Um mês da Páscoa do Cardeal Dom José Freire Falcão

“Nunca é tarde pra gente agradecer” – um mês da Páscoa do Cardeal Dom José Freire Falcão

 

“De minha existência totalmente voltada para o sacerdócio, Só posso render graças a Deus por tudo que pude fazer como instrumento de seu poder e de sua misericórdia” De um pequeno distrito do interior do Ceará saiu um dos grandes homens da Igreja no Brasil do século XX. José Freire Falcão nasceu em Ereré, pouco mais de 300 km da capital, Fortaleza, em 23 de outubro de 1925. De seus pais, Otávio Freire de Andrade e de Maria Falcão Freire, um comerciante e uma costureira, recebeu o maior tesouro de sua vida: a fé.

Desde a tenra infância, o sacerdócio já pairava sobre a ideia do pequeno Joselito – como a família costumava o chamar – quando viu seu tio, que acabara de ser ordenado padre, ser recebido com grande festa em sua cidade natal. Aquela cena encheu os olhos do menino de desejo, de alegria. Além do tio, o pároco de sua comunidade também foi um grande exemplo para que o menino quisesse seguir os caminhos do sacerdócio. Ele dizia que quando coroinha, admirava a forma como as pessoas eram tratadas com amabilidade e gentileza pelo pároco e como todos gostavam de ir a Igreja para escutá-lo.

 

A decisão de ser padre

A decisão de Joselito de entrar no seminário se deu aos 9 anos. Aos 11 anos terminou o quarto ano primário em uma cidade vizinha chamada Russas, onde tinha uma tia professora que cuidou de ajudar em sua alfabetização. Tudo isso para que aos 13 anos estivesse ingressando no Seminário. Em 1938, o já adolescente José ingressa no famoso Seminário da Prainha, conhecido por ser “fábrica de bons bispos” para a Igreja do Brasil, título que Dom Falcão fazia questão de relembrar com grande afeto e gratidão pelos tempos que viveu lá.

Durante o período de estudos no seminário, o jovem seminarista José Freire Falcão nunca escondeu o gosto pelos estudos. De temperamento tímido, mas bastante marcante diante dos companheiros, ele contava com tom jocoso que, nos horários reservados para a prática esportiva, se escondia embaixo das escadas para poder ler seus livros e estudar as matérias que mais gostava.

Chegando o momento tão esperado da ordenação sacerdotal – segundo Dom Falcão, o momento mais importante de sua vida – os planos temporais tiveram que ser alterados. Dona Maria Falcão, sua querida mãe, estava bastante doente e não se sabia quanto tempo ainda ela conseguiria resistir. O bispo de Limoeiro, diocese do diácono José Freire Falcão, num gesto de sensibilidade e paternidade espiritual, decidiu por adiantar em seis meses a ordenação sacerdotal de seu diácono para que Dona Maria Falcão pudesse ver o filho padre. Dom Aureliano de Matos, então, ordena o Padre José Freire Falcão no dia 19 de junho de 1949 em Limoeiro do Norte.

Após sua ordenação, o padre José viaja para sua comunidade e, diferente do que havia pensado na infância, que sua primeira Missa seria um momento de grande festa, a providência divina o levou a celebrá-la na sala de visita da casa de sua mãe para que ela, do leito em que estava deitada no quarto, pudesse assistir seu filho oferecendo o Santo Sacrifício da Missa. Dona Maria Freire depois confidenciou ao filho que rezava pedindo a intercessão de Santa Terezinha para que o primeiro filho homem fosse padre: a santa concedeu este milagre a mãe que rezava!

Com 42 anos de idade e 18 de sacerdócio, Padre José Freire Falcão recebe a notícia de que havia sido escolhido para ser sagrado bispo. Dom Falcão sempre afirmou, em todas as vezes que o perguntavam sobre sua nomeação ao episcopado, o que mudou em sua vida depois de bispo e como foi receber essa notícia. Ele sempre respondia que recebeu com tranquilidade pois nunca buscou honrarias e que nada havia mudado dentro dele, só as responsabilidades que aumentavam. Esse pensamento traduzia bastante o lema episcopal que Dom Falcão escolheu para nortear seu ministério: In humilitate servire – Servir na humildade.

