Este primeiro domingo da Quaresma coloca diante de nós a realidade da tentação de nossos primeiros pais (Gn 2, 7-9, 3, 1-7) e da tentação de Cristo (Mt 4, 1-11). O livro do Gênesis narra a beleza da criação, a amizade do ser humano com Deus e o drama do pecado. O ser humano foi criado para a amizade com Deus. O livro do Gênesis descreve a ação do tentador, que é descrita com a imagem da serpente. O texto narra toda uma trama psicológica de envolvimento dos sentidos e de convencimento da razão: «… no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como Deus conhecendo o bem e o mal» (Gn 3, 5). O tentador é descrito com o símbolo da serpente, um ser astuto, mas que, no Oriente antigo, era venerada como símbolo da fertilidade e da vida. Nesta trama, o tentador promete à mulher conhecimento pleno. Conhecer tudo é prerrogativa de Deus, é ser como Deus. O fruto é atraente aos olhos e desejável para se alcançar conhecimento. Então vem o pecado: «E colheu um fruto, comeu e deu também ao marido, que estava com ela, e ele comeu» (Gn 3, 6). É a trama da tentação que conduz ao pecado. Mas o pecado não conduz a ser como Deus, mas ao contrário, conduz à vergonha, à fuga de Deus.
Também o Evangelho narra a tentação de Jesus. Jesus, após receber o Espírito, é conduzido pelo mesmo Espírito para o deserto. Jesus jejua durante quarenta dias e quarenta noites. A imagem do deserto relembra o povo de Deus que faz a experiência do deserto, é tentado e sucumbe à tentação. Jesus é solidário com o seu povo. Se nossos primeiros pais sucumbiram diante da tentação, se Israel sucumbiu diante da tentação, Jesus vence o tentador. Ele é tentado na Sua identidade, naquilo que Ele é: Filho de Deus. «Se és Filho de Deus …» – expressão que a abominável criatura repete três vezes e que revela a identidade mais profunda de Jesus e a Sua relação com o Pai: a do Filho obediente. Jesus é tentado a assumir um messianismo fácil, a usar os Seus poderes messiânicos em benefício próprio: transformar pedras em pão. Tentado ao messianismo espetacular, é desafiado a lançar-se da parte mais alta do templo. Por fim, é tentado ao poder e à idolatria adorando aquele que não é Deus, mas o inimigo de Deus. Jesus vence as tentações com as Escrituras. Jesus não dialoga com a terrível criatura, mas cita as Escrituras. Com o tentador não se dialoga. Jesus é o novo Adão fiel ao Pai, que assume o messianismo do Servo, ao invés do caminho fácil indicado pelo tentador.
A Sua vitória no deserto antecipa a vitória da cruz, onde, tentado ao estremo das Suas forças, mostra ser o Filho obediente que, em tudo, realiza a vontade do Pai. «Todo pecado tem algo daquela mais radical tentação em si: querer possuir uma felicidade que não se responsabiliza nem diante de Deus, nem diante dos outros». (Dom Karl Iosef Romer, Minha Alegria esteja em vós, 51).
Que este tempo quaresmal nos ajude a fortificar nossos corações na luta contra as tentações na vida do dia a dia e a vivermos fiéis a Jesus e à Sua Palavra.