SANTA MARTA

A Igreja celebra no dia 29 de julho a Festa litúrgica de Santa Marta, irmã de
Maria e de Lázaro, que foi contemporânea, amiga e discípula de Cristo e, por isso, na
última etapa de Sua vida pública, Jesus se hospedou com frequência na casa dos irmãos
de Betânia, evidenciando que o lar de Betânia, que ficava a três quilômetros de
Jerusalém, era um lugar de acolhimento e de descanso para Ele e os Seus Apóstolos.
Marta é mencionada treze vezes nos Evangelhos e é considerada a padroeira do
lar, das cozinheiras, das donas de casa, dos anfitriões e das irmãs de caridade, pois ela
sempre demonstrou uma grande aptidão de serviço ao exercer seus trabalhos de dona de
casa com extrema diligência, zelo e responsabilidade.
No Evangelho, Marta é apresentada como modelo ativo de quem acolhe: “Jesus
entrou em uma cidade e uma mulher chamada Marta O recebeu em sua casa”. (Lc
10,38). Naquele dia, Cristo e os Seus Apóstolos chegaram sem avisar ao lar de Betânia
e, para receber bem ao Senhor, Marta se mergulhou nos afazeres domésticos, no preparo
da refeição, sem perceber, talvez, que o Cristo gostaria de ter sua presença ao lado da
irmã Maria, como ouvinte carinhosa e atenta de Sua mensagem libertadora.
Naquele inesquecível dia, “Marta o recebeu como costumam ser recebidos os
peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o
Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o
alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual”. (Santo Agostinho, Sermão
103).
A certa altura dos inúmeros preparos para a comensalidade, Marta demonstrou
que estava preocupada com os afazeres domésticos e, por isso, disse ao Cristo: “Senhor,
não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.
Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas
coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que não
lhe será tirada”. (Lc 10, 40-42).
Tal atitude lhe rendeu uma correção fraterna e carinhosa do Cristo, que, na
memória da Igreja, tornou-se um singular ensinamento para todos nós: as coisas de
Deus não podem nos afastar do Senhor de todas as coisas. Em outras palavras: a melhor
parte deve ser encontrada na Palavra do Senhor e em Seus ensinamentos, pois as coisas
espirituais são mais importantes que as coisas materiais.
É evidente que Cristo não censurou a Marta pela solicitude caseira, cheia de
detalhes e de gentilezas, mas pela sua excessiva preocupação material, que lhe fazia
esquecer a precedência absoluta que devemos demonstrar na presença do Senhor.
Escutar ao Senhor com atenção, silêncio, prontidão e generosidade é o desafio que o
nosso Redentor fez a Marta e faz a cada um de nós, pois, por meio da escuta e
meditação da Palavra de Deus, nós adquirimos a consciência de que o Cristo é o
Redentor do mundo e n’Ele está a nossa salvação.

No diálogo com Marta, Cristo demonstrou que nós, os seres humanos, temos
necessidade de sermos alcançados pela luz da revelação e pela potência redentora da
graça, pois, longe da Sua luz, tudo se torna obscuro, contraditório e enigmático. Na
espiritualidade da Igreja, no decorrer dos séculos, esse diálogo de Marta com Jesus
passou a ilustrar a necessidade de equilibrar, com harmonia, a vida ativa e a vida
contemplativa, priorizando sempre a quietude de espírito e a consciência da presença do
Senhor em meio às agitações do dia a dia.
No saudável aprendizado da alegria do Evangelho, no aprimoramento da
amizade com o Cristo, Marta percorreu a senda da santidade e da fé. Convivendo com o
Mestre, ouvindo-o e servindo-o, Marta serviu ao Reino dos Céus. Por ser uma atenta
discípula do Senhor, Santa Marta nos ensina que não podemos nos perder no ativismo,
mas devemos envolver o nosso cotidiano com a luz da Palavra de Deus e assim
aprendermos a caridade autêntica que se expressa no serviço a Deus e à Igreja.
Santa Marta nos faz uma sábia advertência: no cuidado com as coisas do Senhor
não podemos esquecer que “as ocupações excessivas, uma vida frenética, terminam
muitas vezes por endurecer o coração e fazer sofrer o espírito”. (São Bernardo). Desse
modo, “procuremos também nós ter aquilo que não nos pode ser tirado, prestando à
Palavra do Senhor uma atenção diligente, não distraída: até as sementes da palavra
celeste podem perder-se, se forem lançadas ao longo do caminho. Estimule-te também a
ti, como a Maria, o desejo de saber: esta é a obra maior e mais perfeita”. (Santo
Ambrósio, Exposição ao Evangelho de São Lucas, VII, 85).
Outro momento do Evangelho em que Marta é apresentada como modelo de
seguidora de Jesus é no episódio da doença, da morte e da ressureição de seu irmão,
Lázaro. Naquele dia, após a morte de Lázaro, Marta mandou chamar Jesus que demorou
a chegar e, por isso, Lázaro foi sepultado. Quatro dias após o sepultamento de Lázaro,
Cristo chegou a Betânia. Marta correu até Ele, ajoelhou-se aos Seus pés e lhe disse:
“Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”. (Jo 11, 21).
Estas palavras de Marta evidenciam a confiança que ela tinha em Cristo e a frase
que ela pronunciou, logo em seguida, demonstrou a sua fé incondicional em nosso
Redentor: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas, mesmo
assim, eu sei que o que pedires a Deus, Ele te concederá. Respondeu-lhe, Jesus: ‘Teu
irmão ressuscitará’. Disse Marta: ‘Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último
dia’. Então Jesus disse: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, mesmo que
morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá jamais. Crês nisso?’.
Respondeu ela: ‘Sim, Senhor, eu creio firmemente que Tu és o Messias, o Filho de
Deus, que devia vir ao mundo”. (Jo 11, 21-27). Naquele dia, Cristo chorou
testemunhando o alcance de Sua amizade pela família de Betânia e, logo depois, Ele
ressuscitou a Lázaro e muitos passaram a crer n’Ele.
Mesmo diante da morte física de seu irmão, Lázaro, Marta não perdeu a
serenidade, a confiança e a fé em Cristo. Assim, ela demonstrou que, por meio da escuta
dos ensinamentos do Senhor, a sua fé estava firme, decisiva e serena. Essa serenidade

na fé é um convite a não nos inquietarmos e nem nos preocuparmos com tantas coisas,
quando uma só é suficiente: estar perto de Cristo.
Santa Marta de Betânia nos orienta sobre a necessidade do recolhimento interior
e da perseverança na oração, a fim de que possamos nos defender do ativismo,
cultivando sempre uma sólida e fecunda amizade com o Cristo. Aprendamos, com o
zelo e a dedicação de Santa Marta, a perseverar no aprendizado diário da hospitalidade,
da comensalidade e do acolhimento do Senhor em nossos lares, em nossas famílias e em
nossos corações. “Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom
serviço!”. (Santo Agostinho, Sermão 103). Santa Marta de Betânia, rogai por nós!

Aloísio Parreiras

2020-07-29T11:59:16-03:0029/07/2020|