SÃO THOMAS MORE

Neste Terceiro Milênio da era cristã, diante da contínua agressão do materialismo anticristão que se propaga em diversos setores da sociedade, inclusive no campo político, nós percebemos que em muitos países os governantes e os legisladores julgam respeitar a liberdade de escolha dos cidadãos, quando elaboram leis que prescindem dos princípios da ética natural, da moral e da verdade.

Perante a ameaça da aprovação de insanas leis que atentam contra o direito à vida, a dignidade da família, a instrução religiosa nas Escolas e a sacralidade do matrimônio, temos que bradar que a liberdade política não é e nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual o Estado é leigo e, por isso, não pode se deter frente a princípios religiosos. Diante dessa situação, temos que transmitir os ensinamentos do Papa emérito, Bento XVI, que nos diz: “Quem exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas”. (Discurso Inaugural de Abertura da V Conferência Episcopal Latino-Americana, em 12 de maio de 2007).

Quanta falta nos faz, nos dias atuais, a força da coerência e do testemunho de políticos cristãos, do mesmo nível de um Thomas More, o patrono dos governantes e dos políticos, que nos ensina que “o homem não pode separar-se de Deus, nem a política da moral”.  Thomas More foi membro do Parlamento inglês e foi o primeiro leigo a exercer o mais alto cargo público do Reino Unido, como Lord Chanceler, no reinado de Henrique VIII, na primeira metade do século XVI.

Em sua atuação política, ele foi um cristão coerente que, por fidelidade a Deus, não vendeu a sua alma em troca de fama, prestígio, dinheiro e bem-estar, exercitando assim as virtudes da humildade e do despojamento, pois, quando o rei Henrique VIII exigiu que todos seus súbitos jurassem a Ata de Sucessão por meio da qual ele se declarava o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, negando a autoridade do Papa, Thomas More, por ser um cidadão livre e responsável que zelava pela correta aplicação dos princípios morais e da suprema verdade, não hesitou na seriedade da fé e renunciou ao cargo de Lord Chanceler. Começava aí o seu martírio e, mesmo sabendo qual seria a consequência de seus atos, ele preferiu ser preso, caluniado, perseguido e desprezado do que se dobrar ante as inverdades e o erro, testemunhando assim que “a política é uma maneira exigente de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros”. (São Paulo VI, “Carta Apostólica Octogesima Adveniens, nº 46”).

A história dos mártires da Igreja guarda e venera com especial solicitude a memória desse político que foi um homem de íntima comunhão com Deus, pois a oração, o estudo da doutrina cristã e a participação nos sacramentos constituíam o fundamento da sua vida. Em íntima união com o Cristo, Thomas More transmitiu o amor pela verdade por meio da força do exemplo e da palavra.

Percebendo o ataque de tantos setores da sociedade contra a Igreja de Cristo, ele advertia aos seus contemporâneos, afirmando: “Há muitos que estão adormecidos e apáticos à hora de semear as virtudes entre o povo e de defender a verdade, enquanto os inimigos de Cristo, dispostos a semear os vícios e desarraigar a fé, estão plenamente despertos”. (Meditação sobre a Agonia de Cristo).

Por não aceitar compactuar com as inverdades e os erros difundidos pelo rei inglês e sua Corte, entre abril de 1534 e julho de 1535, Thomas More esteve encarcerado na Torre de Londres, acusado de conspirar contra o rei Henrique VIII. Pouco depois de sua prisão, em uma carta que ele escreveu à sua filha mais velha, Margareth Roper, ele comentava seus dias no cárcere, dizendo: “Que o Senhor me conserve sempre verdadeiramente fiel e sincero; caso contrário, suplico-lhe de coração que não me deixe viver mais. Não busco nem desejo uma vida longa, mas estou contente de ir-me, se Deus me chamar daqui amanhã. E dou graças ao Senhor porque não desejo a nenhuma pessoa viva que conheço uma simples alfinetada por minha causa; e por causa deste estado de ânimo, estou mais alegre do que se me fosse oferecido o mundo inteiro”.

