Confira na íntegra a Homilia da Missa do Crisma 2026 na Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida

O Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo Metropolitano de Brasília, destacou a missão do ministério sacerdotal a serviço do povo de Deus.

Estamos reunidos, como Arquidiocese de Brasília, na Igreja Catedral, celebrando a nossa comunhão. Nesta celebração, o Arcebispo com o seu presbitério ao redor, com a participação dos fiéis, tem-se uma verdadeira epifania do povo de Deus, que é um povo sacerdotal, onde o sacerdócio ministerial está a serviço do povo de Deus. O texto do Apocalipse proclamado manifesta este povo sacerdotal (Ap 1, 5 – 8): “A Jesus que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade”. É a beleza do ser Igreja, Povo de Deus que celebramos onde o ministério ordenado tem um papel fundamental, pois manifesta a dependência do Corpo da cabeça, que é Cristo. O Corpo não consegue dar-se a si mesmo todos os bens que necessita, mas deve esperá-los do seu Senhor, de Jesus Cristo.

Na nossa amada Arquidiocese, estamos buscando edificar uma Igreja Mistagógica, Sinodal e Missionária. Neste ano, nos dedicaremos mais à Mistagogia. Vivemos num ambiente cultural que denominamos cultura ocidental com um endereço praxista, toda dirigida ao fazer, ao produzir, ao operar; que, em contrapartida, gera uma necessidade de silêncio, de escuta, de respiro contemplativo. É o respiro do coração que necessita daquele que o criou, pois só no diálogo amoroso da oração, da contemplação, se pode experimentar o coração aquecido pelo amor de Deus. A mistagogia nos mostra que com o mistério pessoal de Deus se entra em relação. Chegou o tempo em que a Igreja deve ser aquela comunidade que ajuda os homens e mulheres do nosso tempo a fazerem uma experiência do mistério de Deus, experiência que dá sentido à existência, que ilumina as grandes decisões da vida, que dá sentido ao viver, ao morrer. Deus é um mistério pessoal ao qual o homem de hoje é chamado a fazer um encontro pessoal, encontro que muda a vida, transforma a existência.

A fé não nasce de uma ideia, uma filosofia, mas do “encontro com a pessoa de Jesus Cristo”. Uma Igreja mistagógica não é uma Igreja alienada, pois o ser humano foi criado por Deus e para Deus. Somente o fazer, o operar não realiza o seu ser. O “homem é capaz de Deus”, pois “o desejo de Deus está inscrito no coração humano, visto que o homem é criado por Deus e para Deus”[1]. O ser humano foi criado para receber a autocomunicação de Deus. É o ser ao qual Deus fala, entra em comunhão, estabelece uma relação de amor. Ele é este ser que pode responder com amor ao amor de Deus. Uma Igreja Mistagógica conduz o homem de hoje a beber no poço de Cristo, onde a experiência da fé se torna encontro, companhia nas lutas e decepções da vida do dia a dia, iluminando e dando sentido. Por isso, a mistagogia necessita estar no centro da vida do presbítero.

No Evangelho segundo Marcos, em 3, 13-19, onde se narra a constituição dos doze, surpreende-nos que a finalidade de toda esta cena seja para que os doze “estejam com Ele”. É aqui que se coloca o acento de toda a passagem. É este o centro da escolha, da vontade de Jesus. O discípulo nasce do coração do Senhor e foi constituído para estar com o Senhor. Isto na vida dos discípulos se realizava na vida com Jesus na Palestina do seu tempo, onde através da vivência com Ele, experimentavam, tocavam a Deus. Para nós, que estamos aqui, quase dois mil anos depois, esta experiência se dá através dos sacramentos, principalmente a Eucaristia, através da oração, da lectio divina, através do irmão pobre, necessitado, etc. O Senhor continua a se deixar encontrar, a se dar a nós. A condição para que tenhamos um ministério presbiteral fecundo está no “estar com Ele”, no viver uma relação profunda de amor com Ele”.

