XXIII DOM TEMPO COMUM

Dom Paulo Cezar

Arcebispo de Brasília

Effatha, que quer dizer: Abre-te

Neste domingo, encontramos Jesus que cura um homem surdo e que falava com dificuldade (Mc 7, 31-37).  A narrativa começa com Jesus em movimento e nos mostra a Sua consciência de colocar em ação o Reino de Deus por meio de gestos e palavras. Agora, trazem até Jesus um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. A sua doença é designada com a expressão Kophón kaì mogilálon: surdo e mudo. Indica alguém que é surdo e podia apenas balbuciar as palavras. Aquele homem estava fechado na sua capacidade de comunicar-se.  Ele está fechado por que a sua realidade física o impede de comunicar-se. A sua realidade deve nos questionar sobre a nossa capacidade de comunicação. O ser humano foi criado para quatro relações fundamentalmente: com Deus, com os outros, com a criação e consigo mesmo. O fechamento implica sempre esta incapacidade de se abrir-se, de comunicar, de criar relações à altura da dignidade e grandeza do seu humano. Pode implicar uma visão baixa do outro, do meio, uma antropologia reducionista e até uma visão baixa de si mesmo.

Jesus cura esse homem. Jesus não faz espetáculo e, por isso, toma o doente à parte, longe da multidão. Jesus Se comunica com aquele homem colocando os dedos nos seus ouvidos. Ele estava surdo, mas, ao colocar o dedo no seu ouvido, ele pode sentir o dedo de Jesus. Jesus cuspiu, e com a saliva tocou a língua dele. Talvez o gesto possa parecer grotesco para nós hoje, mas, no Oriente Antigo, era atribuída à saliva um poder mágico de curar principalmente a doença dos olhos. Aqui Jesus não lhe atribui nenhum poder mágico. Ele entra em comunicação com este homem que está bloqueado e lhe transmite confiança. A cura se realiza mediante a súplica de Jesus: “Depois, levantando os olhos para o céu, suspirou e disse: ‘Effatha’, que quer dizer ‘abre-te’. E imediatamente abriram-se-lhes os ouvidos e a língua se lhe desprendeu, e falava corretamente”.   São Marcos relatou o termo original, em aramaico, usado por Jesus: “Effatha”. Jesus liberta aquele homem pagão das amarras que o mantinham fechado em si mesmo, e agora ele fala corretamente. A salvação de Jesus atinge a pessoa na sua totalidade, abre a existência às relações totais do seu humano. Só Deus pode nos dar a salvação, salvar a nossa existência, nos fazer viver com autenticidade e verdade nas nossas relações. Este gesto de Jesus foi repetido, pelo sacerdote, na celebração do nosso batismo. Também nós tivemos nossos ouvidos abertos à escuta da Palavra de Deus e nossa boca aberta para professar as maravilhas de Deus. A existência pascal ou batismal implica a capacidade de escuta da Palavra de um outro na história, da Palavra de Deus. Somente escutando a Palavra de Deus e proclamando suas maravilhas, viveremos com autenticidade as nossas relações de seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus e destinados à vida definitiva com Deus.

2021-09-17T10:14:39-03:0014/09/2021|