O Evangelho deste domingo (Mt 14,13-21), que narra a multiplicação dos pães, revela um dos traços mais belos do coração de Jesus: sua compaixão. Ao saber da morte de João Batista, Jesus procura um lugar retirado. Ele deseja o silêncio e o recolhimento diante da dor. No entanto, as multidões o seguem. Diante delas, Jesus não se fecha em seu sofrimento; ao contrário, “encheu-se de compaixão” e curou os enfermos. O amor é sempre maior do que o próprio sofrimento.
Ao cair da tarde, os discípulos sugerem uma solução aparentemente razoável: despedir a multidão para que cada um procure alimento. Mas Jesus os surpreende com uma ordem que continua ecoando na vida da Igreja: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. O Senhor Jesus transforma um problema em missão. Ele convida os discípulos a deixarem de lado a lógica da insuficiência e a abraçarem a lógica da fé, da confiança.
Também nós, muitas vezes, olhamos para a realidade e enxergamos apenas a escassez: poucos recursos, poucas vocações, pouco tempo, poucas forças. Como os discípulos, dizemos: “Temos apenas cinco pães e dois peixes”. Jesus não nos pede que tenhamos muito; apenas pede que coloquemos em suas mãos, com generosidade, aquilo de que somos possuidores. Nas mãos do Senhor o nosso pouco se transforma em dom para os outros.
Santo Agostinho recorda que “o milagre não consistiu apenas em multiplicar os pães, mas em ensinar aos homens a confiar naquele que tudo pode” (Sermão 130). Antes de repartir os pães, Jesus levanta os olhos ao céu e pronuncia a bênção. Todo dom verdadeiro nasce da comunhão com o Pai. A Eucaristia, antecipada nesse gesto, torna-se a fonte da qual a Igreja vive e com a qual alimenta os seus filhos e filhas. Ela realiza esse gesto em cada celebração Eucarística. Alimentados pela Eucaristia, aprendemos a repartir não apenas o pão material, mas também a esperança, o perdão e a vida nova em Cristo.
O Evangelho termina afirmando que todos comeram e ficaram satisfeitos, e ainda sobraram doze cestos. Doze relembra as doze tribos de Israel, remete aos doze discípulos. Doze cestos mostra o sentido eclesial desse gesto de Jesus, a prefiguração da Eucaristia, que é o alimento da Igreja. Mas doze mostra, também, a abundância do amor. Onde o egoísmo divide, a generosidade multiplica. Onde prevalece a indiferença, a caridade deve fazer florescer a fraternidade.
Vivemos tempos em que tantas pessoas experimentam diferentes formas de fome: fome de pão, de justiça, de sentido para a vida, de paz, de escuta e de Deus. Cristo continua olhando para a multidão com a mesma compaixão e continua dirigindo à sua Igreja o mesmo convite: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Cada comunidade cristã é chamada a tornar visível essa compaixão do Senhor por meio da evangelização, da solidariedade e da promoção da dignidade humana.
Peçamos a Deus a graça de colocar em suas mãos os nossos “cinco pães e dois peixes”: nossos talentos, nosso tempo, nossa oração e nossa disponibilidade para servir. O pouco oferecido com amor torna-se muito quando passa pelas mãos de Cristo. Assim, alimentados pela Eucaristia, sejamos também nós pão repartido para os irmãos, testemunhando ao mundo que somente Jesus é capaz de saciar plenamente a fome mais profunda do coração humano.