Amados irmãos e irmãs,
Nos encontramos nesta Esplanada como discípulos e discipulas de Jesus Cristo celebrando Nossa Mãe e Padroeira, Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Aos seus pés, colocamos nossas famílias, nossas comunidades e nosso amado povo. Trazemos também os desafios deste nosso tempo marcado por divisões, palavras agressivas e dificuldades de diálogo. Colocamos diante dela a nossa falta de vinho. Também nós, hoje, lhe imploramos humildemente, ó Mãe: não temos o vinho do amor, do diálogo e da unidade. Estamos nos afastando da vontade do teu Filho Jesus.
A Palavra de Deus, que ouvimos, nos apresenta três imagens que iluminam esta celebração: uma mulher que intercede pela vida de seu povo; uma mulher ameaçada pelo mal, mas amparada por Deus; e uma mulher que percebe a falta de vinho na festa de casamento e implora ao seu Filho: “Eles não têm mais vinho”.
Na primeira leitura, Ester se apresenta diante do rei: é a mulher que intercede pelo seu povo. Sua posição poderia permitir-lhe pensar apenas na própria segurança. Entretanto, ela assume o risco de interceder por um povo ameaçado. Seu pedido é profundamente humano: que sua vida seja preservada e que seu povo seja salvo. A rainha Ester, no seu gesto, antecipa a Virgem Maria, que também coloca a sua liberdade à disposição de Deus, dando o seu “sim” ao Senhor para ser a mãe do Salvador, nos dando aquele que nos liberta do pecado e da morte. A rainha Ester pré-anuncia a Virgem Maria.
Na segunda leitura, o Apocalipse apresenta uma mulher ameaçada, mas amparada por Deus. Uma mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas. Essa imagem remete ao povo de Deus, à Igreja, mas Nela contemplamos também Maria, Mãe do Messias. A mulher é apresentada de forma gloriosa: vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. O Sol é Cristo, a mulher está revestida com a luz de Cristo e reflete a luz de Cristo, pois ela tem a Lua debaixo dos pés. A Lua não tem luz própria, ela reflete a luz do Sol. Ela é uma mulher síntese, pois traz na cabeça uma coroa de doze estrelas. Doze relembra o antigo Israel, mas relembra, também, os Doze Apóstolos do Cordeiro. Essa mulher simboliza a Igreja e simboliza, também, Maria. Maria deu à luz Jesus, aquele que governa com um cetro de ferro, quer dizer, um governo estável. Mas a Igreja, também, é mãe que continua a dar à luz a filhos e filhas. Ela é mãe que dá a fé. A fé que tem a vocação de chegar a todos os povos, pois o ser humano foi criado por Deus e para Deus. O grande perigo, hoje, se torna aquele de irmos construindo um mundo que ignora Deus. Uma sociedade sem fé vai se tornando sempre mais selvagem, onde o pior do ser humano vai aflorando, as referências vão sendo perdidas. O ser humano vai se desumanizando. H. De Lubac, na obra que se chama o Drama do Humanismo Ateu, na introdução escreve: “não é verdade que o homem, como muitas vezes se diz, possa organizar o mundo terreno sem Deus. É verdade, porém, que sem Deus, não pode que organizá-lo contra o homem. O humanismo exclusivo é um humanismo desumano”. Sem Deus o ser humano corre o risco de ir desfigurando a sua humanidade, de perder a verdadeira referência de ser humano que se encontra no mistério de Cristo, pois, como afirma o Concilio Vaticano II: “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efetivamente figura do futuro (20), isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime” (GS, 22). Somente olhando para o mistério de Cristo descobrimos a grandeza de ser, “ser humano”. Sem ele a vida fica mais pobre, sem sentido. O ser humano corre o risco de ir se desumanizando.
