SÃO PAULO VI

 

            A grande maioria dos fiéis católicos conhece o Papa São Paulo VI, o 262º Papa da Igreja Católica, por ser o Pontífice que levou ao término o Concílio Vaticano II, que seu predecessor São João XXIII havia iniciado, e por ser o Papa que conduziu a Santa Igreja no difícil período pós-conciliar.

O Concílio Vaticano II foi, sem sombra de dúvida, o evento eclesial mais relevante do pontificado do Papa Paulo VI. Entretanto, muitos outros momentos importantes de seu pontificado são pouco conhecidos. João Baptista Montini nasceu em 26 de setembro de 1897, em Concesio, perto de Brescia, na Itália. Em 1916, ele entrou no seminário de Brescia e quatro anos depois, a 29 de maio de 1920, recebeu a ordenação sacerdotal. Observamos aqui uma curiosidade a respeito de São Paulo VI: celebramos a sua Memória litúrgica no mesmo dia de sua ordenação sacerdotal.

Logo após a sua ordenação sacerdotal, o Pe. João Baptista Montini exerceu o ministério sacerdotal junto dos jovens universitários. Pouco tempo depois, ele foi nomeado Substituto da Secretaria de Estado, durante a Segunda Guerra Mundial. No exercício dessa função, ele se empenhou em dar exílio aos perseguidos judeus e aos refugiados. Em 1954, aos 57 anos, foi nomeado Arcebispo de Milão e, em 1958, foi elevado à dignidade de Cardeal por São João XXIII. Em 21 de junho de 1963, após a morte de São João XXIII, aos 65 anos, ele foi escolhido para ocupar à cátedra de Pedro, adotando o nome de Paulo VI.

O Papa São Paulo VI escreveu, e nos deixou como herança, sete preciosas encíclicas. Em sua primeira encíclica “Eclesiam suam”, publicada no dia 6 de agosto de 1964, ele apresentou o programa do seu pontificado ao propor, aos olhos de todos, quanto importa à salvação da sociedade humana. Nessa encíclica, ele aborda as relações da Igreja com o mundo que a circunda e em que vive e trabalha e faz a seguinte reflexão: “Qual é hoje para a Igreja o dever de corrigir os defeitos dos próprios membros e de os levar a tender a maior perfeição, e qual o método para chegar com segurança a esse renovamento”. Nas linhas finais dessa encíclica, São Paulo VI destacou: “A Igreja hoje está mais do que nunca viva!”

Sua segunda encíclica “Mense maio”, de 29 de abril de 1965, é um agradável texto que valoriza a devoção à Virgem Santa Maria, a oração do Rosário e o mês de maio, que é o mês mariano por excelência. Essa encíclica contribuiu, significativamente, para o reafervoramento da piedade popular mariana, um tanto mal compreendida por algumas correntes pós-conciliares.

Em sua terceira encíclica Mysterium Fidei, de 3 de setembro de 1965, o Sumo Pontífice louvou o valor da Santa Missa como sempre foi entendida e professada na Igreja, mas apontou e corrigiu também erros que cercam o Sublime Sacramento. Na quarta encíclica Christi Matri, de 15 de setembro de 1966, ele tratou dos problemas e perigos que ameaçavam o mundo, naquele momento, e convidou os católicos a rezarem o Rosário, em especial no mês de outubro. Populorum Progressio, de 26 de março de 1967, sua quinta encíclica, é um importante documento que compõe a Doutrina Social da Igreja. Na encíclica Sacerdotalis Caelibatus, de 24 de junho de 1967, ele defendeu o celibato sacerdotal como um precioso tesouro da Igreja.

Sua sétima encíclica, a Humanae Vitae, de 25 de julho de 1968, é considerada uma encíclica profética, pois, nesse documento ele anunciou, corajosamente, os sólidos fundamentos da Verdade acerca da abertura para a vida, abordando os meios lícitos para a regulação da natalidade e, ao mesmo tempo, denunciando as vias ilícitas – aborto, esterilização direta e os métodos de regulação artificial da natalidade – como graves pecados que ofendem a Deus.

