UM LIVRO INCOMPARÁVEL

Na sucessão de nossos dias, na rotina da vida cotidiana, todos nós dedicamos um
considerável tempo à leitura e à apreciação de diversos tipos de livros, tais como livros
históricos, livros biográficos, livros de curiosidades, livros de receitas, livros de regras
de esportes, livros de poesias e tantos outros. Mas, muitas vezes, descuidamos da Carta
de Amor que Deus endereçou a cada um de nós: a Bíblia Sagrada, a Sagrada Escritura.
É da vontade de Deus que tenhamos, cada vez mais, uma intimidade com Sua Palavra e
com os Seus ensinamentos, pois somente o conhecimento da Sagrada Escritura nos leva
a afirmar juntos com Santo Agostinho: “Bati à porta da Tua Palavra para encontrar
finalmente o que o Senhor me quer dizer!”
Um famoso escritor brasileiro, certo dia, questionou: “Se você não ler, de onde
virá o seu saber?” Parafraseando-o, podemos também questionar: se você não ler a
Sagrada Escritura e se não beber da fecunda fonte dos seus ensinamentos, como terá
sintonia, amizade e intimidade com Deus?
Quando sentimos, em nossa alma, o nobre desejo de conhecer em profundidade
a Sagrada Escritura, nós suplicamos ao Espírito Santo que produza em nosso íntimo
uma elevada identificação com a Palavra de Deus que nos faça refletir: “Como seria
possível viver sem o conhecimento das Escrituras, se é por elas que se aprende a
conhecer o próprio Cristo, que é a vida dos crentes?” (São Jerônimo, Epístola 30,7).
Cremos e professamos que a Bíblia Sagrada, a Sagrada Escritura, pertence ao
depósito da fé cristã e contém o cerne da verdade absoluta que Deus legou para nossa
salvação. Sabemos também que a Sagrada Escritura está no alicerce de toda
espiritualidade cristã autêntica.
É bom perceber que, nesses vinte e um séculos de Cristianismo, a veracidade da
Sagrada Escritura é constantemente atestada pela Igreja, que professa: nesse livro
sagrado descobrimos a Palavra de Deus, deixada a cada um de nós como uma preciosa
herança, um valioso tesouro herdado pelas sucessivas gerações. Ao se referir à
historicidade da Sagrada Escritura, o Papa Bento XVI nos orienta: “Devemos ter a
coragem de voltar a dizer claramente que, tomada em sua totalidade, a Bíblia é católica.
Aceitá-la como está, na unidade de todas as suas partes, significa aceitar os grandes
Padres da Igreja e a leitura deles; significa, portanto, entrar no catolicismo”. (A fé em
crise, página 127).
Nos primeiros séculos do Cristianismo, São Tomás de Aquino ensinava que “as
Escrituras são santas por três motivos: pela sua origem divina, porque foi inspirado pelo
Espírito Santo; pelo seu conteúdo, pois ensinam uma doutrina moral santa e sem
mancha; e pelo seu fim, porque nos santificam, ao conduzir-nos à santidade”. Na
Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II, o Magistério da Igreja
nos ensina que “Deus é o Autor da Bíblia porque as verdades reveladas manifestaram-se
por inspiração do Espírito Santo”. (Dei Verbum, nº 17).
Por meio da leitura e da meditação dos livros da Sagrada Escritura, vamos aos
poucos identificando nossa vida e o nosso ser com o projeto de vida cristã proposto por
Deus e desvendando a pedagogia divina, que nos comunica Sua vontade e Seus
ensinamentos por etapas, paulatinamente, em diversas fases e em diversos momentos.

