Simplesmente José

Já tentou imaginar o que São José nos contaria se um dia rompesse o silêncio que o caracteriza nas Escrituras e na Tradição? Foi exatamente esse exercício de criatividade e imaginação que fez o frei Darlei Zanon na obra “Simplesmente José”, publicada por ocasião do Ano de São José que estamos celebrando.

Nesta narrativa em forma de romance histórico, José é o protagonista que nos conduz pela sua vida e missão. O carpinteiro de Nazaré abre o seu coração e descreve cada uma das suas experiências, o que viu e sentiu em cada momento da sua vida: sua infância, o primeiro encontro com Maria, o florescer de uma paixão, os questionamentos ao descobrir que ela estava grávida, a alegria de acompanhar o parto do menino Jesus, as incertezas e descobertas ao receber a visita de pastores, magos e anjos, a dor e sofrimento ao longo do caminho para o Egito e durante os anos que ali passou, as surpresas e encantos do menino que crescia sob o seu olhar e proteção… Enfim, uma vida de escuta mais do que silêncio, plena de ação e doação, de revelações e delicadezas.

No período em que o Papa Francisco iniciou um novo ciclo de catequeses, exatamente dedicadas a São José, conversamos com o frei Darlei para conhecer as suas motivações e também um pouco mais sobre este livro editado em Portugal e no Brasil pela PAULUS Editora.

Como nasceu a ideia de escrever este romance?

Este livro é na verdade um projeto que iniciei há muito tempo, mas quando o Papa Francisco convocou o Ano de São José vi como um sinal de que ele deveria ser concluído. Comecei a pesquisar porque queria conhecer mais essa figura que o nosso Fundador nos propôs como “modelo” (São José é o patrono dos irmãos Paulinos). Neste sentido, posso dizer que o livro nasceu da minha ânsia por respostas. Todas as leituras que fiz traziam basicamente os mesmos elementos sobre São José, deixando muitas lacunas, muitas perguntas sem respostas sobre a sua vida e missão. A certo momento tentei buscar novas faces de José, lendo sobretudo os evangelhos apócrifos e diversos livros menos conhecidos de josefologia. Passei a identificar elementos que me iluminaram e descobri um José extremamente ativo, decidido, confiante, forte, dedicado, afetuoso, capaz de qualquer sacrifício… E assim nasceu a ideia de escrever sobre São José, para mostrar essas suas dimensões menos conhecidas ou menos valorizadas.

É pura ficção ou tem elementos de pesquisa histórica e teológica? Em que se baseou nessas partes?

Inicialmente pensei em escrever uma obra de hagiografia, mas vi que já existem muitos livros semelhantes no mercado. Daí nasceu a ideia de escrever um romance, ao estilo do livro do escritor polaco Jan Dobraczyńsk citado pelo próprio Papa no documento Patris corde, sobre o Ano de São José. Pensei que essa seria a forma mais leve e envolvente de apresentar o José que descobri depois de tantas leituras e reflexões. A novidade é a narrativa em primeira pessoa, espécie de autobiografia, a forma que imaginei ser a melhor para transportar o leitor no tempo e no espaço, fazer o leitor ver pelos olhos de José, acompanhando o pai adotivo de Jesus em diversos momentos da sua vida. Simplesmente José é uma ficção, um romance histórico, mas que respeita todos os textos bíblicos referentes a José e à infância de Jesus, assim como respeita a tradição da Igreja. A fantasia ou ficção surge para preencher as imensas lacunas existentes na tradição Josefina, como por exemplo a questão dos irmãos de José, a sua idade, porque a sua família se mudou de Belém para Nazaré, como e quando ele conheceu Maria, o que fez no tempo que passaram no Egito, o que ele ensinou a Jesus, o que sentiu ao acompanhar o nascimento do menino, ao ouvir a sua primeira palavra, acompanhar os seus primeiros passos e assim por diante. A inspiração vem sempre da própria Bíblia e de estudos bíblicos, dos livros apócrifos e de estudos clássico sobre São José, como a teoria da “sombra do Pai” que foi proposta já em 1680 pelo teólogo francês Louis-François d’Argentan. Também pesquisei livros de arqueologia, de história de Israel e de cultura hebraica de onde extraio muitos elementos que me pareceram fundamentais para compor um romance histórico.

