SENHOR, TENDE PIEDADE DE MIM!

A vergonha, os escrúpulos e a falta de sinceridade são eminentes perigos que devemos evitar quando recorremos ao sacramento da Reconciliação. Neste sentido, a Sagrada Escritura nos orienta: “Não te envergonhes de confessar os teus pecados!” (Eclo 4,26) E noutra passagem: “Quem esconde suas faltas jamais tem sucesso, mas quem as confessa e abandona obtém compaixão” (Pr 28,13).

Temos que vencer a vergonha com a contrição que nos possibilita passar do vício à virtude. Momento feliz em nossas vidas é quando, com o coração contrito, sabemos demonstrar nosso arrependimento, cantando com o cancioneiro popular: “Minha alma chorou tanto, que de pranto está vazia; desde o dia em que eu fiquei sem a tua companhia. Não há pranto sem saudade, nem amor sem alegria, é por isso que eu reclamo dessa tua companhia”. Benditas lágrimas proporcionadas pelo real arrependimento. Benditas lágrimas que nos fazem crer que o pecado é sempre algo ruim, mas a contrição e o arrependimento são, seguramente, fecundos.

A contrição é o ato pelo qual o ser humano se reconcilia com Deus, fazendo brotar o propósito de emenda, de mudança de vida. Confissão e contrição são as práticas pelas quais vencemos as inclinações pecaminosas da carne, e consistem em sentir, na alma, uma aversão ao pecado, por amor a Deus. Contritos e humilhados, percebemos que pecar é trocar o Absoluto pelo relativo, é aderir às pequenas partes, abrindo mão do inteiro e é, acima de tudo, fechar-se em si mesmo, negando-se à abertura com Deus e o próximo.

Por meio da contrição, alimentamos a beleza espiritual da graça em nossa alma e aprendemos a afirmar, com Santo Agostinho, que “a nossa alma é feia por culpa do pecado; ela se torna bela amando a Deus, que é a própria beleza. O quanto cresce em ti o amor, tanto cresce a beleza”. (Comentário à primeira Carta de João). É o amor que nos faz distinguir a doce voz de Cristo, dizendo: “Mesmo que os vossos pecados fossem como escarlate, tornar-se-iam brancos como a neve”. (Is 1,18). É o amor que nos incentiva na prática do bem, solicitando-nos: “que o justo continue a praticar a justiça e que o santo se santifique ainda mais” (Ap 22,11).

A contrição é um contínuo exercício que nos faz ficar atentos contra as investidas das tentações e do mal. A contrição é, também, um fantástico antídoto contra a acomodação nos desejos carnais. Quando achamos que tudo está bem, pois o mundo de nada nos acusa, a nossa consciência nos repreende: “Tenho contra ti que abandonaste o teu primitivo fervor. Lembra-te, pois, de onde caíste: arrepende-te e faze as obras de outrora” (Ap 2,4-5).

A consciência é essencial na obtenção da contrição, pois é ela que nos faz redespertar o zelo na vivência da graça. Se podemos afirmar que há algo de bom em ceder ao pecado, esse algo é unicamente sentir, em nosso ser, a plena convicção de que não conseguimos viver sem a presença de Deus em nossos corações. Esta certeza nos leva ao encontro dos irmãos ausentes e, por termos vivido a alegria do reencontro com o Pai misericordioso, a eles nós pedimos: “purificai as mãos, ó pecadores, e santificai os corações, homens dúbios. Humilhai-vos diante do Senhor, e Ele vos exaltará”. (Tg 4,9-10).

Somos exaltados pelo Senhor quando, arrependidos, apresentamos um coração quebrantado, humilhado e, com lágrimas nos olhos, confidenciamos: “Enquanto eu me calava, meus ossos se consumiam, eu gemia o dia inteiro. Pois dia e noite, sobre mim, pesava a tua mão, como pelo calor do verão ia secando o meu vigor. Revelei-te o meu pecado, o meu erro não escondi. Eu disse: Confessarei ao Senhor as minhas culpas, e Tu perdoaste a malícia do meu pecado.” (Sl 32). Após a confissão e a entrega dos nossos pecados, pela graça, sentimos que fomos reincorporados à Igreja e restituídos à amizade com Cristo. De posse desta amizade, podemos, de maneira nova, ouvir as declarações de nosso Redentor: “Eu te amo com um amor de eternidade!” (Jr 31,3).

A humilde contrição dos pecados nos liberta da iniquidade e faz brotar, em nosso ser, as obras, os frutos da contrição. Um precioso fruto da contrição é a penitência. “A penitência significa a íntima mudança do coração sob o influxo da Palavra de Deus e na perspectiva do Reino. Mas penitência quer dizer também mudar de vida, em coerência com a mudança do coração. (…) A penitência, portanto, é a conversão que passa do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda do cristão”. (São João Paulo II, “Reconcilitio et Paenitentia, 4”). Pela penitência, obteremos outro valioso fruto da contrição, que é a prática da confissão frequente, que nutre a docilidade de alma e repudia qualquer manifestação de pecado; repudia, até mesmo, os pecados ditos leves ou veniais. Podemos, ainda, afirmar que a humilde contrição produz a perseverança na vida da graça santificante. É pela graça que reconhecemos que “devemos levar uma vida digna do Senhor, para lhe sermos agradáveis em tudo” (Cl 1,10).

A cada novo dia, não nos cansemos de clamar: “Tende piedade de mim, ó Deus, por vosso amor! ” (Sl 51,3). Ajudai-nos, Senhor, a sermos zelosos na natural manifestação dos frutos da luz que a contrição produz em nosso ser e, com coerência, a professar que a contrição é um agradável perfume, uma suave essência, um exercício singular e uma preciosa prática de espiritualidade. Senhor, ensinai-nos a perseverar no exercício da contrição!  Tornai puros, Senhor, os nossos lábios e os nossos corações, para que possamos recorrer a vós, rezando contritos: “Meu Jesus, purificai-me de todas as faltas que hoje cometi e das quais me arrependo, porque vos desagradaram; e, com um ardente desejo de vos amar muito, dai-nos também a força de não recair mais”. (Santo Afonso de Ligório, “Visitas a Jesus Sacramentado e a Nossa Senhora”). Acolhei, Senhor, o nosso coração contrito e realizai, com a Vossa graça, uma generosa reviravolta em nossas almas, a fim de que possamos permanecer firmes no caminho da verdade, da justiça e do bem!

 

Aloísio Parreiras
2020-06-03T15:32:45-03:0003/06/2020|