SÃO JOSEMARÍA ESCRIVÁ

“Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto. Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração”.  Esse sábio conselho de São Josemaría Escrivá, o santo do cotidiano, é o ponto número 1 do livro Caminho, onde ele apresenta 999 pontos para a nossa oração, reflexão e meditação, frisando, com grande frequência, que todos nós somos chamados à santidade nas realidades do mundo, ou seja, a santidade não é um privilégio de poucos, mas é, sim, um chamado que Deus faz a todos nós.

São Josemaría Escrivá de Balaguer nasceu em Barbastro, na Espanha, no dia 9 de janeiro de 1902. Seus pais, Dolores e José, católicos fervorosos, tiveram seis filhos. Desses, porém, as três mais novas vieram a falecer ainda crianças. Seus pais proporcionaram aos filhos uma profunda formação cristã e, por isso, desde tenra idade, Josemaría praticou os costumes cristãos da recitação do terço, a devoção a Nossa Senhora, a ajuda aos mais necessitados e o recurso confiado à oração.

No ano de 1915, quando ele tinha apenas 13 anos, sua família teve que se mudar para Logronho, onde seu pai conseguira uma oportunidade de trabalho. Foi nessa cidade que Josemaría descobriu, no inverno de 1917/1918, durante a época do Natal, a sua vocação religiosa, observando algumas pegadas dos pés descalços de um frei deixadas na neve. Diante daquelas pegadas, ele se questionou: “Se há pessoas que fazem tantos sacrifícios por Deus e pelo próximo, não serei eu capaz de Lhe oferecer alguma coisa?”. Buscando respostas para entender o que Deus queria dele, Josemaría decidiu, com determinação, ser sacerdote e, por isso, ingressou no seminário de Saragoça.

No dia 28 de março de 1925, o jovem Josemaría, que na época tinha 23 anos, foi ordenado sacerdote na igreja do Seminário de São Carlos em Saragoça. Dois dias depois, ele celebrou a sua primeira Missa solene, na Santa Capela da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, e no dia 31 de março iniciou o seu serviço sacerdotal como regente auxiliar na paróquia de Perdiguera, uma pequena aldeia de camponeses.

No dia 2 de outubro de 1928, na Festa dos Santos Anjos da Guarda, durante a realização de um retiro espiritual, Josemaría Escrivá viu a missão que Nosso Senhor iria lhe confiar: abrir na Igreja um novo caminho vocacional, orientado a difundir a procura da santidade e a realização do apostolado por meio da santificação do trabalho cotidiano no meio do mundo, ou seja, naquele dia, surgiu o Opus Dei. Quando se recordava daquele dia, ele gostava de dizer: “Tinha eu vinte e seis anos, a graça de Deus e bom humor, e nada mais. E tinha que fazer o Opus Dei”. Pouco meses depois, no dia 14 de fevereiro de 1930, Cristo deu-lhe a entender que o Opus Dei deveria estender-se também às mulheres.

Logo após a revelação do que Deus queria dele, Josemaría fortaleceu ainda mais o seu serviço sacerdotal, entrando em contato com pessoas de todos os setores da sociedade: estudantes, operários, intelectuais, artistas, sacerdotes. Ao mesmo tempo, ele se entregou, sem descanso, ao atendimento espiritual dos doentes, das crianças e dos pobres das periferias de Madri, “servindo a Igreja como a Igreja quer ser servida”, em plena sintonia com o Papa e os Bispos.

Dias difíceis para Josemaría Escrivá e o Opus Dei foram os anos de 1936 a 1939, quando a Espanha vivenciou uma guerra civil. Naqueles anos, Josemaría correu sério risco de vida, assim como outros sacerdotes e, por isso, ele teve que se refugiar em várias casas particulares, no Consulado de Honduras e, até mesmo, em uma clínica para doentes mentais, antes de atravessar, caminhando a pé, os Pirineus, em direção ao principado de Andorra que fica entre a Espanha e a França.

No mês de janeiro do ano de 1959, ao tomar conhecimento da convocação do Concílio Vaticano II, ele manifestou o seu entusiasmo e esperança e começou a rezar e a pedir orações pelo êxito dessa grande iniciativa. Indescritível foi a sua alegria ao ler a Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, pois, por meio desse Documento Conciliar, Josemaría vislumbrou a sintonia do Opus Dei com os ensinamentos da Igreja. Um dos trechos da Lumen Gentium que ele mais gostava de ler era esse: “Todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou situação social, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade, santidade esta que promove na própria sociedade terrena um teor de vida mais humano”. (Lumen Gentium, nº 40).

Entre 1970 e 1975, o empenho evangelizador de São Josemaría Escrivá levou-o a empreender viagens de catequese pela Europa e pela América. Naquelas ocasiões, ele reuniu milhares de pessoas para falar de Deus, da Igreja, da Virgem Maria, dos sacramentos e da santificação do trabalho.

Nosso país, o Brasil, também recebeu uma visita de Josemaría, que aqui esteve no período de 22 de maio a 7 de junho de 1974. Ao fazer memória daqueles dias no Brasil, ele afirmava: “O Brasil! A primeira coisa que vi foi uma mãe grande, formosa, fecunda, terna, que abre os braços a todos, sem distinção de línguas, de raças, de nações, e a todos chama filhos. Grande coisa é o Brasil! Depois vi que vos tratais de uma maneira fraterna, e emocionei-me!”

Muitos de nós não tínhamos nascido ou não tivemos a oportunidade de participar dos encontros que contaram com a presença de São Josemaría Escrivá em nosso país, mas temos acesso aos seus livros, ensinamentos, homilias, catequeses e serviços promovidos pelo Opus Dei e, por isso, aprendemos, com o santo do cotidiano, o valor da oração contínua, a importância da mortificação constante, a riqueza dos sacramentos e da filiação divina, a força transformadora do silêncio e do perdão divino e a necessidade de sermos dóceis às moções do Espírito Santo. Aprendemos também que Deus quer que sejamos santos nas realidades do mundo, santificando as nossas profissões por meio do esmero e do cuidado das pequenas coisas da vida profissional, pois, quando se vive desta forma, “tudo é oração, tudo pode e deve conduzir-nos para Deus, alimentando, da manhã à noite, esta relação contínua com Ele. Todo o trabalho pode ser oração e todo o trabalho, que é oração, é apostolado”.

São Josemaría Escrivá, “o santo da normalidade”, consagrou a sua vida ao serviço de Deus e da Igreja. Ele foi um mestre de bom humor, um sacerdote acolhedor, um visionário e “um santo de grande humanidade. Todas as pessoas que o conheceram, independentemente da cultura ou da condição social, não deixaram de o sentir como pai, totalmente consagrado ao serviço dos outros, porque estava persuadido de que cada alma é um tesouro maravilhoso; com efeito, cada homem vale todo o sangue de Cristo. Esta atitude de serviço está patente na sua entrega ao ministério sacerdotal e na magnanimidade com que fomentou muitas obras de evangelização e de promoção humana, em favor dos mais pobres”. (Discurso do Papa João Paulo II em 7 de outubro de 2002).

São Josemaría Escrivá foi escolhido, preparado e enviado pelo Senhor para anunciar ao mundo a vocação universal à santidade e para nos demonstrar que nas atividades cotidianas se faz presente um itinerário de santificação. Em suas palavras, gestos e atitudes sempre sobressaíram um fecundo amor pelo Cristo, pela Virgem Maria e a São José.

São Josemaría Escrivá morreu, como consequência de uma parada cardíaca, ao meio dia de 26 de junho de 1975, no seu quarto de trabalho, aos pés de um quadro de Nossa Senhora. A 17 de maio de 1992, em Roma, ele foi declarado beato por São João Paulo II e, posteriormente, no dia 6 de outubro de 2002, ele foi declarado santo numa celebração presidida por São João Paulo II que, na ocasião, afirmou: “São Josemaría Escrivá estava profundamente convencido de que a vida cristã contém uma missão e um apostolado:  vivemos no mundo para salvar o mundo com Cristo. Ele amava o mundo de maneira apaixonada, com um amor redentor. Foi precisamente por este motivo que os seus ensinamentos ajudaram um elevado número de fiéis comuns a descobrirem o poder redentor da fé, a sua capacidade de transformar a terra”. (Discurso do Papa João Paulo II em 7 de outubro de 2002).

São Josemaría Escrivá, ensinai-nos a “servir a Igreja como a Igreja quer ser servida”, ou seja, com entrega, santidade, entusiasmo e fortaleza. Ajudai-nos a sermos inabaláveis na fé, na esperança e na caridade. Inspirados pelo vosso exemplo de serviço e pelo vosso empenho em prol da santificação, nós também queremos passar pelo mundo fazendo o bem, “crescendo perante os obstáculos com a consciência de que a graça de Deus não irá nos faltar”. (Caminho nº 12). São Josemaría Escrivá, rogai por nós!

Aloísio Parreiras

2020-06-26T14:17:22-03:0026/06/2020|