Com mais de seis décadas de história, a Campanha da Fraternidade (CF) consolidou-se como uma das mais importantes iniciativas evangelizadoras e sociais da Igreja Católica no Brasil. Vivenciada anualmente durante o tempo da Quaresma, a Campanha mobiliza comunidades de todo o país em um caminho que une oração, reflexão e ações concretas em favor dos mais pobres e vulneráveis. Em 2026, a CF volta seu olhar para um desafio estrutural da sociedade brasileira: o direito à moradia digna.
Origem e expansão da Campanha da Fraternidade
A Campanha da Fraternidade teve início na Quaresma de 1962, na cidade de Nísia Floresta (RN), por iniciativa de dom Eugênio de Araújo Sales. Desde sua origem, foi concebida como uma mobilização ampla e com tempo determinado, associada à arrecadação de recursos e ao compromisso efetivo com a promoção da fraternidade cristã, especialmente por meio da solidariedade aos mais necessitados.
No ano seguinte, a experiência foi estendida às três dioceses do Rio Grande do Norte e a outras 13 dioceses do Nordeste, alcançando significativa adesão, com destaque para a Arquidiocese de Fortaleza (CE), impulsionada pelo trabalho pastoral de dom José de Medeiros Delgado.
Ainda em 1963, durante o Concílio Vaticano II, os bispos do Brasil decidiram assumir a Campanha da Fraternidade como uma ação nacional. A decisão foi comunicada por dom Helder Camara, então secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Assim, a partir de 1964, a CF passou a ser realizada em todo o território nacional, sob a coordenação da CNBB e da Cáritas Brasileira, tornando-se expressão concreta de comunhão, conversão e partilha em todas as regiões do país.
Fé cristã e compromisso social
A fraternidade é o eixo permanente da Campanha da Fraternidade. A cada ano, um tema específico é escolhido para iluminar realidades concretas em que essa fraternidade se encontra fragilizada ou negada, convidando à conversão pessoal e à transformação das estruturas sociais.
Com o passar dos anos, a CF adquiriu um caráter formativo e participativo, contribuindo para a construção da consciência cristã e cidadã. Além da reflexão, mantém o chamado “gesto concreto”, expresso na Coleta Nacional da Solidariedade. Do total arrecadado, 60% permanecem nas dioceses, por meio dos Fundos Diocesanos ou Arquidiocesanos de Solidariedade, destinados a projetos locais, enquanto 40% compõem o Fundo Nacional de Solidariedade, que apoia iniciativas sociais em diversas regiões do Brasil. Assim, fé e ação caminham juntas, fortalecendo a dimensão sociocaritativa da missão da Igreja.
CF 2026: Fraternidade e Moradia
Anualmente, os bispos do Conselho Episcopal Pastoral da CNBB (CONSEP), acolhendo sugestões vindas dos regionais, organismos do Povo de Deus, Ordens e Congregações Religiosas e fiéis leigos e leigas, definem o tema e o lema da Campanha da Fraternidade, com o objetivo de chamar a atenção para situações que exigem conversão e compromisso em favor do bem comum.
Para 2026, atendendo à sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas, foi escolhido o tema “Fraternidade e Moradia”, acompanhado do lema bíblico “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A proposta convida os cristãos a refletirem sobre a realidade habitacional do país. Embora a moradia digna seja um direito assegurado pela Constituição Federal, milhões de brasileiros ainda vivem sem casa ou em condições precárias.
Atualmente, estima-se que 6,2 milhões de famílias não tenham acesso a uma moradia adequada, enquanto cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Campanha da Fraternidade, a moradia digna é a porta de entrada para a garantia de outros direitos fundamentais, como segurança, saúde, educação e dignidade humana. A CF 2026 pretende estimular comunidades, poder público e sociedade civil a buscar soluções concretas para o enfrentamento do déficit habitacional e o fortalecimento das políticas públicas de habitação.
“É bom que todos nos perguntemos: por que estão sem casa estes nossos irmãos? Por que não têm um teto?”, provoca a reflexão proposta pela Campanha.
A moradia na história da CF
Esta não é a primeira vez que a Igreja no Brasil destaca a questão da moradia. Em 1993, a Campanha da Fraternidade trouxe como tema “Moradia”, com o lema “Onde moras?” (Jo 1,39). Naquele contexto, a CF denunciou a profunda desigualdade urbana e o contraste entre a chamada “cidade legal”, planejada e estruturada, e a “cidade irregular”, marcada por favelas, cortiços, ocupações e moradias precárias.
A reflexão apontou problemas como a especulação imobiliária, a má distribuição do solo urbano, a ausência de saneamento básico e de investimentos públicos, além do crescimento de moradias em áreas de risco e da histórica exclusão habitacional das populações mais pobres. Entre as propostas apresentadas estavam a regularização de áreas ocupadas, a construção de moradias populares, subsídios habitacionais, investimentos em infraestrutura urbana e o fortalecimento das associações comunitárias e da Pastoral da Moradia.
A edição de 1993 reafirmou o compromisso evangélico da Igreja com os pobres e defendeu o acesso à moradia como condição essencial para a dignidade humana, a vida familiar e o exercício pleno da cidadania.
Uma fé que se traduz em ação
Ao retomar a temática da moradia em 2026, a Campanha da Fraternidade reafirma sua missão histórica de transformar a vivência espiritual da Quaresma em compromisso concreto com a justiça social. Mais do que uma iniciativa anual, a CF permanece como um convite permanente à conversão do coração e das estruturas, para que a fraternidade se torne realidade na vida do povo brasileiro.
Com imagem e informações da CNBB.