Reconheço que a nossa vida de presbíteros é pesada. Vivemos no mundo sem ser do mundo. A Presbiterorum Ordinis, 2 afirma esta dicotomia da vida do presbítero: “ … Não poderiam ser ministros de Cristo se não fossem testemunhas e dispensadores duma vida diferente da terrena, e nem poderiam servir os homens se permanecessem alheios à sua vida e às suas situações. O seu próprio ministério exige, por um título especial, que não se conformem a este mundo; mas exige também que vivam neste mundo entre os homens e, como bons pastores, conheçam as suas ovelhas e procurem trazer aquelas que não pertencem a este redil, para que também elas ouçam a voz de Cristo e haja um só rebanho e um só pastor”. É a realidade da vida do presbítero. O nosso povo, meus amados presbíteros, reconhece a vossa doação, o vosso desgastar a vida com alegria fazendo a diferença na vida de nossas paróquias e comunidades. O vosso ministério comporta uma vida de sacrifício. Obrigado pela vossa doação alegre, bonita e generosa. Obrigado, por estarem comigo, desgastando a vida com alegria.

O Evangelho que ouvimos (Lc 4, 16 – 21) nos ajuda neste nosso caminho mistagógico, pois nos conduz à sinagoga de Nazaré. Nazaré era a vila onde Jesus havia crescido, frequentando a sinagoga. Desde jovem, havia frequentado o serviço litúrgico sinagogal: cada sábado e cada dia festivo. Mas este retorno de Jesus a Nazaré há um significado especial, que o texto bíblico nos explicita. Somos convidados a contemplar esta cena, a irmos à sinagoga com Jesus e entrarmos no mistério daquele sábado na sinagoga de Nazaré, pois há um mistério muito especial neste dia, há o verdadeiro e solene início do ministério de Jesus. Jesus retorna à sua vila, mas conduzido pelo Espírito. O Evangelho enfatiza que voltou para a Galileia com a força do Espírito. Jesus tinha recebido o Espírito quando se submeteu ao rito penitencial de João Batista. São Lucas narra: “Ora, tendo recebido o batismo, no momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como uma pomba” (Lc 3, 21 – 22).  O Espírito conduz o filho de Deus. Na sinagoga de Nazaré, na sua vila, Jesus faz uma experiência de plenitude da sua missão: de Filho de Deus ungido e enviado. Esta leitura é mais do que uma simples proclamação do profeta Isaias, mas a consciência de ser enviado pelo Pai e Ungido pelo Espírito para a missão. Jesus não só proclama, mas vive esta realidade: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Aqui está a missão de Jesus, uma síntese do ministério de Jesus.  

É o Filho que conduzido pelo Espírito experimenta com evidência imediata a missão que o Pai lhe confiou. Jesus não só proclama, mas vive, pois, a proclamação da salvação prometida na palavra profética se cumpriu naquele momento.  A sua homilia será: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” (Lc 4, 21). É o hoje de Jesus, hoje da salvação e hoje da Igreja, porque é o hoje do Espírito, pois o mesmo Espírito que ungiu Jesus foi nos dado para que pudéssemos haurir da sua unção e sermos salvos. Nas palavras de Santo Irineu: “O Espírito de Deus desceu sobre Jesus e o ungiu, como tinha prometido aos profetas, a fim de que nós pudéssemos haurir da plenitude da sua unção e sermos salvos” (Adv. Haer. II, 9, 3). Jesus se apresenta como o verdadeiro mistagogo que não só anuncia a Palavra profética, mas a experimenta, a vive.

Aqui está o centro da mistagogia: experimentar, viver, ouvir. Se a partir desta experiência de Jesus em Nazaré analisarmos as Escrituras, vamos perceber que o que deu sentido e mudou a vida dos grandes personagens bíblicos foi o encontro, a experiência com o mistério santo de Deus, o ouvir a sua Palavra. Abraão partiu com toda esperança quando experimentou o Senhor; Moisés voltou ao Egito de onde tinha fugido e enfrentou o Faraó, quando experimentou o Senhor na Sarça ardente; os profetas Isaias, Jeremias, etc., todos se colocaram a caminho quando experimentaram o mistério Santo de Deus. Por isso, o grande exegeta Gerard von Rad afirma que “o AT não é um compêndio de pensamento, mas um livro histórico, o livro de uma história atuada pela Palavra de Deus, partindo da criação do mundo até a vinda do Filho do Homem”. Livro de história, porque é a história do envolvimento de Deus com pessoas concretas, mudando vidas, existência, falando “aos homens como amigos e conversa com eles para os convidar e admitir à sua comunhão” (Dei Verbum, 2). Maria colocou a sua liberdade à disposição de Deus quando se encontrou com o mistério de Deus, através do anjo. Paulo teve a vida transformada quando experimentou o mistério do Senhor no caminho de Damasco. Quem experimenta o mistério Santo de Deus tem a vida marcada, transformada por Ele. Deus não pode ser para nós ou para o homem de hoje somente uma ideia, mas mistério de amor que o ser humano experimenta numa liturgia bem celebrada, na meditação da palavra de Deus, numa adoração, num exercício espiritual, numa obra de caridade, na escuta da sua voz através da consciência (por isso a sua sacralidade), etc.

