UM SAUDÁVEL SENSO DE HUMOR

A simpatia, a alegria e o bom humor são virtudes que devem ser vivenciadas pelos fiéis cristãos, pelos discípulos missionários de Jesus que não poupam esforços no anúncio do Evangelho. Em sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, “Alegrai-vos e Exultai”, o Papa Francisco nos ensina: “O santo é capaz de viver com alegria e bom humor. Sem perder o realismo, ilumina os outros com um espírito positivo e esperançoso”. (Gaudete et Exsultate, nº 122.)

São Francisco de Sales afirmava, com frequência, que “um santo triste é um triste santo”. De fato, caras fechadas, rostos sisudos ou tristes não auxiliam em nada na realização de um apostolado. Cherteston, o grande escritor e teólogo inglês, com leveza e bom humor, gostava de dizer que “a razão pela qual os anjos voam é que eles levam as coisas com leveza”.

Nas Sagradas Escrituras, nós encontramos várias passagens que se referem à alegria como consequência da presença de Deus em nossas vidas. No Antigo Testamento, o profeta Isaías dirigiu-se ao Messias esperado, saudando-o com regozijo: “Multiplicastes a alegria, aumentastes o júbilo”. (Is 9,2). No Novo Testamento, percebemos que a palavra “alegra-te”, foi a saudação que o Arcanjo Gabriel fez à Virgem Maria. Na comunicação da Boa Nova da Salvação, o Cristo dizia aos Apóstolos: “Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria! ” (Jo 16, 20). Nas primeiras comunidades cristãs, nós verificamos que os discípulos de Jesus “tomavam o alimento com alegria”. (At 2, 46). Por onde passavam esses discípulos, “houve uma grande alegria”. (At 8,8). E eles, no meio da perseguição, “estavam cheios de alegria”. (At 13, 52). Ou seja, é possível viver a alegria mesmo quando nos parece que a vida é difícil, quando nos fere, mesmo quando parece que o jogo está perdido.

Quando lemos as biografias dos santos da nossa Igreja, nós notamos que o sentido do bom humor foi bem visível na vida de alguns deles, tais como São Tomás More, São Domingos Sávio, São Filipe Neri, São João Bosco, Josemaria Escrivá, Santa Teresa de Ávila e outros que testemunharam que o bilhete de identidade do cristão é a alegria.

Vejamos alguns exemplos dessa alegria e bom humor na vida dos santos, para que possamos verificar que a alegria é fruto de um coração generoso. São João Bosco sempre se dedicava a divertir os seus amigos e os jovens com jogos de malabarismo, brincadeiras e travessuras honestas e agradáveis, jogos de habilidade e até mesmo truques de mágica.  O jovem Domingo Sávio, que foi aluno de Dom Bosco, aprendeu com o seu professor a ser um animador de jogos e a contar milagres de estórias alegres e divertidas, demonstrando assim que o bom humor é contagioso.

São Felipe Neri também se caracterizou pelo bom humor e alegria. O objetivo central da sua espiritualidade baseava-se no trinômio: alegria, oração e atividade. Essas três palavras continham o segredo da santidade que ele refletia no seu cotidiano.

São Josemaria Escrivá, o santo fundador do Opus Dei, também era conhecido pela sua alegria e bom humor. Nos momentos de cansaço, ele pedia aos seus colaboradores que contassem uma boa piada. Ele gostava de afirmar que “perder o bom humor é coisa grave. Bom humor até no momento da morte”. Em seu livro, Caminho, ele nos ensina: “caras compridas, maneiras bruscas, aspecto ridículo, ar antipático. Desse jeito esperas animar os outros a seguir Cristo? ” (Caminho nº 661).

Muitos Papas também manifestaram um contínuo bom humor e alegria. Entre eles, nós podemos citar João XXIII, João Paulo I, João Paulo II e Francisco. Em uma das suas homilias, o Papa Francisco nos disse: “Conheci uma freira, bem distante daqui, uma pessoa boa, trabalhava, mas sua vida era um lamento só, ela se lamentava de tudo o que acontecia. Por isso, no convento a chamavam a Irmã Lamentela. Faz mal encontrar cristãos assim, sempre com a cara amargurada, com aquela expressão inquieta de tanto azedume, que nunca está em paz”. (Homilia em 14 de dezembro de 2014). Em outro momento, em uma meditação, ao se referir aos cristãos com um coração frouxo e sem firmeza, com bom humor, ele disse: “Senhor, joga uma casca de banana na frente deles, para que escorreguem, se envergonhem de ser pecadores e, desse modo, te encontrem como Salvador”. (Meditação em Santa Marta, em 15 de dezembro de 2014).

Contemplando o exemplo dos santos e dos Papas, nós percebemos que a alegria, o bom humor, é uma das melhores coisas da vida, pois sorrir faz bem. Mas a verdade é que nem sempre lembramos de sorrir. Envolvidos pelas dificuldades e exigências que nos cercam, muitas vezes, passamos o dia tensos, sem dar um sorriso sequer, perdendo assim a oportunidade de proporcionar benefícios à nossa saúde. O bom humor abre portas, derruba muros, constrói pontes e alavanca os relacionamentos e o nosso apostolado e, por isso, nós devemos aprender a rezar, utilizando as palavras de Santa Teresa de Ávila: “De devoções néscias e santos de rosto desabrido, livrai-nos, Senhor! ”.

Vamos terminar rezando a oração do bom humor que é atribuída a São Tomás More, o político, humanista e diplomata inglês que foi decapitado por ordem do rei Henrique VIII, por denunciar os erros do monarca. Rezemos juntos: “Senhor, dai-me uma boa digestão, mas também algo para digerir. Dai-me a saúde do corpo, mas também o bom humor, necessário para mantê-la. Dai-me, Senhor, uma alma simples, que saiba aproveitar tudo o que é bom e que não se assuste quando o mal chegar, e sim, encontre a maneira de colocar as coisas no lugar. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, nem os resmungos, suspiros e lamentos, e não permitais que eu me atormente demais com essa coisa incômoda demais chamada ‘eu’. Dai-me, Senhor, o sentido do bom humor. Dai-me a graça de compreender uma piada, uma brincadeira, para conseguir um pouco de felicidade e para dá-la de presente aos outros. Amém! ”.

Aloísio Parreiras
2020-03-29T11:36:26-03:0029/03/2020|