SÃO JOÃO PAULO II E OS JOVENS

Esse centenário do nascimento de Karol Wojtyla é uma boa ocasião para fazermos memória do carinho, apreço, estima e cuidado que ele sempre demonstrou para com os jovens, pois, em suas viagens apostólicas, em suas homilias, em suas encíclicas, cartas apostólicas e livros biográficos, o Papa João Paulo II sempre demonstrou um imenso amor pela juventude. E os jovens, inspirados em Santa Catarina de Sena, souberam reconhecer em São João Paulo II “o doce Cristo na terra”.

Na inauguração do seu Pontificado, em 22 de outubro de 1978, após o encerramento da liturgia, em plena Praça de São Pedro, o Papa João Paulo II se dirigiu aos jovens: “Vocês são a esperança da Igreja e do mundo. Vocês são a minha esperança” (Cruzando o limiar da esperança, 19). Certamente, essa afirmação causou muito incômodo, pois nas décadas anteriores os jovens eram vistos como revolucionários, contestadores e, acima de tudo, uma grande massa de alienados.

Nesses quase 27 anos de pontificado, o Papa João Paulo II contribuiu eficazmente para o resgate do jovem como aquele que é capaz de servir, aquele que sabe colaborar para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Ele nunca se cansou de professar que “nos jovens há um imenso potencial de bem e de possibilidades criativas(…). Nós precisamos do entusiasmo dos jovens. Temos necessidade da alegria de viver que os jovens têm” (Cruzando o limiar da esperança).

Em João Paulo II os jovens descobriram o bom pastor que indica o rumo certo, o amigo que ajuda a aplainar as veredas e o companheiro que se faz irmão, na concretização dos ideais da vida. E por tudo isso, em todos os países do mundo que foram visitados pelo Papa, ele procurou os jovens, e em todos esses lugares os jovens procuraram o Papa. Um desses momentos foi em maio de 2003, quando o mundo assistiu, com grande emoção, uma multidão de jovens espanhóis clamarem em uníssono: “Tu és jovem, Santo Padre!”

No segundo ano de seu pontificado, em 1980, o Papa João Paulo II visitou o Brasil. Em julho daquele ano, ele se reuniu com os jovens em Belo Horizonte. Na ocasião, ele nos falou: “A maior riqueza deste país, imensamente rico, são vocês. O futuro real deste país do futuro emana do presente de vocês. Por isso, este país, e com ele a Igreja, olham para vocês com um olhar de expectativa e de esperança. Partilhando como sacerdote, bispo e cardeal a vida de inúmeros jovens na Universidade, nos grupos juvenis, nas excursões de montanhas, nos círculos de reflexão e oração, aprendi que um jovem começa perigosamente a envelhecer, quando se deixa enganar pelo princípio, fácil e cômodo, de que ‘o fim justifica os meios’, quando passa a acreditar que a única esperança para melhorar a sociedade está em promover a luta e o ódio entre grupos sociais, na utopia de uma sociedade sem classes, que se revela bem cedo a criação de novas classes. Convenci-me de que só o amor aproxima o que é diferente e realiza a união na diversidade(…). Meus amigos, vocês são responsáveis pela conservação dos verdadeiros valores que sempre honraram o povo brasileiro. Não se deixem levar pela exasperação de sexo, que abala a autenticidade do amor humano e conduz à desagregação da família. Esta é a mensagem sincera e confiante de um amigo. Meu desejo seria o de apertar as mãos de cada um de vocês e falar com cada um. Em todo o caso é a cada um que digo dizendo a todos: Jovens de todo o Brasil, o Papa quer muito bem a vocês! O Papa não os esquecerá nunca mais! O Papa leva daqui uma grande saudade de vocês!” (Homilia do Santo Padre para os jovens de Belo Horizonte em 1º de julho de 1980). Assim, os jovens do Brasil descobriram que o Papa é brasileiro, mas tem um coração universal que abarca os jovens do mundo inteiro.

Nos diversos encontros com os jovens, João Paulo II cumpriu com fidelidade o mandado de Cristo: “Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21,17). Ele nunca admitiu a menor possibilidade de erro ou mentira; e sempre repudiou a libertinagem, censurou as uniões de homossexuais e alertou contra o erro de segundas ou terceiras uniões conjugais. Diante da palavra do Santo Padre, os jovens desvendaram a Boa Nova de Cristo e perceberam que João Paulo II “estava sempre pronto a dar a razão da sua esperança a todo aquele que vo-la pedia”. (1Pd 3,15).