A condição para termos um ministério fecundo, sermos pastores segundo o coração de Cristo Bom Pastor é sermos homens mistagogos. Homens que foram feridos pelo amor de Deus e não conseguem viver mais sem o mistério de Deus. Homens que a vida se tornou profecia, pois testemunham o que Deus fez e continua a fazer. Homens que ganham tempo rezando, adorando o Senhor, Meditando a sua Palavra, etc.

São João Paulo II, na Novo Millenio Ineunte, 16 falando do testemunho de Cristo às gerações do novo milênio afirma:” …o nosso testemunho seria excessivamente pobre se não fôssemos primeiro contempladores do seu rosto”. Homens que como presença do Bom Pastor na vida de nossas paróquias e comunidades, como um pedagogo, conduz o nosso amado povo à experiência do mistério Santo de Deus. Experiência que muda a vida, sustenta nas provações e coloca a caminho.

Concluo com as Palavras do nosso já amado Papa Leão XIV, em carta ao clero de Madrid. Diz ele: “Vai-se delineando, assim, que tipo de sacerdotes Madri — e a Igreja inteira — necessita neste tempo. Certamente não homens definidos pela multiplicação de tarefas ou pela pressão dos resultados, mas homens configurados a Cristo, capazes de sustentar o seu ministério a partir de uma relação viva com Ele, nutrida pela Eucaristia e expressa numa caridade pastoral marcada pelo dom sincero de si. Não se trata de inventar novos modelos nem de redefinir a identidade que recebemos, mas de voltar a propor, com renovada intensidade, o sacerdócio no seu núcleo mais autêntico — ser alter Christus —, deixando que seja Ele quem configure a nossa vida, unifique o nosso coração e dê forma a um ministério vivido a partir da intimidade com Deus, da entrega fiel à Igreja e do serviço concreto às pessoas que nos foram confiadas”.

Daí a pouco renovaremos as nossas promessas sacerdotais, aquelas promessas que fizemos diante do bispo e que esta renovação simbólica indica o nosso sim renovado a Cristo e à sua Igreja. Abençoaremos o óleo dos catecúmenos e dos enfermos e consagraremos o Santo Crisma. Este rito sublinha o mistério da Igreja como sacramento global de Cristo, que santifica todas as realidades e situações de vida. Com o óleo dos catecúmenos serão ungidos os que lutam contra o espírito do mal mediante o caminho batismal. O óleo dos enfermos para aqueles que vivem a doença, “completando em sua carne o que falta à paixão de Cristo”. Com o Santo Crisma  a Igreja unge com o Espírito os batizados, os Crismados e consagra as mãos e cabeças dos ordinandos. Da Igreja mãe da Arquidiocese, a nossa Catedral, se espalha para toda a nossa amada Arquidiocese, através deste gesto, a riqueza e fecundidade do nosso ministério que será sentido e vivido através da celebração dos sacramentos nas nossas paróquias e comunidades.

Que o Espírito que conduziu Jesus, nos conduza hoje, pastores e rebanho, a sermos uma Igreja que não só fala de Deus, mas conduz o nosso amado povo a viver uma relação pessoal e comunitária com o mistério Santo de Deus, uma Igreja Mistagógica.

Amém.


[1] Catecismo da Igreja Católica, n. 27.

A transmissão completa da Santa Missa pode ser assistida no vídeo abaixo: