Papa reafirma posição da Santa Sé pela solução de dois Estados no Oriente Médio

Apelo feito durante o Angelus em Castel Gandolfo retoma uma posição defendida por sucessivos Pontífices e pela diplomacia da Santa Sé ao longo de décadas, em defesa de uma paz justa e duradoura entre israelenses e palestinos.

A defesa da solução de dois Estados para o conflito entre israelenses e palestinos voltou a ser destacada pelo Papa Leão XIV durante o Angelus do domingo, 16 de agosto, em Castel Gandolfo. O apelo do Pontífice se insere em uma longa trajetória da diplomacia da Santa Sé, que, ao longo de décadas, tem defendido o direito dos dois povos à existência, à segurança e à paz.

Ao recordar a situação no Oriente Médio e a escalada da violência, o Papa Leão XIV pediu à comunidade internacional que avance de forma concreta na busca por uma solução política para o conflito.

“Exorto com urgência a comunidade internacional a garantir que a Solução de dois Estados avance, em prol de uma paz justa e duradoura”, afirmou o Papa.

A posição defendida pelo Pontífice tem raízes anteriores à criação do Estado de Israel e foi sendo aprofundada pelos Papas ao longo dos últimos oitenta anos. Embora o contexto político da região tenha mudado profundamente, a Santa Sé manteve como horizonte a necessidade de assegurar os direitos e a segurança tanto do povo israelense quanto do povo palestino.

As primeiras manifestações pontifícias sobre a questão remontam ao pontificado de Pio XII. Em 1948, na encíclica In multiplicibus curis, o Papa pediu uma organização da situação na Terra Santa que garantisse a segurança e condições dignas de vida à população.

No ano seguinte, em Redemptoris Nostri Cruciatus, Pio XII voltou sua atenção especialmente para Jerusalém e para os Lugares Santos, defendendo a adoção de medidas que assegurassem à cidade uma condição jurídica adequada e a preservação de seu caráter religioso.

Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar a Terra Santa, em 1964. Em meio às crescentes tensões que posteriormente culminariam na Guerra dos Seis Dias, o Pontífice passou a destacar também a dimensão política da questão palestina.

Em uma mensagem dirigida ao secretário-geral das Nações Unidas, U Thant, Paulo VI defendeu esforços para que Jerusalém pudesse ser considerada uma cidade aberta e protegida, livre de operações militares e das consequências da guerra.

A preocupação com Jerusalém e com a população da região passou, assim, a integrar de maneira cada vez mais clara a atuação diplomática da Santa Sé.

Durante o pontificado de João Paulo II, a posição da Igreja ganhou contornos ainda mais definidos. O Papa passou a afirmar simultaneamente o direito de Israel à segurança e o direito do povo palestino a uma pátria.

Na carta apostólica Redemptionis anno, de 1984, João Paulo II destacou a necessidade de garantir ao povo judeu que vive em Israel “a desejada segurança e a justa tranquilidade”, reconhecendo-as como direitos de toda nação.

Na mesma ocasião, afirmou que o povo palestino, “cujas raízes históricas estão nessa terra”, tinha o direito de redescobrir uma pátria e viver em paz com os demais povos da região.

Essa posição foi reafirmada durante sua peregrinação à Terra Santa, em 2000, quando o Pontífice voltou a defender a convivência pacífica entre os povos.

Em 2009, Bento XVI visitou o Oriente Médio e reiterou a necessidade de encontrar uma solução política capaz de responder às aspirações legítimas de israelenses e palestinos.

Durante a viagem, o Papa afirmou que a Santa Sé apoiava “o direito do seu povo a uma Palestina soberana na terra dos vossos antepassados, segura e em paz com os seus vizinhos, dentro de confins internacionalmente reconhecidos”.

Bento XVI também insistiu na importância de preservar a esperança e buscar um caminho que levasse em consideração os direitos de ambos os povos.

Com o Papa Francisco, a defesa da solução de dois Estados ganhou novos gestos diplomáticos e pastorais. Em 2014, durante sua viagem à Terra Santa, Francisco promoveu um momento de oração pela paz nos Jardins do Vaticano com o então presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas.

Na ocasião, o Pontífice pediu “a coragem da generosidade e da criatividade ao serviço do bem, a coragem da paz”, fundamentada no reconhecimento do direito de “dois Estados de existir e gozar de paz e segurança dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas”.

No ano seguinte, em 2015, a Santa Sé assinou um acordo que reconheceu oficialmente o Estado da Palestina, fortalecendo também no âmbito diplomático a posição defendida pela Igreja.

Ao longo dos anos seguintes, Francisco continuou a defender uma solução política para o conflito, enquanto representantes da Santa Sé, incluindo o então Secretário de Estado, Cardeal Pietro Parolin, reafirmavam a necessidade de buscar uma solução que contemplasse os direitos dos dois povos.

Ao assumir o pontificado, o Papa Leão XIV deu continuidade a essa posição histórica. Em declarações durante sua viagem apostólica à Turquia e ao Líbano, o Papa recordou que a Santa Sé apoia há anos a solução de dois Estados e a considera o caminho capaz de responder ao conflito.

Posteriormente, em audiência com o Corpo Diplomático, em 9 de janeiro de 2026, Leão XIV afirmou que “a solução de dois Estados continua a ser a perspectiva institucional que responde às legítimas aspirações de ambos os povos”.

Agora, diante da continuidade da guerra e da grave situação humanitária na região, o Pontífice voltou a pedir uma ação mais efetiva da comunidade internacional.

A trajetória dos sucessivos Pontífices mostra que, para a Santa Sé, a defesa da solução de dois Estados não se limita às circunstâncias de um determinado momento histórico. Trata-se de uma posição diplomática construída ao longo de décadas, associada ao reconhecimento dos direitos, da dignidade, da segurança e da necessidade de paz para israelenses e palestinos.

O novo apelo de Leão XIV reforça, assim, a continuidade dessa linha diplomática e a urgência de encontrar uma solução capaz de conduzir a uma paz justa e duradoura no Oriente Médio.

Com foto e informações do Vatican News.