SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO

Dom Paulo Cezar Costa

Arcebispo de Brasília

 

 

Cristo, rei do Amor

            Neste domingo, celebramos Cristo, Rei do Universo. Contemplamos a realeza de Cristo. Durante um ano, Cristo foi passando no meio de nós, dando-nos a Sua Palavra, alimentando-nos na Eucaristia, dando-Se a nós nas celebrações litúrgicas; interpelando-nos no irmão pobre, necessitado; dialogando conosco por meio da oração etc. Se percebermos, durante todo o ano celebramos os mistérios de Cristo. E é esta a beleza e a força do ano litúrgico. Na solenidade de Cristo Rei, celebramos a Sua realeza, Cristo vencedor da morte, constituído Kyrios (Senhor), que é Senhor de tudo, “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22, 12-13).

No Evangelho deste domingo (Jo 18, 33-37), tem-se o interrogatório de Pilatos a Jesus sobre a Sua realeza. Esta cena mostra a ambiguidade do poder, exercido por um homem vacilante, que defende somente a si mesmo e ao posto que ocupa. Do outro lado, interrogado está o verdadeiro protagonista: um prisioneiro impotente, entre as suas mãos. Este interrogatório deve nos fazer refletir sobre o poder, sobre o sentido do poder. A pergunta de Pilatos atinge o centro do problema político que o preocupa, a realeza de Jesus: “és o rei dos Judeus?” (Jo 18, 33). Pilatos queria saber se Jesus era o Messias político dos judeus, um revolucionário contra o Império Romano. A pergunta de Pilatos vem formulada com base nas acusações e intrigas dos sacerdotes e do Sinédrio contra Jesus.  Jesus responde com outra pergunta: “falas isso por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?” Jesus, com esta pergunta, mostra a Pilatos que ele está num plano diferente do Seu. Jesus tinha fugido, quando queriam fazê-lo rei. Por isso, Ele afirma que Seu reino não é deste mundo, isto é, Sua realeza não está submetida aos olhos humanos e tem uma dimensão diferente, não é de origem terrena.  Sua força e Seu poder não possuem a dimensão política do de Pilatos, dos reis deste mundo, mas provém de Deus.

À nova pergunta de Pilatos, Jesus explica em que sentido é rei. “Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade, ouve a minha voz” (Jo 18, 37). Jesus veio do Pai e revela aos homens o que viu e ouviu do Pai. Ele é o revelador do Pai. Mas Ele é, também, a Verdade: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6).  Ele é a Verdade. Pilatos tem diante de si, Aquele que é a Verdade. A verdade não é mais uma ideia, uma filosofia, mas uma pessoa: Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. Quem é da verdade O escuta, quem não é da verdade O rejeita. Somente na fé é possível entender o verdadeiro sentido da realeza de Jesus. Pilatos é provocado a tomar posição diante da realeza de Jesus, mas se esquiva, perguntando o que é a verdade.

Pilatos representa a realeza que se fecha diante da defesa dos próprios privilégios e dos próprios interesses. Jesus testemunha uma realeza que se doa ao extremo, num amor gratuito, fazendo da cruz o Seu trono. Realeza que não defende seus próprios interesses, mas faz da vida dom pela nossa salvação.

Que a realeza de Cristo nos ajude a percebermos que ser da Verdade implica escutar a Sua voz e, a exemplo de Cristo, doar-se por amor. Só a realeza do amor de Cristo nos salva e nos liberta.