VER, COMPADECER E CUIDAR

No decorrer de nossas vidas, se não cuidamos, em diversos momentos, vivemos apressados e não percebemos as necessidades do nosso próximo ou não escutamos o pedido de socorro dos enfermos, dos pobres e dos marginalizados. Agindo assim, perdemos a oportunidade de sermos próximos, deixamos de realizar as obras de misericórdia e não percebemos que as adversidades do outro são postas à nossa frente para que possamos socorrê-los e, a partir delas, extrairmos conhecimento e sabedoria, pois tudo é aprendizado de fé e de santidade.

            Passar ao largo, mudar de caminho, fechar os olhos diante do sofrimento do outro não são atitudes que combinam com a postura de um fiel cristão que, movido pela caridade, deve sempre mais ver, compadecer, parar e cuidar. É essa a mensagem que Cristo nos ensina com a parábola do bom samaritano, que é descrita somente pelo evangelista São Lucas, o evangelista da misericórdia.

Pelo relato do Evangelho (Lc 10, 25-37), somos inseridos no episódio em que Cristo nos diz que “um certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o quase morto. Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado”. (Lc 10, 30-32).

            Diante da atitude de indiferença do sacerdote, nós nos questionamos: Por que o sacerdote não parou e cuidou do homem ferido? O que houve? O que faltou? Será que o compromisso, ao qual ele se dirigia a toda pressa, era mais urgente do que evitar uma morte?

Na busca dessas respostas, perceberemos que ajudar é algo facultativo, pois quando somos conduzidos pelo egoísmo e pelo autocuidado, promovemos a nossa própria saúde mental, física e emocional e, por isso, evitamos o contato com situações e perigos que possam representar algum risco para nós. Refletindo sobre o que aconteceu com aquele homem, que estava à beira do caminho, o sacerdote pode ter pensado: será que é um leproso que está definhando? Será que esse homem foi vítima de um assalto? Será que os assaltantes ainda estão nas redondezas?

Com a atitude de indiferença daquele sacerdote, devemos aprender que, enquanto permanecermos na busca da autopreservação e no autocuidado excessivo, o mundo sempre será perigoso demais, pois estaremos limitando o nosso olhar a um único contexto, esquecendo-nos que a realidade lá fora é muito maior do que todos nós. Devemos aprender também que “a vida é uma complexidade de virtudes e falhas, forças e instintos. Ninguém é mau por natureza, mas, à medida que nos elevamos ou nos abaixamos, nos tornamos melhores ou piores. Podemos dizer que a via do meio não existe: devemos escolher o vício ou a virtude; para praticar a virtude, é necessário um esforço”. (Tomás de Kempis). Naquele dia, o sacerdote escolheu não realizar nenhum esforço; escolheu mudar de caminho para não cuidar do homem ferido, esquecendo-se de que “a fé sem obras é morta”. (Tg 2,26).

No desenvolvimento da parábola, percebemos que aquele homem, que jazia próximo à morte, teve uma segunda oportunidade de ser socorrido, pois um levita que estava passando por ali o enxergou caído, mas ele também seguiu adiante por outro caminho. O que será que levou o levita a passar adiante? Pode ser que o levita tenha pensado: “Aqui não é a região em que eu habito. Eu não conheço esse homem e os meus seguidores estão me esperando para o estudo das Leis e, por isso, não posso ajudá-lo, pois não posso me atrasar e eu não quero sujar as minhas mãos.”

Na continuidade da parábola, nós verificamos que “um samaritano, que estava viajando, chegou perto daquele homem ferido, viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: ‘Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais!’”. (Lc 10, 33- 35).

Podemos imaginar que aquele hospedeiro tenha ficado confuso e talvez tenha até se interrogado: “Por que esse samaritano, que não pertence ao povo de Israel, está cuidando de um israelita?  Por que ele parou, colocou-o em seu cavalo e alugou um quarto para assisti-lo?”

O exemplo e a solicitude do bom samaritano são magnânimos, pois nos revelam que quem precisa de ajuda, não pode esperar. Por outro lado, nos revelam também que os discípulos missionários de Jesus não podem ter medo de sujar as mãos ou as roupas diante da dor e do sofrimento do próximo, mas devem, sim, se sentir responsáveis pela remissão da dor alheia, evidenciando que a força da misericórdia é inimaginável.

Com o exemplo de compaixão demonstrado pelo bom samaritano, adquirimos a consciência de que ter compaixão, compadecer-se, é ser capaz de perceber a oportunidade de ajudar e prestar serviço, e fazer isso sem sair do próprio caminho. Ter compaixão é manter-se equilibrado, levando companhia, apoio, orientação ou consolo onde for necessário. Ter compaixão é amar o outro com toda a expressão da caridade que pudermos sentir e praticar. Não obstante, não é suficiente conhecer a Lei e os Evangelhos, pois Deus espera muito mais de nós. O sacerdote e o levita da parábola conheciam a Lei, mas isso não foi suficiente para fazê-los parar diante do sofrimento alheio. O que de fato faz diferença e nos impulsiona a cuidar das necessidades do outro é o amor de Deus que extravasa dos corações dos fiéis que aprenderam a não passar ao largo.

Por meio da parábola do bom samaritano, nós temos acesso à revelação de que ajudar não é uma mera escolha para os fiéis cristãos, mas é, sim, um compromisso de amor, um nobre gesto de solidariedade para com o próximo. É evidente que o ato de ajudar, em muitas situações, exige sacrifícios e renúncias, mas nada é mais importante do que socorrer e cuidar de quem está suplicando por ajuda.

Aprofundando um pouco mais na parábola do bom samaritano, nós iremos adquirir a certeza de que o Bom Samaritano é o Cristo, que nos ensina a ter compaixão por aqueles que sofrem e, mais do que isso, cuidar deles. Ao nos desafiar a avançar para águas mais profundas, o nosso Redentor nos questiona: Você é generoso? Qual é a sua atitude quando você se encontra com alguém que sofre e está em dificuldades?

Por meio da parábola do samaritano, o Cristo nos revela algo essencial em nossas vidas: se soubermos enxergá-Lo no irmão que sofre nos caminhos de nossa História, se soubermos estender a mão e realizar as atitudes samaritanas de compadecer e cuidar, nós iremos receber em herança a vida eterna. Ou seja, se formos misericordiosos, Deus nos acolherá em Sua infinita misericórdia, que é o sustentáculo da nossa vida e da vida da Igreja.

Sejamos, hoje, amanhã e sempre, samaritanos misericordiosos, animados cada vez mais pela compaixão efetiva por qualquer pessoa que encontremos ferida na senda da vida com a plena convicção de que, hoje e agora, devemos colocar os nossos dons, bens e tempo ao serviço de Deus, da Igreja e do nosso próximo, numa partilha cotidiana da caridade.

Peçamos à Virgem Santa Maria, nossa amada Mãe, que nos ajude a estarmos atentos às necessidades dos nossos coetâneos, assim como Ela o fez nas Bodas de Caná da Galileia, a fim de que possamos ser bons samaritanos que juntos, ajudando-nos uns aos outros, em termos humanos e espirituais, possamos alcançar a vida eterna, o paraíso, o Reino dos céus.

Aloísio Parreiras

(Escritor e membro do Movimento de Emaús)

2020-10-05T10:47:19-03:0005/10/2020|