Falando em nome de Jesus Cristo, João Paulo II conscientizou os jovens da necessidade de conhecer e amar a Verdade. Conduzindo a Igreja como Papa, ele testemunhou aos jovens uma enorme solicitude em relação à transmissão dos valores cristãos e uma ampla fidelidade a Deus. Ao contemplar João Paulo II, notamos que “quem acolhe o seu testemunho certifica que Deus é verdadeiro. Com efeito, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, pois ele dá o Espírito sem medida”. (Jo 3,33-34)

Nos documentos pontifícios de João Paulo II, os jovens eram constantemente lembrados. Por ocasião do Ano Internacional da Juventude, ele lançou a carta apostólica “Dilecti Amici”, onde nos diz: “A Igreja olha para os jovens; antes, a Igreja de um modo especial, vê-se a si mesma nos jovens, em todos vós e, ao mesmo tempo, em cada um e em cada uma de vós”. (Dilecti Amici, 15).

Na Exortação pós-sinodal “Christifideles laici”, ele acrescentou: “Os jovens constituem uma força excepcional e são um grande desafio para o futuro da Igreja”. Em sua penúltima carta apostólica, ele admoestou os jovens: “Levai ao encontro com Jesus oculto sob os véus eucarísticos todo o entusiasmo da vossa idade, da vossa esperança, da vossa capacidade de amar”. (Mane Nobiscum Domine, 30)

Desse fecundo amor do Santo Padre pelos jovens brotou as Jornadas Mundiais da Juventude. A primeira foi em 1986, em Roma. No ano de 2002, na XVII Jornada Mundial da Juventude, em Toronto, Canadá, o Santo Padre orientava: “Jovens, a maior utopia, a fonte mais importante da infelicidade consiste na ilusão de encontrar a vida renunciando a Deus, de conquistar a liberdade excluindo as verdades morais e a responsabilidade pessoal(…). Vós sois jovens e o Papa é idoso, e ter 82 ou 83 anos não é a mesma coisa que ter 22 ou 23. Todavia, ele continua a identificar-se plenamente com as vossas esperanças e as vossas aspirações. Juventude de espírito, juventude de espírito! Embora eu tenha vivido no meio de muitas trevas sob duros regimes totalitários, tive suficientes motivos para me convencer de maneira inabalável de que nenhuma dificuldade e nenhum temor é tão grande ao ponto de poder sufocar completamente a esperança que jorra sem cessar no coração dos jovens. Não deixem a esperança morrer!”. (Homilia do Santo Padre João Paulo II na XVII JMJ.)

Contemplando a vida e o exemplo de São João Paulo II, os jovens aprenderam a professar juntos com São Leão Magno: “Em Pedro, robustece-se a nossa fortaleza”. Olhar para João Paulo II é vislumbrar essencialmente uma testemunha de Cristo. Até o último suspiro, ele testemunhou que quem vive o dom da vida não envelhece jamais. E com seu martírio branco, ele ensinou que ser jovem é estar aberto ao heroísmo e ao protagonismo.

Para concluir, ouçamos seus sábios conselhos: “Jovens, não tenhais medo de encontrar Jesus. Eu também tive 20 anos como vós. Gostava de praticar esportes, esquiar, apresentar peças de teatro. Estudava e trabalhava. Tinha sonhos e preocupações. Nesses anos já longínquos, em tempos que minha terra natal estava ferida pela guerra e mais tarde pelo regime totalitário, buscava o sentido da minha vida. E o encontrei seguindo o Senhor Jesus. O convite que hoje vos dirijo é: ‘Escuta.’ Não te canses nunca de exercitar-se na difícil matéria da escuta. Escuta a voz do Senhor que te fala através dos fatos da vida diária, através das alegrias e das penas que a acompanham, das pessoas que estão ao teu lado. A voz da consciência está sedenta da verdade, da felicidade, de bondade e de beleza”. (Viagem apostólica a Berna, Suíça, em junho de 2004).

Elevemos nossos corações a Deus, em ação de graças pela juventude de São João Paulo II, que nos deixou uma herança de valores inestimáveis. Movidos pela esperança, agradeçamos ao Senhor o entusiasmo e alegria vivenciados por Karol Wojtyla e professemos que, desde o dia de sua morte, nós ganhamos um novo intercessor, um amado santo no céu!

 

Aloísio Parreiras
2020-05-19T11:09:11+00:0019/05/2020|