XIX Domingo do Tempo Comum – 09.08.2020

A PALAVRA DO PASTOR

+Dom José Aparecido Gonçalves de Almeida

 

CORAGEM! SOU EU. NÃO TENHAIS MEDO!

 

A Igreja dedica este domingo à oração pela vocação da família como sinal sacramental do amor de um Deus paterno e da Igreja como casa do encontro com o Pai. A liturgia da Palavra hoje nos ensina que só a discreta presença do Pai nos dá a verdadeira paz.

No monte Horeb, o monte de Deus (1Rs 19,9-13), Elias tem uma experiência da passagem de Deus. Não foi “no vento impetuoso e forte”, não foi no “terremoto”, nem “no fogo” que percebeu Deus presente. Estes sinais cósmicos retumbantes nos distraem da presença discreta de Deus. Não foi nas tempestades e nos terremotos da vida, nem na entrega ao fogo das paixões afetivas ou ideológicas que se revelou a presença do Deus vivo. “O Senhor não estava no fogo”, diz o autor sagrado. “Depois do fogo, ouviu-se um murmúrio de uma leve brisa”. Elias então “cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta”. Só então encontrou a paz, na intimidade e no amor do Deus bom e compassivo.

A proximidade de Deus parece ser posta em questão pela sensação da silenciosa distância de Deus. Mas “o Senhor está sempre próximo, pois se encontra na raiz do nosso próprio ser. Pela proximidade somos fortalecidos, pela distância, postos à prova” (Romano Guardini). Deus nos ensina que na fragilidade é que somos fortes, porque ele está conosco.

Voltemos à cena evangélica (Mt 14,22-33). “Depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem à sua frente, para o outro lado do mar”. Entrementes, Jesus subiu ao monte para orar. Com a noite avançada, o mar se agitou e a barca parecia afundar. Os discípulos apavorados viram Alguém caminhar sobre as águas. Antes que o reconhecessem, Jesus lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” Este “sou eu” revelou aos discípulos o poder de Jesus. Pedro, chamado por Jesus, começou a caminhar sobre as águas. Mas logo, tomado pelo medo, ia afundando, quando clamou: “Senhor, salva-me!”. Jesus, reprovando-lhe a falta de fé, tomou-o pelas mãos e o segurou.

Ainda que com a fé apoucada, é possível ver no mar a instabilidade do mundo visível; na tempestade, tudo o que oprime a existência humana. Mas aquela barca, diz Bento XIV, “representa a Igreja edificada por Cristo e norteada pelos apóstolos”. Ele deseja educar os discípulos a suportar com coragem as adversidades da vida, confiando no Deus que fala “no murmúrio de uma brisa ligeira”. Na barca a zingrar os mares bravios, descobrimos que a paz, a calmaria só vem ao estreitarmos a mão do Senhor.

Santo Afonso, aludindo à Igreja, desenhou uma nau na tempestade com a seguinte legenda: “Semper fluctibus agitata, et semper victrix – Sempre agitada pelas vagas e sempre vitoriosa”. Vitoriosa, sim, mas pela mão de Cristo que a sustém.

A suave presença de Maria ajude nossas famílias a serem Igrejas domésticas.

2020-09-21T12:07:34-03:0021/09/2020|