Não apresenta apenas José nas fases da sua vida que aparecem nos Evangelhos relativas ao noivado com Maria e nascimento de Jesus. Porque decidiu ir à sua infância?

O objetivo dos Evangelhos é apresentar o Messias, o Filho de Deus, e por isso José aparece apenas brevemente na sua relação com Jesus. No meu livro quis ir além e apresentar um panorama completo que ajudasse o leitor a se aproximar mais do pai adotivo de Jesus, a se encantar com essa figura especial que foi escolhida para ser a imagem humana e visível de pai para o Filho de Deus. O ponto de partida do livro (capítulo 1) é um momento crucial na relação entre José e Jesus, um evento específico que faz José reler e reinterpretar toda a sua vida, desde a sua infância, passando sobretudo pela relação com a sua família e com Maria, por isso era importante apresentar todos esses momentos. Minha intenção foi escrever um livro não apenas sobre a biografia de José, mas um livro sobre as suas experiências, os seus sonhos de infância, os seus valores familiares, a sua fé hebraica, as suas dores, dúvidas, questionamentos. Queria que fosse um livro em que cada leitor pudesse se identificar e aprender com esta busca constante de José em compreender a própria vocação e o seu papel no projeto divino.

O que se pode descobrir neste livro? É um livro teológico sobre São José? Que olhar apresenta sobre São José?

Como romance, tentei construir uma narrativa muito leve e dinâmica, com uma trama envolvente. José abre o seu coração e descreve cada uma das suas experiências, o que viu e sentiu em cada momento da sua vida. Penso que seja para o leitor um belo caminho de descoberta, de imersão no tempo e no espaço de José, com toda a poesia de uma vida marcada pelo Mistério. Uma proposta para se emocionar, rir e chorar, questionar e acompanhar o nosso protagonista em cada viagem, cada experiência, cada inquietação que marcou a sua história: uma história caracterizada pela escuta, a entrega, a dedicação, mas sobretudo pelo amor. Ao mesmo tempo em cada capítulo procuro desenvolver algum elemento de espiritualidade e teologia, como por exemplo o valor da oração e da fé, a centralidade da família e da Escritura, a importância da acolhida e da comunhão, o sentido da revelação, da encarnação do Verbo, da salvação etc. Uma leitura que espero provoque e surpreenda com os seus imensos detalhes, descrições, diálogos, personagens paralelos. Simplesmente José propõe-se a responder algumas questões sobre a vida do santo carpinteiro de Nazaré, mas sobretudo provoca muitas outras interrogações que normalmente nos passam despercebidas na vida de um santo que é extremamente humano. Um homem que sente medo, angústias, dúvidas, mas que também se alegra, ama, encontra a realização como ser humano, como esposo e como pai. José rompe o silêncio e nos convida a acompanha-lo nesse itinerário de descobertas.

A escrita deste livro e todo o processo mudaram a sua perspectiva e relação com São José? Gostaria que isso acontecesse com os leitores?

Escrever este livro me fez admirar ainda mais São José e é esta estima ao pai adotivo de Jesus que gostaria de semear em cada leitor. Simplesmente José nasceu com o objetivo de mostrar o rosto extremamente humano de José, próximo de cada um de nós, de cada pai de família, de cada esposo, de cada filho. Um santo com o qual podemos nos identificar e que pode nos inspirar. Um José que se diverte quando criança, se apaixona na adolescência, se preocupa e se emociona na vida adulta… Um José que se alegra e sofre. Que sente medo, mas confia. Que não entende, mas escuta e obedece. Um José humilde e simples, ao mesmo tempo profundo, corajoso, atento aos sinais divinos e humanos. Um José que ama e porque ama alimenta relações profundas: com os avós, pais, irmãos, amigos, com Maria e Jesus, com Deus. Talvez este seja o centro de toda a narrativa: as diversas formas de amar de José, a sua entrega total. E é isso que pode nos inspirar a viver melhor a nossa fé e as nossas relações.

Fonte: Vatican News