Essa Encíclica foi lançada em um momento histórico de vastas, repentinas e imprevisíveis mudanças em que a liberdade sexual e o uso dos anticoncepcionais eram sombras que evidenciavam falsos progressos humanos. Convidando os cristãos à observância da Lei divina, São Paulo VI escreveu: “A doutrina da Igreja sobre a regulação dos nascimentos, que promulga a lei divina, parecerá, aos olhos de muitos, de difícil, ou mesmo de impossível atuação. Certamente que, como todas as realidades grandiosas e benéficas, ela exige um empenho sério e muitos esforços, individuais, familiares e sociais. Mais ainda: ela não seria de fato viável sem o auxílio de Deus, que apoia e corrobora a boa vontade dos homens. Mas, para quem refletir bem, não poderá deixar de aparecer como evidente que tais esforços são nobilitantes para o homem e benéficos para a comunidade humana. Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida”. (Humanae Vitae, nº 20).

Em seu pontificado, São Paulo VI não poupou esforços para testemunhar o seu amor a Cristo e à Igreja. Ele foi o primeiro Papa a usar um avião e o primeiro a deixar a Itália desde 1809. Ele visitou os cinco continentes e, por isso, ganhou o apelido de Papa Peregrino. Ao se referir às viagens apostólicas do Papa São Paulo VI, o Papa Francisco disse: “Seguindo o exemplo do Apóstolo Paulo, cujo nome assumira, São Paulo VI consumiu a vida pelo Evangelho de Cristo, cruzando novas fronteiras e fazendo-se testemunha d’Ele no anúncio e no diálogo, profeta duma Igreja extroversa que olha para os distantes e cuida dos pobres. Mesmo nas fadigas e no meio das incompreensões, Paulo VI testemunhou de forma apaixonada a beleza e a alegria de seguir totalmente Jesus”. (Papa Francisco, Homilia na Missa de canonização do Beato Paulo VI em 14 de outubro de 2018).  São Paulo VI foi ainda o primeiro Papa a visitar a Terra Santa desde São Pedro e criou os cardeais Karol Wojtyla, em 1967, e Joseph Ratzinger, em 1977, que alguns anos depois foram os seus sucessores na cátedra de Pedro.

O Papa São Paulo VI faleceu no dia 6 de agosto de 1978. Naquele dia, a Liturgia da Igreja celebrava o evento extraordinário da Transfiguração do Senhor. Mas o tempo não diminuiu a sua recordação, pois, graças a tudo o que ele realizou em prol da renovação da Igreja e da fidelidade ao Evangelho, São Paulo VI escreveu o seu nome na memória e no coração da Igreja e do mundo e, por isso, devemos ser gratos a Deus pelo dom deste grande Papa, que soube dar continuidade ao Concílio Vaticano II, realizando a reforma litúrgica, aprovando ritos e orações, seguindo ao mesmo tempo a Tradição e adaptando-nos aos novos tempos e promulgando, com a sua autoridade, o Rito Romano, o Missal, o Calendário, a Liturgia das Horas, o Pontifical e quase todos os Rituais, a fim de favorecer a participação dos fiéis na Liturgia.

O Papa São Paulo VI foi canonizado no dia 14 de outubro de 2018. Com essa canonização, a Igreja declarou que ele “exerceu o seu magistério em favor da paz, promoveu o progresso dos povos e a enculturação da fé”. A Igreja declarou também que São Paulo VI professou um incisivo testemunho de amor a Cristo e à Igreja.

São Paulo VI nos deixou uma inestimável herança de magistério, ensinamentos e de virtudes e, por isso, devemos louvar o Senhor com sincero reconhecimento pela renovação da Igreja promovida no pontificado de Paulo VI. A nós, cabe agora valorizarmos essa herança tão sábia. São Paulo VI foi, de fato, um profeta de novos tempos. Dessa maneira, ele, “mesmo nas fadigas e no meio das incompreensões, testemunhou de forma apaixonada a beleza e a alegria de seguir totalmente Jesus. Hoje continua a exortar-nos, juntamente com o Concílio de que foi sábio timoneiro, a que vivamos a nossa vocação comum: a vocação à santidade; não às meias medidas, mas à santidade”. (Papa Francisco, Homilia na Missa de canonização do Beato Paulo VI em 14 de outubro de 2018).

Por meio do anúncio do Evangelho e pela defesa da fé e da vida, São Paulo VI foi um Papa muito amado. Mas, por outro lado, ele também foi criticado e incompreendido em seus dias por não compactuar com os pecados dos tempos modernos e por suas posições coerentes e claras assumidas em defesa da Santa Igreja. Rezemos, alegres, neste dia, suplicando: São Paulo VI, rogai por nós e ajudai-nos a permanecer na Igreja, defendendo a totalidade da Boa Nova da Salvação mesmo em meio às perseguições.

Aloísio Parreiras

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