XXVII DOM TEMPO COMUM – 03/10

Dom Paulo Cezar

Arcebispo de Brasília

 

Deus os fez homem e mulher

            A palavra de Deus, neste domingo, coloca diante de nós a vocação originária do projeto de Deus para o matrimônio. Alguns fariseus querem colocar Jesus à prova e Lhe perguntam: é licito ao homem divorciar-se de sua mulher? Qual era a situação do divórcio no tempo de Jesus? A Tôrah sobre este ponto era clara: um marido pode repudiar a mulher (Dt 24,1-4). Mas a situação de Israel sobre este ponto é mais complexa. A prática normal se coloca sobre esta linha de permitir o divórcio, como atestam as escolas de Shammai e de Hillel, que divergem somente sobre a motivação do divórcio (m. Ghit. 9,10). Mas a existência de um matrimônio indissolúvel é atestada em Qumran, não somente uma vez (CD 4,20-5,5; 11Qt 57,17-18); e em Ghit 90b, onde se lê: “quando um homem repudia a sua primeira mulher, também o altar derrama lágrimas por ela”.

Jesus se opõe explicitamente à tradição da prática do divórcio (Mc 10,2-12; Mt 19,3-9; Mt 5,31s; Lc 16,18) e há também a confirmação independente de Paulo (1Cor 7,10-11). A posição de Jesus não trata somente de um rigor maior no interno de um sistema indiscutível, mas de uma verdadeira e própria proibição positiva: a pergunta formulada pelos fariseus (Mc 10,2 «ei éxestin…, «É lícito…?») tem uma conotação jurídica, e a resposta implica uma verdadeira oposição ao texto legal do Deuteronômio. A solução que Jesus anuncia jamais fora considerada por outro doutor da época. Jesus retorna ao projeto original do Criador onde, no início, Deus fez o homem e a mulher. “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!” (Mc 10, 7-9). É neste projeto criador original que se deve fundamentar toda escolha de vida matrimonial cristã.  No projeto original de Deus, está um ideal de doação limpidamente totalizante, que não pode ser abolido por uma permissão introduzida por causa da dureza dos corações. Jesus aboliu a concessão feita no tempo da dureza do coração e restituiu a vontade originária do Criador. Por isso, afirma o Papa Francisco: “(…) a aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a revelação plena do seu significado em Cristo e na Igreja, e a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26-27) até a realização do mistério da Aliança em Cristo, no fim dos séculos, com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19, 9)” (Papa Francisco, Amoris Laetitia, 63).

Que esta Palavra de Deus nos ajude percebermos a beleza do matrimônio e da família no projeto de Deus. Que ela inspire todos os agentes das pastorais e dos movimentos ligados à família a proclamarem a beleza da família no projeto salvífico de Deus. A beleza do projeto de Deus deve nos ajudar, também, a não desprezar os casais feridos em sua vida conjugal, mas a acolhê-los, acompanhá-los e integrá-los. Sejamos missionários da beleza da família no projeto salvífico de Deus.

2021-10-01T23:50:03-03:0001/10/2021|