Em muitas casas, quando se prepara um fogo para aquecer ou cozinhar, sabe-se que existe uma grande diferença entre o carvão e a brasa. O carvão, por si só, permanece escuro, frio e aparentemente sem vida. Somente quando recebe uma chama e é alimentado pelo ar transforma-se em brasa, irradiando calor, luz e energia. A brasa, porém, também possui sua fragilidade porque, se for abandonada, sem oxigênio e isolada das demais, pouco a pouco perde sua força até voltar a ser apenas um pedaço de carvão.
Talvez esta seja uma boa metáfora para refletirmos sobre a política e sobre a participação cidadã, especialmente neste tempo em que o Brasil se prepara para o segundo turno das eleições. Em nossa cultura política, muitas vezes os cidadãos parecem lembrar-se da política apenas a cada quatro anos. Durante o período eleitoral, surgem debates, promessas, discussões e mobilizações. Depois da votação, entretanto, o interesse diminui e a política volta a ser vista como algo distante, pertencente quase exclusivamente aos governantes.
Quando isso acontece, a política transforma-se em carvão: uma realidade que permanece apagada durante grande parte do tempo, esperando apenas o momento da próxima eleição para receber alguma faísca de interesse popular.
Entretanto, uma democracia viva necessita de brasas, não apenas de carvão. Precisa de cidadãos conscientes, atentos e participantes durante todos os dias do ano. A política não começa nem termina na urna eletrônica. Ela nasce também nas relações cotidianas, nas decisões da comunidade, na defesa da dignidade humana, na participação em conselhos, associações, movimentos sociais, pastorais e em todas as iniciativas que procuram promover a justiça, a fraternidade e o bem comum.
É nesse horizonte que a Comissão Laudato Si’, da Arquidiocese de Brasília, deseja contribuir para uma compreensão mais ampla da participação cidadã. Inspirada na proposta de uma ecologia integral, a política não pode ser reduzida à disputa por espaços de poder. Ela diz respeito à maneira como organizamos a vida em sociedade, como cuidamos uns dos outros e como assumimos nossa responsabilidade diante da Casa Comum. Cuidar da política é, de certa maneira, cuidar das relações humanas, da sociedade e da própria criação. Por isso, a metáfora da brasa nos oferece importantes lições.
A brasa precisa de ar
A primeira lição é que a brasa precisa de ar. Sem oxigênio, o fogo desaparece. Também a vida política necessita de inspiração permanente. Essa inspiração pode nascer dos valores éticos, da fé, do Evangelho, da Doutrina Social da Igreja e da consciência de que toda autoridade encontra seu sentido no serviço ao bem comum.
Quando a política perde o contato com esses valores, corre o risco de transformar-se apenas em disputa pelo poder, defesa de interesses particulares ou busca de projetos pessoais. Quando, ao contrário, permanece aberta a uma dimensão ética e espiritual, pode tornar-se espaço de cuidado, diálogo, e construção coletiva.
O ar que mantém viva a brasa pode ser compreendida, para nós cristãos, como o sopro do Espírito. É esse sopro que desperta em cada pessoa a disposição para participar, cuidar, dialogar e assumir responsabilidades. É ele que pode transformar a indiferença em compromisso e o individualismo em fraternidade.
Nesse sentido, a participação cidadã não deveria ser compreendida apenas como uma obrigação eleitoral. Ela pode ser vivida como uma verdadeira vocação para cuidar da Casa Comum. Afinal, não existe ecologia integral sem responsabilidade social, assim como não existe cuidado com a criação sem cuidado com as pessoas que habitam essa mesma casa.
As brasas precisam permanecer juntas
A segunda lição é que uma brasa isolada dificilmente permanece acesa por muito tempo. Basta separá-la das demais para que rapidamente perca sua força. Quando várias brasas permanecem juntas, conservam o calor umas das outras e mantêm vivo o fogo.
Assim acontece também na vida política e comunitária. A participação cidadã nunca é uma tarefa exclusivamente individual. Ela cresce na comunidade, na escuta, no diálogo, na cooperação e na capacidade de construir caminhos comuns.
