Cuidar do Cerrado é cuidar da nossa Casa Comum

Francisco nos ensinou que é preciso cuidar da nossa Casa Comum, e o melhor caminho é começar pelo lugar onde estamos, no Cerrado – segundo maior bioma brasileiro, que ocupa cerca de 23% do território nacional e é considerado a savana mais biodiversa do mundo. É também conhecido como “berço das águas”, por abrigar nascentes e áreas de recarga d’água que contribuem para a formação de importantes bacias hidrográficas brasileiras.

Brasília está totalmente inserida no Cerrado. Estamos no coração de uma região que desempenha papel estratégico para a bioeconomia brasileira, a conservação da biodiversidade e a segurança hídrica de diferentes territórios. E o Cerrado tem um dia nacional, 11 de setembro, não somente para homenagear a beleza dessa Criação de Deus, mas também para nos lembrar que o bioma está ameaçado e precisamos conservá-lo.

As estimativas científicas são de que, em 2024, apenas 51,2% do Cerrado permanecia coberto por vegetação nativa, enquanto 47,9% do bioma já estava ocupado por outros tipos de uso, como áreas de plantações, pasto e cidades. Isso significa que, em quatro décadas, o Cerrado perdeu ao menos 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa. Ou seja: quase metade do Cerrado já foi transformada pela ação humana.

E a perda dos ecossistemas naturais tem um custo ambiental, humano e também espiritual: degradar a Criação fere nossa relação com ela. A perda de vegetação do Cerrado afeta a biodiversidade, o solo e os ciclos da água, comprometendo nascentes e áreas de recarga. Contribui também para impactos que ultrapassam os limites do próprio bioma, como as emissões de gases de efeito estufa, que aquecem o planeta e agravam a crise climática que vivemos.

Outra ameaça ao Cerrado são os incêndios, que prejudicam a conservação da natureza e a nossa saúde. O Cerrado possui uma relação ecológica histórica com o fogo. Muitas de suas plantas e alguns animais apresentam adaptações ao fogo, e determinados ambientes podem depender de um regime adequado de fogo para a manutenção de seus processos ecológicos. No entanto, quando o fogo ocorre em intervalos muito frequentes, muito mais do que ocorreria naturalmente, os impactos podem ser enormes para a biodiversidade, para o solo, para a água e para o equilíbrio dos ecossistemas. E para nós.

A fumaça dos incêndios e das queimadas carrega partículas finas e outros poluentes que podem alcançar áreas muito além do local onde o fogo começou. Esses poluentes agravam doenças respiratórias e cardiovasculares e aumentam a exposição da população a riscos à saúde.

Quando falamos em proteger o Cerrado, não estamos defendendo apenas árvores, animais ou paisagens – a ecologia é integral, novamente citando Francisco. Estamos falando de água, ar, saúde, alimento, qualidade de vida e paz. Estamos falando de nós mesmos. Porque nós não estamos separados da natureza. Nós fazemos parte dela.

Essa compreensão está no coração da Ecologia Integral apresentada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’: o cuidado concreto com a nossa Casa Comum é também o cuidado com nós mesmos e com a Criação de Deus.

Neste Dia do Cerrado, convidamos os fiéis a olhar para o Cerrado que está perto de cada um. Observe uma árvore, uma nascente, um parque, um campo, a fauna. Perceba a água que chega à sua casa. Repare na qualidade do ar. E pergunte: o que eu posso fazer para cuidar deste lugar que também é minha casa? Não conseguimos, sozinhos, cuidar do planeta inteiro. Mas podemos começar cuidando do nosso quintal. E nosso quintal é Cerrado.