SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

Dom Paulo Cezar

Arcebispo de Brasília

 

A eucaristia arrasta-nos para o amor oblativo de Cristo

 

No relato do Evangelho que ouvimos, o sangue é sangue da Aliança derramado em favor de muitos: “Enquanto comiam, Ele tomou o pão, abençoou, partiu-o e distribuiu-lhes, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. Depois, tomou um cálice e, dando graças, deu-lhes, e todos dele beberam. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo, já não beberei do fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus” (Mc 14, 22-25).

O sangue – aima – é o elemento vital do ser individual. Em se referindo especialmente da perda de vida, aima pode designar também a pessoa (sinônimo de nefes-psique), quando vem compreendida como vitalidade colocada à morte: a existência abandonada à morte, a vida exposta ao fim.

A expressão sangue da Aliança alude inequivocamente a Ex 24,8 onde Moisés tomou do sangue e o aspergiu sobre o povo dizendo: “Este é o sangue da Aliança que Iahweh fez convosco, através de todas essas cláusulas”, conforme está no texto da primeira leitura que ouvimos.

O vinho é identificado como o sangue de Jesus, simbolizando aqui “toda pessoa”. “Este sangue é o sangue da Aliança”. A Aliança faz a ligação profunda que unia o Antigo Israel com Deus e que o fazia “seu povo”. O dom de Cristo sacrificado por nós tem como finalidade a criação do Novo Israel, que somos nós. A aliança recorda o incansável amor com que Deus, desde a criação: tratou o homem como amigo, prometeu a salvação depois do pecado, escolheu os patriarcas, libertou Israel do Egito, acompanhou o povo no deserto, introduziu-o na terra, e lhe abriu à esperança do Messias e do Espírito Santo. A Aliança plasma, momento por momento, toda a existência de Israel. Prometida como Nova e Eterna Aliança na pregação dos profetas, ela é vista como princípio divino que reside na profundidade dos corações, e, dentro do mais profundo do coração, orienta e influencia toda a vida (Jr 31,31-34; Ez 36,26-27). Unindo a Eucaristia com a Aliança, Jesus quer dizer que a Eucaristia nos doa forças para nos deixarmos totalmente atrair pelo movimento do amor misericordioso de Deus, anunciado no AT, celebrado definitivamente na Páscoa e que culmina na plenitude escatológica: na espera de Sua vinda.

A Eucaristia arrasta-nos neste amor oblativo de Cristo. Somos envolvidos na dinâmica da sua doação, tornando-se comunhão no Seu corpo e no Seu sangue. A união com Cristo é também união com todos os outros pelos quais ele Se entregou. Na Eucaristia Cristo vem corporalmente a nós, para continuar a sua ação em nós e por meio de nós. Assim, deve-se entender o ensinamento de Jesus sobre o amor. No próprio «culto», na comunhão eucarística, está contido o ser amado e o amar, por sua vez, os outros. Uma Eucaristia que não se traduza em amor concretamente vivido é, em si mesma, fragmentária. (Deus caritas est, 13-14). Neste sentido, toda a atuação caritativa da Igreja, toda a ação da Igreja pelos pobres, pelos necessitados é fruto da nossa opção de fé, nasce da nossa fé. Por isso, o Papa emérito Bento XVI e o Papa Francisco têm afirmado que a Igreja não é uma ONG. “A ação prática resulta insuficiente se não for palpável nela o amor pelo homem, um amor que se nutre do encontro com Cristo. A íntima participação pessoal nas necessidades e no sofrimento do outro torna-se assim um dar-se lhe a mim mesmo: para que o dom não humilhe o outro, devo não apenas dar-lhe qualquer coisa minha, mas dar-me a mim mesmo, devo estar presente no dom como pessoa”( Deus caritas est 14). Assim, a Eucaristia que comungamos traduz-se em realidade concreta na nossa capacidade de amar, diante da face concreta do outro. A caridade é um imperativo da fé.

 

2021-06-02T12:03:27-03:0002/06/2021|