assis sofreu uma invasão dos sarracenos, os mulçumanos, que tentaram invadir o convento das Clarissas. Mesmo doente e acamada, Santa Clara fez questão de ir até o portão de entrada. Ali, em lágrimas, ela segurou o ostensório com o Santíssimo Sacramento e bradou: “Senhor, guardai Vós estas Vossas servas, porque eu não as posso guardar!”. Logo depois, ouviu-se uma voz suave, dizendo: “Eu te defenderei para sempre!”. Diante daquela intervenção do próprio Deus, os sarracenos foram tomados por um grande medo e fugiram sem invadir ou saquear o convento.

Mesmo sendo a abadessa do Convento das Clarissas, Clara era uma pessoa extremamente humilde, simples e dedicada e, por isso, nunca deixou de prestar diversos serviços. À imitação de Cristo, ela servia a mesa e cuidava das enfermas, sobretudo daquelas vítimas das doenças mais repulsivas. Quando não podia se levantar, acomodava-se em seu leito e ficava horas bordando paramentos para as igrejas pobres.

Clara de Assis contraiu uma incômoda enfermidade que a acompanhou ao longo dos últimos vinte e oito anos de sua vida. Em seus momentos derradeiros, ela teve a graça de receber a visita do Papa Inocêncio IV, acompanhado de seus cardeais. Ela faleceu no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade. Suas últimas palavras foram dirigidas à sua própria alma: “Vai em paz, minha alma! Tens um guia seguro que te mostrará o caminho: Aquele que te criou, santificou, amou e não cessou de vigiar com ternura de uma mãe que zela pelo filho único de seu amor. Dou graças e bendigo ao Senhor porque Ele criou a minha vida”.

No ano de 1255, menos de dois anos após a morte de Clara de Assis, ela foi incluída no catálogo dos santos, e elevada à honra dos altares pelo Papa Alexandre IV, pois inúmeras eram as evidências dos milagres obtidos por meio de sua intercessão. Na bula de canonização, o Papa teceu-lhe o seguinte elogio: “Quão vivo é o poder desta luz e quão forte é o brilho desta fonte luminosa. Na verdade, essa luz tinha-se enclausurado no escondimento da vida monástica e irradiava luzes cintilantes; recolhia-se em um mosteiro estreito, e expandia-se ao longo da vastidão do mundo. Mantinha-se dentro e difundia-se fora. Clara, de fato, escondia-se; mas a sua vida foi revelada a todos. Clara ficou em silêncio, mas sua fama gritava”.

Por tudo o que realizou em prol da propagação do Evangelho, da santificação da pobreza e do acolhimento da vontade do Senhor, Santa Clara de Assis se tornou uma lâmpada acesa sobre o candelabro para iluminar todos os discípulos missionários de Jesus. Ela marcou uma época e deixou um importante legado espiritual para todas as gerações e, de um modo especial, ela deixou registrada na memória da História da Igreja uma linda história de fé, de devoção, de serviço e de amor.  Santa Clara de Assis, rogai por nós!

Aloísio Parreiras

2020-08-11T21:37:55-03:0011/08/2020|