SANTO AGOSTINHO

“Onde o pecado abundou, superabundou a graça”. (Rm 5, 20). Essa frase da
Carta de São Paulo aos Romanos pode ter utilizada para compendiar a vida de Santo
Agostinho, talvez o maior dos Padres da Igreja do Ocidente, que é para todos nós um
belo modelo do caminho rumo a Deus, suprema Verdade e sumo Bem.
Aurélio Agostinho de Hipona nasceu no dia 13 de novembro de 354, no século
IV, em Tagaste, na cidade de Numídia (hoje Argélia), no norte da África. Os períodos
de sua infância e adolescência transcorreram em um ambiente limitado por um povoado
perdido entre montanhas. Seu pai, Patrício, era pagão e sua mãe, Mônica, uma cristã
muito devota que exerceu grande influência em sua conversão.
Toda a vida de Agostinho foi uma apaixonada busca da Verdade. Porém,
influenciado pelo pai, durante longo período de sua vida, ele não se importou com a fé.
Aos dezessete anos, ele foi para Cartago estudar retórica, pois era um jovem de grande
capacidade intelectual. Naquela cidade, ele procurava respostas para os seus
questionamentos, tanto nas paixões, como nas diversas correntes filosóficas e, por isso,
tornou-se membro da seita dos maniqueus.
Agostinho buscou no hedonismo, nos prazeres corporais, de maneira egoísta e
possessiva, com comportamentos que suscitaram não pouca dor em sua mãe, a
felicidade que tanto buscava. Desse modo, em seu segundo ano de estudo, ele passou a
viver com uma mulher cartaginense, com a qual teve um filho chamado Adeodato. Ao
se referir a esse período de sua vida em Cartago, ele escreveu: “Durante nove anos – dos
dezenove aos vinte e oito anos – fui ao mesmo tempo seduzido e sedutor, enganado e
enganador. Comportava-me com um soberbo na minha atividade, como um
supersticioso na minha religião, e sempre como um homem vazio”.
Buscando a Verdade onde ela não se encontrava, Agostinho viveu uma
prolongada aflição interior, mas, impulsionado pela oração de sua mãe e pela ação da
graça divina, ele descobriu em nosso Senhor Jesus Cristo o sentido último e completo
da própria vida e de toda a nossa História.
Com o passar do tempo, Agostinho se afastou dos maniqueus, que o desiludiram
precisamente sob o ponto de vista intelectual, pois não esclareceram as suas dúvidas.
Logo depois, ele se transferiu para Roma, e ainda para Milão, na Itália.
O seu processo de conversão, a sua busca pela Verdade, ganhou um singular
incentivo quando, na luta contra os desejos da carne, no acalorado combate que travava
consigo mesmo, se questionava: “Até quando, até quando continuarei a clamar amanhã,
amanhã! Por que não hoje? Por que não agora mesmo, e ponho fim a todas as minhas
misérias”.
Naquele bom combate, Agostinho escutou uma voz que vinha da casa vizinha,
que cantarolava e dizia: “Toma e lê”. Naquele momento, ele abriu a Bíblia Sagrada e
leu a seguinte citação: “Não andeis já em comilanças e bebedeiras; nem na cama
fazendo coisas impudicas; deixai já as contendas e rixas; e revesti-vos de Nosso Senhor

Jesus Cristo”. (Rm 13, 13- 14). A partir daquele dia, ele começou a trilhar o caminho da
alegria do Evangelho e a contemplar na Pessoa de Jesus o nosso Redentor, o Amor que
precisa ser amado.
Agostinho foi catequisado pelo Bispo Santo Ambrósio e, aos 32 anos, foi
batizado durante a Vigília Pascal, na Catedral de Milão, no dia 24 de abril de 387. O seu
batismo foi, certamente, o auge do seu itinerário rumo a Deus e à Igreja. “Depois do
batismo, Agostinho decidiu regressar à África com os amigos, com a ideia de praticar
uma vida comum, de tipo monástico, ao serviço de Deus. Mas em Óstia, à espera de
partir, a mãe imprevistamente adoeceu e pouco mais tarde faleceu, dilacerando o
coração do filho. Regressando finalmente à pátria, o convertido estabeleceu-se em
Hipona para ali fundar um mosteiro. Nesta cidade da beira-mar africana, apesar das suas
resistências, foi ordenado presbítero em 391 e iniciou com alguns companheiros a vida
monástica na qual pensava há tempos, dividindo os seus dias entre a oração, o estudo e
a pregação. Ele desejava estar só ao serviço da verdade; não se sentia chamado à vida
pastoral, mas depois compreendeu que a chamada de Deus era para ser pastor entre os
outros, e oferecer assim o dom da verdade aos demais. Em Hipona, quatro anos mais
tarde, em 395, foi consagrado Bispo”. (Papa Bento XVI, Audiência em 9 de janeiro de
2008).
Cristo era a resposta que Agostinho procurava para saciar a sua sede de verdade,
de felicidade e de paz, mas não sabia onde a encontrar e, por isso, desde o dia em que
ele encontrou a Pessoa de Jesus Cristo, a sua vida transformou-se radicalmente. Ao
descrever a sua conversão em seu livro “As confissões”, ele afirmou poeticamente:
"Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e
eu estava fora, e aí te procurava. Estavas comigo e eu não estava Contigo. Mas Tu me
chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a
minha cegueira".
Renovado pelo impulso da graça divina, renascido para a comunhão com Deus,
Santo Agostinho foi um filósofo, escritor, presbítero, bispo e um importante teólogo
cristão. Suas concepções sobre as relações entre a fé e a razão, entre a Igreja e o Estado,
dominaram todo o período medieval de nossa História e permanecem, até hoje, como
um tesouro precioso que precisamos aprender a explorar.
Em seu ministério pastoral de sacerdote e de bispo, Santo Agostinho teve que se
confrontar com diversos erros, heresias e cismas que dilaceravam a unidade da Igreja.
Hoje, contemplando a importância de Santo Agostinho no combate às heresias, nós
podemos afirmar: “No meio da Igreja, o Senhor colocou a palavra nos seus lábios; deu-
lhe o espírito de sabedoria e inteligência e o revestiu de glória”. (Eclo 15,5).
A vida, os ensinamentos e o testemunho de conversão de Santo Agostinho
pertencem ao patrimônio da Igreja, evidenciando que longe de Deus jamais seremos
felizes, plenos e completos. Santo Agostinho, mestre de interioridade e de caridade para
toda a Igreja, nos ensina que nós não podemos encontrar sozinhos a Verdade, mas a
Verdade, que é uma Pessoa, encontra-nos.

A vida e a história de Santo Agostinho são a feliz comprovação de que a
misericórdia do Senhor faz maravilhas em todos aqueles que se abrem ao desafio da fé,
e, por isso, Agostinho é para todos nós uma luz, um referencial na senda da santidade.
Santo Agostinho, por sua intercessão, obtenha para os nossos familiares e
amigos que estão afastados de Deus o dom de um encontro profundo e sincero com
Jesus, a fim de que possam saciar sua sede de felicidade e, desse modo, possam
abandonar os caminhos equivocados que se perdem em becos escuros sem saída.
Santo Agostinho, ensinai-nos a rezar, com serenidade e confiança, uma de suas
invocações ao Senhor: “Ó Amor, que ardes sempre e nunca se extingues, Caridade, meu
Deus, inflama-me!”. (Confissões, X, 29). Santo Agostinho, rogai por nós!

Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-08-28T14:45:45-03:0028/08/2020|