SÃO FRANCISCO CARIOCA

São Francisco carioca é o nome que era dado a Guido Vidal França Schaffer, médico do corpo e da alma, surfista e seminarista cuja vida, apesar de breve, é rica de ensinamentos. Guido era, em diversos aspectos, um típico jovem carioca da zona sul: saía com os amigos para jogar futebol, surfar, gostava de subir montanhas, trabalhava e frequentava a faculdade. De onde vem, então, o nome São Francisco carioca?

Vem da expressão do serviço aos pobres, pois Guido, impulsionado pelo testemunho da vida de São Francisco de Assis, ouviu o chamado de Deus para mergulhar em águas mais profundas, passando assim a enxergar em sua prancha de surf uma oportunidade de apostolado junto aos jovens surfistas e no cuidado dos pobres um convite a passar pelo mundo fazendo o bem.

Guido deixou-se guiar pela lógica do Evangelho e, por isso, ele demonstrava um profundo amor pelos doentes, os marginalizados e os mais necessitados, ensinando-nos que amar é acolher, é sofrer pelo outro, é ter compaixão, é fazer nossa a dor de quem está enfermo.

No exercício da medicina, Guido se dedicava a todos os enfermos que cruzavam os seus caminhos, mesmo aqueles que não tinham como pagar o tratamento. Ele era clínico geral na Santa Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro. Ali, ele se dedicou à Pastoral da Saúde. Mas, como o tempo de quem serve a Deus é sempre mais largo do que o tempo dos egoístas, Guido também trabalhou como voluntário na obra das irmãs missionárias da caridade no atendimento às pessoas em situação de rua.

Em suas consultas, ele era sempre atencioso e tratava os doentes com zelo, atenção e caridade. Desse modo, não se limitava a apenas falar das dores ou enfermidades dos pacientes, pois gostava de ouvi-los falar de suas famílias, das coisas do dia a dia e da vivência da fé, evidenciando assim que cuidava não só do corpo, mas, principalmente, da alma.

Por ter sido transformado pelo amor de nosso Redentor, Guido não esperava os doentes chegarem ao hospital, pois sabia que, para muitos deles, uma consulta médica era algo difícil de ser realizado e, por isso, o seu ambulatório eram as ruas, os viadutos e todos os lugares da cidade onde encontrasse uma pessoa necessitando de cuidados médicos.

Encontrar doentes sem assistência era para Guido um sinal de que Deus queria que ele fosse o bom samaritano que iria acolhê-los com misericórdia. Dessa maneira, o seu serviço como médico era voltado para o próprio Cristo, escondido sob o rosto dos pobres. Aos médicos que trabalhavam com ele, Guido gostava de afirmar: “É preciso abastecer o espírito através da oração para que a área da saúde seja renovada”.

Além do serviço da medicina, Guido sempre organizava com outros jovens de sua Paróquia algumas oportunidades para encontrar os pobres nas ruas do Rio de Janeiro. Eles levavam um lanche, remédios, roupas e calçados, sobretudo nos dias de frio, e uma certeza em seus corações: quem precisa de ajuda, quem tem fome, sede, frio e está enfermo não pode esperar. Nesse serviço social, a ajuda material era vital, mas Guido e os demais jovens levavam muito mais do que o pão, pois eles ofereciam acolhimento, escuta e, acima de tudo, o amor de Jesus Cristo.

Quando se encontrava com os pobres, os excluídos e os enfermos e prestava-lhes o auxílio necessário, de algum modo, Guido ouvia o Cristo lhe dizer: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a Mim que o fizestes!”. Por sua vez, sempre que julgava que estava fazendo muito pouco para o advento do Reino de Deus, em oração, Guido dizia ao Senhor: “Eu, ainda, não sei te amar como Francisco te amou!”

Por todo o cuidado, carinho e tratamento dedicados aos pobres e aos enfermos, Guido era considerado o São Francisco carioca, o jovem da zona sul que poderia ter permanecido na comodidade de sua casa e de seu bairro, mas, por amor a Deus, ele preferiu percorrer as periferias do Rio de Janeiro para se encontrar com os excluídos. Agindo assim, Guido conquistou a simpatia e o coração de outros jovens, de diversos médicos, dos pobres e dos enfermos que perceberam que as suas palavras e ações eram simples, mas, ao mesmo tempo, repletas de determinação e de sinais de caridade. Quando era questionado de onde nascia o seu amor pelos pobres, ele afirmava: “De um coração adorador que nasce o amor aos pobres!”

O jovem médico também era um surfista. O mar era uma das suas paixões. E foi no mar, no dia 1º de maio de 2009, com apenas 34 anos e faltando um ano para sua ordenação sacerdotal, que Guido morreu fazendo o que amava: o surfe. Ele foi vítima de um afogamento, enquanto surfava na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na Missa de corpo presente de Guido Schaffer, Dom Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, estendeu uma estola sobre o corpo de Guido e disse: “Tu não foste sacerdote aqui na terra, mas serás no céu!”.

O processo de beatificação de Guido Schaffer está em andamento e, em breve, Guido poderá ser elevado à honra dos altares.  Diante das necessidades dos pobres, Guido nos ensina a rezar: “Libertai-me, Senhor, do meu egoísmo e da minha indiferença pelo sofrimento do meu semelhante!”.

Guido, ensinai-nos a servir aos pobres com a certeza de que eles são o tesouro da Igreja! Guido, hoje, contemplando a sua vida, exemplo e testemunho, nós podemos afirmar: “Os que instruírem a muitos para a justiça, brilharão como as estrelas sempre e eternamente!”. (Dn 12,3).

Aloísio Parreiras

2020-08-19T20:31:09-03:0019/08/2020|