Tal perspectiva é particularmente importante em uma sociedade marcada por polarizações e conflitos. Muitas vezes, as diferenças deixam de ser compreendidas como parte natural da convivência democrática e passam a alimentar distâncias, agressividades e rupturas. O outro deixa de ser visto como alguém com quem podemos dialogar e passa a ser tratado como adversário absoluto.
A metáfora da brasa nos convida justamente ao contrário: aproximar-nos para produzir calor, não para espalhar incêndios. O calor da fraternidade aproxima; o fogo do ódio destrói. O calor ilumina e aquece; o incêndio consome e deixa cinzas. Uma democracia saudável necessita muito mais de brasas que aquecem do que de incêndios que destroem.
Por isso, cuidar da política significa também cuidar das relações. Significa criar espaços de encontro, partilha e solidariedade, reconhecendo que nenhuma pessoa e nenhuma comunidade possuem sozinhas todas as respostas para os desafios que enfrentamos.
A brasa existe para servir
A terceira lição talvez seja a mais importante: a brasa existe para servir. Ela ilumina, aquece, prepara o alimento e torna possível a convivência. Sua finalidade não é chamar atenção para si mesma, mas oferecer vida aos outros.
Também a política encontra sua razão de existir no serviço. O poder perde seu sentido quando deixa de promover a dignidade das pessoas, especialmente daqueles que vivem em situações de maior vulnerabilidade e daqueles cuja voz muitas vezes encontra menos espaço na sociedade.
A política, compreendida nessa perspectiva, não é simplesmente uma técnica para conquistar e administrar o poder. É uma dimensão da vida humana que precisa estar orientada para o cuidado, a justiça, a ética e o bem comum.
Essa compreensão encontra profunda sintonia com a proposta da ecologia integral. A Casa Comum não é apenas o espaço físico onde vivemos. É também a rede de relações que sustenta nossa existência. Somos parte de uma comunidade humana e, ao mesmo tempo, parte de uma comunidade maior, constituída por toda a criação.
Por isso, não podemos cuidar da natureza sem cuidar das pessoas, nem cuidar das pessoas sem nos preocupar com as condições ambientais que tornam possível uma vida digna. A crise ecológica e a crise social estão profundamente relacionadas. O cuidado precisa ser integral.
Talvez possamos concluir retomando nossa metáfora inicial. O Brasil não precisa apenas de um grande fogo durante as campanhas eleitorais, seguido de longos períodos de cinzas e indiferença. Necessita de milhares de pequenas brasas espalhadas por todos os cantos: cidadãos conscientes, comunidades organizadas, famílias comprometidas, jovens participativos e pessoas dispostas a fazer da fraternidade um modo permanente de viver.
A inspiração da Comissão Laudato Si’, da Arquidiocese de Brasília, pode ser compreendida justamente como um convite a manter acesa essa chama do cuidado. Cuidar da Casa Comum significa cuidar da vida em todas as suas dimensões: cuidar das pessoas, das relações, das comunidades, da sociedade e da criação. Uma pequena brasa parece pouca coisa. Mas, quando permanece acesa e encontra outras brasas, pode alimentar um fogo capaz de aquecer uma casa inteira.
Que o sopro do Espírito mantenha viva em cada um de nós essa brasa interior. Que saibamos permanecer próximos de outras brasas, fortalecendo-nos mutuamente na esperança. Que nossa participação política não seja apenas episódica, mas uma expressão cotidiana do compromisso com a justiça, a fraternidade e o bem comum.
E que a Comissão Laudato Si’, como espaço de reflexão, diálogo e compromisso com a Casa Comum, possa continuar ajudando a despertar essas pequenas brasas de responsabilidade cidadã. Porque a transformação não depende apenas de grandes fogueiras, mas começa de forma silenciosa, por meio de pequenas brasas que se recusam a apagar.
Que permaneçamos, portanto, como brasas vivas: aquecendo as relações humanas, iluminando os caminhos da sociedade e cuidando, juntos, da nossa Casa Comum.
Luiz Síveres
Comissão Laudato Sí