Santa Sé rejeita “lógica do medo” da retórica nuclear e pede proteção às vítimas

Em declarações na ONU, Monsenhor Robert Murphy reforça o compromisso da Santa Sé com o desarmamento e defende uma abordagem de segurança centrada na dignidade humana e no bem comum.

A Santa Sé voltou a alertar para os riscos da crescente retórica nuclear e para a chamada “lógica do medo” alimentada pelo aumento das tensões militares. Em duas declarações apresentadas na Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira (1º), o Monsenhor Robert Murphy, conselheiro da Missão de Observação Permanente da Santa Sé junto à ONU, pediu ações concretas para conter a ameaça nuclear e proteger as populações afetadas pelos testes.

As intervenções ocorreram durante a reunião plenária de alto nível em comemoração ao Dia Internacional contra os Testes Nucleares, celebrado em 29 de agosto, e em um encontro internacional dedicado à assistência às vítimas e à remediação ambiental.

Para a Santa Sé, a intensificação de discursos e ações relacionadas ao uso de armas nucleares contribui para uma “lógica do medo”. Por trás de estratégias militares, arsenais e disputas por vantagem geopolítica, recordou Monsenhor Murphy, existem pessoas cuja dignidade não pode ser colocada a serviço de interesses políticos ou militares.

O retorno da dissuasão nuclear

Ao recordar o Dia Internacional contra os Testes Nucleares, o representante da Santa Sé destacou o “legado devastador” deixado pelos testes realizados ao longo da história. Segundo ele, essa experiência deveria ter fortalecido a convicção de que a paz não pode ser garantida pela produção de armas cada vez mais destrutivas.

No entanto, a realidade atual aponta para um cenário diferente, marcado pelo retorno da dissuasão nuclear e por uma retórica cada vez mais agressiva em torno dessas armas. Para a Santa Sé, essa tendência coloca em risco normas internacionais construídas ao longo de décadas.

Monsenhor Murphy também recordou a reflexão do Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas, na qual o Pontífice chama atenção para a ameaça representada por armas capazes de provocar a destruição em larga escala e destaca a necessidade de abandonar progressivamente a construção de novos arsenais nucleares.

Aplicar os tratados existentes

Diante desse cenário, a Santa Sé renovou seu apelo pela implementação do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) e manifestou seu reconhecimento ao trabalho da Comissão Preparatória da Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBTO).

Segundo a declaração, a cooperação internacional demonstra que ciência e tecnologia podem ser utilizadas não para ampliar a capacidade de destruição, mas para promover transparência, confiança entre as nações e defesa do bem comum.

A Santa Sé reafirmou ainda seu apoio ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, reiterando o desejo de contribuir para a construção de um mundo livre dessas armas e para uma paz justa e duradoura.

Combater uma “cultura do poder”

Na segunda intervenção, dedicada à assistência às vítimas e à recuperação ambiental, Monsenhor Murphy retomou outra preocupação apresentada por Leão XIV: o crescimento de uma “cultura do poder”.

De acordo com o representante da Santa Sé, essa mentalidade ocorre quando a disponibilidade de recursos e a capacidade de dominar passam a determinar as prioridades e os critérios das decisões políticas.

Essa cultura, alertou, é fortalecida pela normalização da guerra, pela busca de um poder militar cada vez maior, pelo enfraquecimento do multilateralismo e por um “falso realismo” que apresenta os conflitos e a corrida armamentista como se fossem inevitáveis.

No campo nuclear, essa realidade se torna ainda mais preocupante diante da modernização e expansão dos arsenais e da crescente integração de novas tecnologias aos sistemas de armas.

Colocar as vítimas no centro

Para a Santa Sé, qualquer discussão sobre armas nucleares deve levar em consideração as pessoas que sofreram — e continuam sofrendo — suas consequências.

“Por trás de doutrinas, arsenais e considerações de vantagem estratégica, existem pessoas cuja dignidade intrínseca, dada por Deus, jamais poderá ser subordinada a interesses militares ou políticos”, afirmou Monsenhor Murphy.

Nesse sentido, destacou a importância de adotar a chamada “perspectiva das vítimas”, defendida pelo Papa Leão XIV. Isso implica oferecer assistência médica e psicológica às pessoas afetadas pela radiação e pelas consequências dos testes nucleares, com atenção especial às comunidades que suportaram impactos desproporcionais, entre elas diversos povos indígenas.

Cuidar das pessoas e da criação

A Santa Sé também ressaltou que a assistência às vítimas precisa estar ligada à recuperação e à proteção do meio ambiente.

A contaminação do solo, da água e dos ecossistemas provocada pela atividade nuclear pode comprometer a saúde, os meios de subsistência e as condições de vida das comunidades por longos períodos, criando também responsabilidades para as gerações futuras.

Nesse contexto, o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares e o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares são apresentados como instrumentos importantes para avançar rumo a um mundo livre de armas nucleares.

A proposta defendida pela Santa Sé é de uma concepção de segurança centrada na pessoa humana, baseada no diálogo, na confiança entre os povos e na busca do bem comum.

Aprender com o passado para construir o futuro

Ao concluir sua intervenção, Monsenhor Murphy ressaltou que as vítimas dos testes e das armas nucleares não pedem apenas que sejam reconhecidos os danos sofridos no passado. Seus testemunhos também devem ajudar a orientar as decisões tomadas no presente e no futuro.

“As pessoas afetadas por armas nucleares nos pedem não apenas para enfrentar as consequências dos danos sofridos no passado, mas também para deixar que seus testemunhos orientem nossas escolhas para o futuro”, afirmou.

Segundo ele, ouvir essas vítimas é um caminho para superar uma cultura baseada no poder e construir uma concepção de segurança que coloque a pessoa humana no centro, proteja a criação e esteja verdadeiramente a serviço do bem comum.

Com foto e informações do Vatican News.