Uma das preocupações que Thomas More alimentou nesses quase quinze meses em que esteve no cárcere foi zelar e alimentar a fé das filhas, do genro e dos amigos. Com cuidado e zelo, ele escreveu algumas cartas a todos eles, orientando-os sempre da necessidade de serem fiéis a Deus e da imperiosa necessidade de se participar da Eucaristia e do sacramento da Reconciliação.

Thomas More soube enfrentar as perseguições com coragem e, desse modo, suas palavras e seus ensinamentos, que ficaram registrados em suas Cartas da prisão e em outros escritos, ecoaram na Inglaterra e na Europa e ecoam até hoje na história do Cristianismo.  A vida e o exemplo de Thomas More nos ensinam que sempre é possível viver as virtudes cristãs e os compromissos a que Deus nos chama, com todas as suas consequências. Na última carta dirigida a sua filha, ele manifestou uma inquebrantável confiança em Deus, assegurando que “nada pode acontecer senão o que Deus quer. E tenho plena confiança de que, aconteça o que acontecer, por muito mal que pareça, será na verdade o melhor”.

Em 1º de julho de 1535, por ter sido acusado de ter cometido quatro traições contra o rei Henrique VIII, Thomas More foi julgado e condenado em Westminster Hall. No decorrer do julgamento, ao perceber que sua condenação era certa, ele clamou: “Nenhum soberano temporal pode arrogar-se o direito, por nenhuma lei, de assumir o governo supremo da Igreja, ou de uma das suas partes, uma vez que esse governo pertence por direito à Sé de Roma”.

Mesmo diante das calúnias e das perseguições, ele não desejou nenhum mal ao rei e aos seus perseguidores e, em uma atitude de plena identificação com o nosso Redentor, ele perdoou o rei e os quinze juízes que o condenaram, dizendo: “Espero e oro para que, apesar de vossas senhorias terem sido juízes da minha condenação, permaneçamos amigos para sempre e nos encontremos todos gozosamente no céu. E assim, desejo também que Deus todo-poderoso preserve e defenda sua Majestade o rei e lhe inspire bons conselhos”.  Pouco tempo depois, no dia 6 de julho de 1535, Thomas More morreu decapitado.

Pela sua coerência entre fé e vida, pela sua integridade moral indefectível e pela amplitude da sua identificação com a vontade de Deus, São Thomas More é um grande exemplo para todos nós, cristãos, sobretudo os cristãos que estão envolvidos na política, pois, neste Terceiro Milênio, “o mundo político e administrativo sente necessidade de modelos credíveis que lhes mostrem o caminho da verdade num momento histórico em que se multiplicam árduos desafios e graves responsabilidades”. (São João Paulo II, “Motu Próprio para a proclamação de São Thomas More, patrono dos políticos, nº 4”).

Inspirados em São Thomas More, nossos políticos e legisladores não podem se esquecer de que nos dias de hoje, na defesa da vida, da família e do matrimônio, e para se viver a política como uma vocação cristã de serviço ao próximo, é preciso muita coragem, muita honestidade, muito otimismo, muita esperança e uma contínua participação na graça de Deus.

Nestes nossos dias em que, em nome de um Estado laico e em defesa de uma falsa liberdade, muitos políticos e legisladores dos diversos países, povos e nações cada vez mais relativizam a moral, a ética e os valores cristãos, peçamos a São Thomas More, o santo protetor dos governantes e dos políticos, que inspire nossos legisladores a se colocarem firmemente do lado dos princípios cristãos da moral e da verdade. Peçamos também que ele nos ajude a sermos leais e fiéis à nossa fé, à custa da própria vida, se for preciso. São Thomas More, rogai por nós!

 

Aloísio Parreiras