Doutrina da Fé propõe retomar o primeiro anúncio de Cristo diante da crise na transmissão da fé

Documento do Dicastério para a Doutrina da Fé destaca a centralidade do kerygma, a evangelização dos adultos e o papel das comunidades cristãs na transmissão da fé em uma sociedade cada vez mais secularizada.

O Dicastério para a Doutrina da Fé divulgou nesta quinta-feira (22) o documento “Vinde a Mim. Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época”. O texto convida a Igreja a renovar o anúncio do Evangelho diante das transformações culturais e da dificuldade crescente de transmitir a fé cristã entre as gerações.

A proposta central é retomar o kerygma, isto é, o primeiro anúncio da fé cristã, que proclama o amor de Jesus Cristo, sua entrega pela salvação da humanidade e sua presença viva junto a cada pessoa. O documento ressalta que esse anúncio deve ocupar o centro da ação evangelizadora, favorecendo um encontro pessoal e comunitário com Cristo.

As considerações foram aprovadas pelo Papa Leão XIV em 21 de agosto de 2026 e levam as assinaturas do cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, e de monsenhor Armando Matteo, secretário da Seção Doutrinária. Organizado em oito capítulos, além da introdução e da conclusão, o texto reúne referências ao Concílio Vaticano II e ao magistério dos Papas, especialmente Leão XIV e Francisco.

Segundo o documento, o objetivo é apresentar caminhos concretos para anunciar o Evangelho no contexto atual, sem pretender encerrar o debate sobre a transmissão da fé, mas abrindo espaço para novas reflexões e iniciativas pastorais.

A fé nasce do encontro com Cristo

Inspirado nas palavras de Jesus no Evangelho de Mateus — “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” —, o documento recorda que a transmissão da fé começa pelo encontro com o Senhor.

O texto destaca que a fé não deve ser apresentada apenas como um conjunto de ensinamentos doutrinários ou informações religiosas, mas como uma experiência de vida que introduz progressivamente a pessoa na comunidade eclesial.

Nesse sentido, o anúncio cristão precisa tornar perceptível que Deus ama cada pessoa e deseja caminhar com ela. A centralidade do kerygma permite iluminar os diferentes conteúdos da fé a partir da experiência do amor e da misericórdia de Deus.

Evangelização dos adultos e participação das famílias

Um dos principais pontos abordados é a necessidade de ampliar a ação evangelizadora para além da catequese de crianças e adolescentes. O documento observa que, em diversas regiões do mundo, a transmissão da fé no ambiente familiar foi enfraquecida ou interrompida, deixando de acontecer de maneira espontânea entre pais e filhos.

Diante dessa realidade, o Dicastério para a Doutrina da Fé enfatiza a importância da evangelização dos adultos e do acompanhamento das pessoas que, embora tenham recebido os sacramentos da iniciação cristã, já não mantêm uma relação próxima com a Igreja.

A família continua sendo apresentada como o primeiro e essencial espaço de transmissão da fé. Para isso, porém, é necessário fortalecer a colaboração entre as famílias e as comunidades eclesiais, criando oportunidades para que crianças, jovens e adultos conheçam e vivam o Evangelho.

O texto também chama a atenção para a dificuldade enfrentada por pessoas recém-batizadas que, após um período inicial de aproximação à Igreja, acabam retornando à indiferença religiosa. Por isso, destaca a necessidade de acolhimento, acompanhamento e integração dos novos fiéis na vida comunitária.

Os desafios de uma nova cultura

O documento analisa as transformações culturais que influenciam a vivência religiosa, especialmente nas sociedades ocidentais. Entre os desafios apontados está a tendência de considerar a fé uma questão exclusivamente privada, desvinculada da vida social e das decisões cotidianas.

A chamada mudança de época também é marcada pelo enfraquecimento da transmissão da fé entre as gerações. Segundo o texto, muitos jovens chegam à idade adulta sem uma relação significativa com a mensagem do Evangelho, mesmo depois de terem participado de atividades paroquiais.

Outro aspecto abordado é a expansão das tecnologias digitais e da inteligência artificial, que transformam as relações humanas e os modos de comunicação. Ao recordar a mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2026, o documento destaca que o desafio não é apenas tecnológico, mas também antropológico, pois envolve a compreensão da pessoa humana e de suas relações.

Diante desse cenário, o texto propõe que a Igreja encontre formas de anunciar Cristo com uma linguagem acessível, capaz de dialogar com a realidade das pessoas sem perder a essência da mensagem cristã.

Comunidade, Palavra de Deus e liturgia

A renovação da transmissão da fé exige o envolvimento de toda a comunidade cristã. O documento recomenda a promoção de grupos de escuta, meditação, partilha e oração com a Palavra de Deus, com horários regulares e integrados à vida das paróquias.

A liturgia também ocupa lugar central nesse processo, pois é nela que o mistério da salvação é celebrado e comunicado sacramentalmente. A Eucaristia, nesse contexto, constitui um espaço privilegiado para o encontro com Cristo e para o fortalecimento da comunhão eclesial.

Outro elemento fundamental é o testemunho dos fiéis, expresso por meio da busca pela santidade, da proximidade com as pessoas e da opção preferencial pelos pobres. A arte, a beleza e a música também são reconhecidas como caminhos que podem favorecer o encontro com a fé e contribuir para sua transmissão.

Piedade popular, voluntariado e participação das mulheres

Entre as iniciativas que podem aproximar as pessoas da vida da Igreja, o documento destaca a piedade popular, as peregrinações e a participação em confrarias. Essas expressões, presentes em diferentes culturas, continuam sendo importantes meios de vivência e transmissão da fé.

A homilia também recebe atenção especial, assim como as atividades de voluntariado, que possibilitam o contato com a realidade eclesial por meio do serviço ao próximo.

O texto ressalta ainda a necessidade de ampliar os espaços de participação das mulheres na condução dos processos eclesiais, reconhecendo sua contribuição para a vida e a missão da Igreja.

Outro aspecto abordado é a inculturação, entendida como etapa necessária para a transmissão da fé. Nesse processo, a Doutrina Social da Igreja é apresentada como uma referência importante para estabelecer o diálogo entre o Evangelho e as questões concretas da sociedade.

Recomeçar pelo anúncio do Evangelho

Nas conclusões, o documento reforça que Cristo permanece como a verdadeira luz para a humanidade e que cabe aos cristãos transmitir essa esperança às pessoas de seu tempo.

A proposta do Dicastério para a Doutrina da Fé é promover uma renovação missionária que coloque novamente o encontro com Jesus no centro da vida cristã. Para isso, o anúncio do Evangelho precisa estar acompanhado de comunidades acolhedoras, formação permanente, participação na liturgia e testemunho concreto da caridade.

Em um contexto no qual a transmissão da fé enfrenta novos desafios, o documento convida a Igreja a redescobrir a força do primeiro anúncio e a oferecer a cada pessoa a oportunidade de conhecer Cristo, experimentar seu amor e encontrar nele uma fonte de esperança e sentido para a vida.

Com foto e informações do Vatican News.