Cardeal Parolin aos jovens: “Se quiser a paz, construa a paz, não a guerra”

Secretário de Estado do Vaticano destaca a importância do diálogo entre as nações, da cooperação internacional e do protagonismo juvenil diante dos conflitos, da corrida armamentista e dos desafios da Inteligência Artificial.

O secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, exortou os jovens a assumirem um papel ativo na construção da paz, por meio do diálogo, de relações positivas entre os povos e da participação na vida pública. Em encontro com representantes do grupo Jovens Universitários no Parlamento (GUP), na Pontifícia Universidade Gregoriana, o Cardeal refletiu sobre os principais desafios internacionais e reforçou que a segurança não pode ser alcançada pela fabricação de armas ou pela criação de inimigos.

“A segurança só se constrói se você tiver boas relações com todos. Não é criando inimigos e fabricando armas que se alcança a segurança. Se quiser a paz, construa a paz. Não a guerra”, afirmou Parolin.

O diálogo ocorreu ao final de um congresso internacional dedicado ao legado de João Paulo I, promovido pela Fundação Vaticana João Paulo I, em colaboração com a Pontifícia Universidade Gregoriana e o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Entre os temas abordados estiveram os conflitos internacionais, a crise do multilateralismo, a regulamentação da Inteligência Artificial e a contribuição das religiões para a paz.

Ao abordar os conflitos no Oriente Médio, o Cardeal reafirmou o apoio da Santa Sé à solução de dois Estados, Israel e Palestina, como caminho para garantir o direito à autodeterminação dos povos e favorecer uma convivência pacífica. Segundo ele, uma paz duradoura também deve assegurar a liberdade religiosa e o acesso aos lugares sagrados.

Parolin chamou a atenção para a crise de confiança entre os países e para a dificuldade de responsabilizar os autores de graves violações dos direitos humanos e crimes contra a humanidade. Para o secretário de Estado, a eficácia das organizações internacionais depende da disposição dos governos em respeitar as normas comuns e colaborar na busca por soluções. “O problema do multilateralismo é um problema de confiança. Se faltar confiança, não há como trabalhar juntos”, ressaltou.

O Cardeal alertou ainda para os riscos de uma ordem internacional na qual cada país priorize exclusivamente os próprios interesses, cenário que pode agravar os conflitos e alimentar o que o Papa Francisco chamava de “terceira guerra mundial em pedaços”.

Inteligência Artificial a serviço da humanidade

Outro tema destacado foi o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Parolin apontou três preocupações principais: os impactos das novas tecnologias sobre o emprego, sua utilização no setor militar e a desigualdade de acesso entre os países.

Diante desse cenário, defendeu a cooperação internacional para estabelecer regras que orientem o uso da IA, especialmente em aplicações militares, e impeçam que o avanço tecnológico amplie as desigualdades entre as nações.

Para o secretário de Estado, sem uma colaboração sincera entre os países, a tecnologia corre o risco de se tornar mais um instrumento de competição e confronto. Por isso, seu desenvolvimento deve ter como prioridade a dignidade humana e o bem comum.

A fé como instrumento de reconciliação

O Cardeal também destacou o papel do diálogo inter-religioso na promoção da paz e condenou a utilização da fé para justificar atos de violência. “O nome de Deus não pode ser invocado para promover a violência”, afirmou, incentivando os líderes religiosos a denunciarem com coragem os abusos cometidos inclusive por pessoas de suas próprias comunidades.

Segundo Parolin, a colaboração entre diferentes tradições religiosas pode contribuir para superar divisões e abrir caminhos de diálogo em um cenário internacional marcado por tensões.

O encontro também abordou a formação para a participação política. Nesse sentido, o Cardeal incentivou os jovens a se prepararem para assumir responsabilidades na sociedade, inspirados nos princípios da Doutrina Social da Igreja. “Eles deveriam sentir uma responsabilidade e uma missão especial: formar-se para serem protagonistas, levando adiante os princípios da doutrina social da Igreja”, afirmou.

Recursos para o desenvolvimento e não apenas para as armas

Ao refletir sobre a corrida armamentista, Parolin recordou os apelos históricos da Santa Sé para que parte dos recursos destinados à produção de armas seja direcionada ao desenvolvimento humano.

O Cardeal ressaltou que as necessidades das populações, como alimentação, saúde, educação e condições dignas de vida, não podem ser deixadas em segundo plano diante do aumento dos gastos militares.

Embora reconheça as preocupações com a segurança internacional e a defesa dos países, defendeu que a busca por proteção não justifique o abandono das populações mais vulneráveis. “Devemos ter a convicção de que estamos todos no mesmo barco. As soluções para os conflitos beneficiam a todos”, declarou.

A mensagem central de sua reflexão foi a de que paz e segurança não são objetivos opostos. Pelo contrário, a paz é construída por meio da confiança, da cooperação e de relações capazes de promover o desenvolvimento dos povos.

O legado de João Paulo I

O congresso que motivou o encontro com os jovens teve como referência o compromisso de João Paulo I com a promoção da paz. Os participantes refletiram sobre a atuação diplomática da Santa Sé durante seu breve pontificado, além das relações entre religião, poder e conflitos internacionais.

Também foram abordados acontecimentos históricos, como os acordos de Camp David, de 1978, e as relações entre a Igreja Católica e os regimes comunistas da Europa Oriental.

Ao retomar esse legado, Parolin destacou a atualidade da missão diplomática da Igreja: trabalhar pela construção de uma paz possível, sustentada pelo diálogo, pela confiança mútua e pela promoção do desenvolvimento humano.

Aos jovens, o secretário de Estado deixou o apelo para que não permaneçam espectadores diante dos desafios do mundo, mas se preparem para contribuir ativamente com a transformação da sociedade, promovendo a fraternidade e a paz.

Com foto e informações do Vatican News.