Mas a imagem mostra, também, a força ameaçadora do dragão, que procura destruir o filho da mulher. O dragão representa o demônio, a antiga serpente que age na história, mas age, também, no coração de cada um de nós. Olhamos para a história e percebemos tanto mal: guerras sem fim, violência contra as mulheres, feminicídio, ódio, divisões etc. Só o amor de Deus pode nos libertar, nos livrar do grande dragão. Quem vive na dinâmica do dragão vive do ódio, da divisão, da mentira. Deixa-se dominar pelo mal e entra na dinâmica de mal. O ser humano não foi criado para o mal, para fazer o mal. Ele foi criado por Deus e para Deus. A vida humana deve ser sempre a busca de fazer o bem. Por isso, o princípio mais geral da moral é “fazer o bem e evitar o mal”. Mas a cena do Apocalipse é de esperança, pois Deus age e vem salvar. Papa Francisco, em Aparecida, em 2013, faz um belo comentário desta cena, diz ele: “… A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por vivera fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança!” (Papa Francisco, Aparecida 2013).
No Evangelho (Jo 2, 1 – 11) encontramos a Mulher que implora: “Eles não têm mais vinho”. Maria, Jesus e seus discípulos são convidados para um casamento em Caná da Galileia. Em meio à festa, ela percebe uma necessidade: o vinho veio a faltar. O vinho representava os grandes bens messiânicos. Talvez, naquele tempo representasse o sentimento de uma certa ausência de Deus. Maria tem um olhar atento. Ela logo dirá àquele que traz o vinho, que é o próprio vinho, porque Nele o céu está presente na terra, a terra no céu: “Eles não têm mais vinho”. O filho objeta: “minha hora ainda não chegou”, pois, a hora é a morte de cruz. Mas a mulher, mostra para os servos o que fazer: “fazei tudo o que ele vos disser”. Os servos, nesta cena, são descritos com a palavra grega diakonos. Diakonos signica o discípulo. Maria diz aos discípulos que façam tudo o que o seu Filho mandar. Aqui tem-se um texto rico de significado. A mãe, nesta cena, nos aponta a vontade do Filho, mas onde está contida a vontade do Filho? Onde encontrar a vontade do Filho? A vontade do Filho se encontra nas Escrituras, na Palavra de Deus, principalmente nos Evangelhos. Jesus traz o vinho novo, transforma a água em vinho. Este casamento representa a grande aliança de Deus com a humanidade que acontece em Jesus Cristo. Nós vivemos desta aliança que foi selada na cruz. Onde a mulher se tornou mãe, mãe do discípulo, na pessoa dele, mãe de todos nós. É a fecundidade do mistério da cruz que quer criar vida, pois é do mistério da cruz que brota o caminho da civilização do amor, que quer vencer o ódio, a intolerância e apontar na direção de uma sociedade de irmãos. Só o amor pode nos ajudar a construirmos uma sociedade brasileira mais à altura da grandeza de Deus e da dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. A comunidade cristã, a Igreja, neste cenário, tem uma missão profética irrenunciável, de ser sinal de reconciliação, como rezamos na Oração Eucarística para Diversas Circunstâncias I: “…Assim, neste mundo dilacerado por discórdias, o vosso povo brilhe como sinal profético de unidade e concórdia”.
Voltemos o nosso olhar para o ano 1717 quando aquela imagem foi pescada no Rio Paraíba do Sul. A labuta de três pescadores procurando peixes. Não conseguem apanhar nada, de repente vem o inesperado. Pescam o corpo da imagem de Aparecida e depois a cabeça da imagem de cerâmica. A seguir conseguem apanhar os peixes que necessitavam. Podemos dizer que Deus dá um primeiro sinal, através da pesca, sobre o sentido daquela imagem. Aqueles pobres pescadores uniram a cabeça ao corpo, restauraram a imagem, começaram a venerá-la e os sinais começaram a acontecer. Se o grande sinal que precedeu o encontro da imagem foi a pesca milagrosa dos peixes que necessitavam, outros sinais começaram a acontecer, fruto da veneração daquela pequena imagem da Virgem Maria, fruto do amor do povo simples que percebia que algo especial estava acontecendo entre eles: era a presença materna da mãe de Deus e nossa mãe. O Povo Brasileiro, hoje, pode viver daquele evento onde a Mãe de Deus nos visitou e deixou a sua presença materna impregnando a nossa história.
Que sua presença materna nos acompanhe nestes tempos nos indicando, sempre, a vontade do seu Filho Jesus e implorando por nós a graça do vinho novo do amor que vence o ódio, do diálogo que vence a intolerância e da unidade que prevalece sobre o conflito, Amém.