Descobrimos que a história da salvação se iniciou com a chamada de Abraão (Gn 12,1-
3) e se concretizou com a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Lendo e refletindo os ensinamentos contidos na Sagrada Escritura, adquirimos a
consciência de que “há palavras que servem apenas para entreter, e passam como o
vento; outras instruem, sob alguns aspectos, a mente; as palavras de Jesus, ao contrário,
têm de chegar ao coração, radicar-se nele e modelar a vida inteira. Sem isso, ficam
estéreis e tornam-se efêmeras; não nos aproximam d’Ele". (Discurso do Papa Bento
XVI na Praça de Cibeles, Madri em 18 de agosto de 2011).
Juntamente com a Bíblia Sagrada, devemos também valorizar a Sagrada
Tradição, pois os Evangelhos, antes de serem escritos, foram transmitidos oralmente,
visto que as primeiras gerações cristãs se utilizavam mais frequentemente desse meio de
transmissão da fé. Uma leitura atenta do livro dos Atos dos Apóstolos revela-nos que as
primeiras comunidades cristãs se mostravam assíduas aos ensinamentos dos Apóstolos e
foi neste contato profundo e vivencial com as Escrituras que os primeiros cristãos
encontraram forças para atravessar e resistir às perseguições e aos martírios.
A Bíblia Sagrada não é e nunca será um mero livro. Penso que seja correto
afirmar que ela é uma enciclopédia composta por setenta e três livros, escritos pelos
hagiógrafos, ou seja, pessoas que, inspiradas por Deus Espírito Santo, escreveram, com
fidelidade, os livros bíblicos. “É preciso dizer que se deve ler a Sagrada Escritura não
como um livro histórico qualquer, como lemos, por exemplo, Homero, Ovídio, Horácio;
é preciso lê-la realmente como Palavra de Deus, isto é, colocando-se em diálogo com
Deus. Inicialmente deve-se rezar, falar com o Senhor”. (Discurso do Papa Bento XVI
em preparação para a XXI JMJ, em 6 de abril de 2006).
O Antigo Testamento é composto de quarenta e seis livros: inicia-se com o Livro
do Gênesis e termina com o Livro do Profeta Malaquias. Historicamente, sabemos que o
livro mais recente do Antigo Testamento, escrito no século I antes de Cristo, é o Livro
da Sabedoria. Já o Novo Testamento é composto por vinte e sete livros: inicia-se com o
Evangelho de São Mateus e termina com o Livro do Apocalipse de São João.
Os primeiros escritos do Novo Testamento são as duas Cartas de São Paulo aos
Tessalonicenses, que foram produzidas entre os anos 51 e 52 d.C. Sabemos que os três
primeiros Evangelhos, chamados sinópticos, tiveram sua redação definitiva no período
entre os anos 65 e 80 d.C. Segundo um tradicional adágio, atribuído a Santo Agostinho,
podemos afirmar que “o Novo Testamento está oculto no Antigo, enquanto o Antigo é
desvendado no Novo”. Jesus Cristo é o centro dos quatro evangelhos e “os evangelhos
são, sem dúvida, o coração de todas as Escrituras, por ser o testemunho principal da
vida e da doutrina da Palavra feita Carne, nosso Salvador”. (Dei Verbum, 18).
Devemos ler a Sagrada Escritura com piedade, veneração, respeito e humildade,
para que possamos ouvir o que Deus nos diz e contemplar a grandiosa ação
misericordiosa de Cristo para com a humanidade. De manhã até a noite e em todas as
horas, em todos os momentos, a Palavra de Deus deve nos questionar, inquietar,
sustentar, penetrar no nosso íntimo e deixar marcas, pois, ainda hoje, Cristo sussurra em
nossos ouvidos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). Nestes nossos dias,
Nossa Senhora, a Mãe de Cristo e da Igreja, nos pede com docilidade: “Fazei tudo o que
Ele vos disser”. (Jo 2,5).

Desde o Livro do Gênesis até o Livro do Apocalipse, devemos ver, ouvir e
contemplar o pleno cumprimento da história de nossa salvação. Por tudo isso, a Bíblia
Sagrada deve sair de nossas estantes para ocupar um lugar de primazia em nossas
cabeceiras, em nossas escrivaninhas e, principalmente, em nossos corações, pois “é
grande o poder e a força da Palavra de Deus, que constitui o sustento e o vigor da Igreja,
firmeza de fé para os seus filhos, alimento da alma, fonte límpida e perene de vida
espiritual”. (Dei Verbum, 20).
Se formos dóceis, o Espírito Santo de Deus, que nos faz renascer em
Pentecostes, abrirá nossos olhos, nossos ouvidos e demais sentidos para captarmos as
riquezas insondáveis que a Sagrada Escritura nos transmite. Cristo caminha ao nosso
lado, assim como fez com os discípulos de Emaús. Ele nos revela as Escrituras, aquece
os nossos corações e nos faz ver que a Sagrada Escritura é luz para nossas vidas.
Que a Virgem Santa Maria, modelo de docilidade e de obediência à Palavra de
Deus, nos ensine a acolher sempre mais a riqueza inexaurível da Sagrada Escritura, para
que possamos contribuir, com humildade e santidade, para o eficaz resplandecer diante
das nossas comunidades e de nossas famílias da luz da Sagrada Escritura que evidencia
a continua presença de Deus em nosso meio.

Aloísio Parreiras
(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-09-02T18:27:10-03:0002/09/2020|