Como bispo de Limoeiro, sua diocese de origem, percorreu 4 anos de serviço pastoral a seu povo. Em seguida, foi elevado a Arcebispo de Teresina onde governou a arquidiocese da capital do estado do Piauí por 13 anos. Lá teve a oportunidade de expandir o serviço caritativo da arquidiocese, ordenar padres, receber a visita do Papa João Paulo II e, por várias vezes, ser representante do episcopado brasileiro nas assembleias da Conferência Latino-Americana do Bispos, inclusive sendo seu vice-presidente.

 

O humilde servo do Senhor

O humilde servo do Senhor, o pequeno Joselito, menino tímido do interior do Ceará, com sua simplicidade e humildade, foi responsável por grandes responsabilidades. Dom Falcão integrou o Departamento de Vocações e Ministérios, Departamento de Educação, ambos do CELAM, além de ter sido responsável pela seção de ecumenismo dela. Em 1979 participou da Conferência de Puebla, no México, e se destacou pelo perfil conciliador entre os pares, mas sempre fiel à Igreja e sua Tradição. Dom Falcão foi um dos integrantes da comissão de revisão do Código de Direito Canônico instituída pelo Papa João Paulo II, além de ter participado da VI Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, a convite do amigo João Paulo II, a quem teve a honra de receber por duas vezes no Brasil: primeiro em Teresina e, depois em Brasília.

Quando de sua transferência para a Arquidiocese de Brasília, em 1984, sucedendo Dom José Newton de Almeida Baptista, afirmou que desejava ter um bom relacionamento com o governo federal. E assim aconteceu. Dom Falcão era estimado por toda a classe política. Nunca deixou de ser porta-voz da verdade e do Evangelho, mas sabia, de forma surpreendente, dialogar com os políticos levando-os a refletir sobre suas atribuições e, por vários, sendo estimado como amigo e conselheiro. Dom José Freire Falcão foi tido como um dos prelados brasileiros mais bem informados e, fazia parte do “grupo do Jornal do Brasil” – nomenclatura utilizada pela CNBB, na época, para se referir aos bispos que teriam espaço garantido nas páginas de opinião dos grandes jornais brasileiros – juntamente com Dom Eugênio Sales e Dom Lucas Moreira Neves.

Em 28 de junho de 1988, Dom José Freire Falcão foi criado Cardeal pelo Papa João Paulo II. Dom Falcão sempre lembrava que a única diferença, para ele, com os títulos que recebia, é que teria mais reuniões a participar, não sendo motivo de honraria, mas de humilde serviço a Igreja.

 

Governo na Arquidiocese de Brasília

Durante seu governo na Arquidiocese de Brasília ordenou mais de 100 padres e criou dezenas de paróquias, expandindo sempre a ação evangelizadora da Igreja em Brasília. Preocupado com a formação dos leigos, fundou um centro de estudos de Teologia, chamado inicialmente de Curso Superior de Teologia – atualmente FATEO –, bem como acolheu inúmeros carismas, movimentos e pastorais, fazendo da jovem Arquidiocese de Brasília um grande celeiro de trabalhos pastorais.

Em 2004, o Cardeal Dom Falcão passou o báculo ao seu sucessor Dom João Braz de Aviz. Ao completar 75 anos de idade os bispos, em suma, tornam-se eméritos e passam a colaborar não mais com o governo da diocese, mas com suas orações, seu serviço e sua dedicação e aconselhamento. Assim Dom Falcão o fez. Seus três sucessores são unânimes em afirmar que sua presença sempre foi de um pai, um irmão que aconselhava, respeitava e, sobretudo, se colocava à disposição para as necessidades de Arquidiocese.

Nos últimos anos, Dom Falcão celebrou inúmeros jubileus de uma vida doada a Igreja. Em todas as oportunidades de celebração ele nunca deixava de afirmar que “nunca é tarde para a gente agradecer”. De fato, o testemunho daqueles que o acompanharam nos últimos anos de peregrinação terrestre era de que o Cardeal sempre foi um homem agradecido a Deus.

Mesmo tendo inúmeras capacidades, sobretudo intelectuais, nunca se envaideceu. Escreveu artigos mensalmente para jornais, publicou alguns livros, concedeu várias entrevistas e, após a sua Páscoa, percebeu-se a numerosa quantidade de escritos guardados durante toda a sua vida. Mas o legado deste pastor vai muito além de tudo isso: sua humildade e serviço transcenderam, sua infância espiritual, de amizade pueril com seus santos de devoção e com Nossa Senhora, transbordou para a vida. Sim, o pequeno Joselito foi purpurado príncipe da Igreja, mas nunca deixou de ser, o pequeno Joselito.