VIVER SEM MEDO

O medo é um sentimento inerente a todo ser humano. O medo atormenta e torna reais os problemas, as dificuldades e os receios que inicialmente estavam apenas na imaginação e, por isso, esse sentimento permite que nos protejamos de possíveis perigos do cotidiano, mas, se não cuidamos, o medo pode nos paralisar e nos conduzir a crises de ansiedade e de pânico.

No decorrer de nossas vidas, em muitos momentos, a vida pode se tornar estreita, difícil e insegura. Quem nunca sentiu medo na vida? Por mais corajosos que sejamos, sempre existem situações ou lugares que deixam um frio na barriga ou as pernas bambas.

Pelo relato dos Evangelhos, nós percebemos que os Apóstolos e os discípulos de Cristo também sentiram medo em diversas ocasiões e, por isso, o nosso Redentor lhes questionou: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé”. (Mc 4, 40). Em outra situação, Cristo lhes disse: “Não tenha medo, pequeno rebanho! ” (Lc 12, 32).

Em nossa caminhada na fé, nós percebemos que a experiência da proximidade de Deus e do poder da Sua graça não nos afastam do dever de enfrentar e superar as dificuldades e os medos que possam aparecer no dia a dia, pois os obstáculos do cotidiano são, precisamente, uma ocasião de demonstrarmos até que ponto amamos a Deus, até que ponto somos fiéis aos Seus ensinamentos e até que ponto cumprimos o decálogo.

Quando somos escravos do medo, corremos o sério risco de imaginar que o Senhor se afastou de nós, o Senhor nos abandonou, ainda que seja apenas por um breve período de tempo. Nessas situações, temos que ouvir o Cristo sussurrar em nossos ouvidos: “Tende confiança, sou Eu, não temais!”. (Mt 14, 27).

Não podemos ter medo de manifestar os sinais da nossa fé e o nosso amor pelo Senhor. Ficar calado por medo de ser mal visto ou caluniado quando Deus e a Igreja são ofendidos não é nada bom, pois o medo faz mal, enfraquece os nossos ideais humanos e cristãos e limita o nosso serviço missionário.

Quem tem medo de expressar a sua pertença a Cristo e a sua devoção à Virgem Maria concentra-se em si mesmo para que não lhe aconteça nenhum tipo de perseguição. Agindo assim, a pessoa fica paralisada em seu medo, demonstrando que não entendeu nada da mensagem de Cristo que nos diz: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno”. (Mt 10, 28).

São João Evangelista, em uma das suas epístolas, escreveu: “No amor não há temor, mas o amor perfeito lança fora o temor, e aquele que teme não é perfeito no amor”. (1 Jo 4, 18). O amor e o medo são dois sentimentos distintos que se excluem, ou seja, onde há amor perfeito não existe medo e onde existe medo não existe amor perfeito.

Em termos de fé e de santidade, o Cristo nos desafia a superar o medo que limita as possibilidades do nosso testemunho. Como podemos superar esse medo? O primeiro passo é sempre reforçar a consciência de que não somos autossuficientes, sozinhos afundamos, perecemos; precisamos do auxílio da graça divina como os antigos navegadores precisavam das estrelas. O segundo passo é confiar a Jesus todos os nossos medos, a fim de que Ele nos ajude a superá-los. O terceiro e necessário passo é abrir as portas do nosso coração a Cristo, para que possamos buscar um maior crescimento espiritual, ou seja, temos que nos dedicar a uma formação permanente, pois mesmo nas tempestades da vida, Deus está conosco, conduzindo-nos a um porto seguro.

Em Pentecostes, nós vislumbramos a poderosa ação do Espírito Santo afugentando o medo do coração dos Apóstolos e impulsionando-os a sair do Cenáculo para anunciar a alegria do Evangelho. Quando somos dóceis ao Divino Espírito, Ele nos ajuda a vencer os medos, os temores e nos dá coragem para testemunhar a fé em Cristo vivo e ressuscitado em todos os ambientes. É o Espírito Santo quem nos capacita para o serviço da Igreja, pois junto d’Ele nós não temos medo de sermos cristãos e nem de vivermos como cristãos. Em união com o Espírito Santo, superamos o medo, escutamos a Palavra de Deus e, passo a passo, permitimos que Ele nos conduza ao encontro pleno e transformador com Cristo, até fazermos d’Ele o tesouro, o sal e a luz da nossa vida.

Com a ajuda do Paráclito, nós não temos medo de nos arriscar por Cristo; afinal, a senda da santidade é um caminho de generosidade onde temos acesso à revelação de que a Eucaristia e a Reconciliação são sacramentos que fortalecem a caridade e a esperança, renovando as nossas forças no Senhor, despojando-nos de todo medo.

O santo temor de Deus, que é um dom do Espírito Santo, nada tem a ver com o medo, pois o temor de Deus é uma virtude, não é limitativo e não nos enfraquece. Ao contrário, o dom do temor de Deus nos impulsiona a ir adiante para cumprir a missão que o Senhor nos confiou. É o dom do temor de Deus que nos leva a professar: Senhor, “nós confiamos a Vós todas as nossas preocupações, porque Vós tendes cuidado de nós!”. (1 Pd, 5, 7).

Nestes nossos dias, em função da pandemia da Covid-19, o medo está ao nosso lado, à nossa frente e em nossas mentes, pois estamos percebendo que somos fracos e limitados, inseguros e indecisos. “Nestes dias de tanto sofrimento, há tanto medo. O medo dos anciãos, que se encontram sozinhos, nas casas de repouso ou no hospital ou na casa deles e não sabem o que pode acontecer. O medo dos trabalhadores sem trabalho fixo que pensam como prover o alimento a seus filhos e veem a fome chegar. O medo de tantos agentes sociais que, neste momento, ajudam a sociedade a seguir adiante e podem pegar a doença. Também o medo – os medos – de cada um de nós: cada um sabe qual é o próprio. Rezemos ao Senhor, a fim de que nos ajude a ter confiança e a tolerar e vencer os medos”. (Papa Francisco, Homilia na Casa Santa Marta em 26 de março de 2020).

Mesmo nessa pandemia, nós não podemos permanecer paralisados pelo medo, pois podemos realizar muitas coisas, desde o serviço da oração, até o serviço da caridade, da esperança e da fé. O que não podemos permitir é que o medo se sobreponha ao amor, pois o Senhor Jesus está conosco. Estejamos, portanto, confiantes e tranquilos na certeza de que essa noite escura vai passar, anunciando uma nova aurora, uma esplendorosa alvorada.

Mesmo no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo, pois Cristo e a Sua bondosa Mãe estão caminhando ao nosso lado, fortalecendo a nossa fé. Nesse percurso de fé, se nos perguntarem por que confiamos na intercessão de Maria e por que não estamos com medo, saibamos lhes dizer: Não tens visto as mães da terra, de braços estendidos, seguirem os seus meninos quando se aventuram, temerosos, a dar os primeiros passos sem a ajuda de ninguém? Não estás só; Maria está junto de ti”. (São Josemaria Escrivá, Caminho, nº 900).

Agindo assim, permanecendo na escola de Maria, nós podemos testemunhar que não deixamos espaço para o medo em nosso coração, porque aprendemos que a esperança nasce do amor e com o amor vêm a confiança, a fortaleza e a perseverança. Mãe Maria, livrai-nos do mal do medo e ensinai-nos a caminhar com renovada justiça e esperança!

Aloísio Parreiras

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