O Mistério da Transfiguração

II Domingo da Quaresma

Neste segundo domingo da quaresma, o Evangelho coloca diante de nós o mistério da transfiguração (Mt 17, 1-9). Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e os leva a um lugar à parte, a uma alta montanha. A montanha é o lugar da manifestação de Deus no Antigo Testamento, da proximidade com Deus. Jesus é transfigurado diante deles. O texto narra a cena: “(…) o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 2). O rosto de Jesus e suas roupas manifestam a luz da glória de Deus. Deus é luz, narra o Evangelho de São João. Quando Moisés desceu da montanha, seu rosto resplandecia, pois tinha falado com Deus (Ex 34, 29). Os discípulos podem experimentar o ser mais profundo de Jesus, a sua divindade, a luz da sua glória que se manifestará na ressurreição. A veste branca de Jesus revela a sua divindade e o nosso futuro, pois, na literatura apocalíptica, as vestes brancas são expressão da criatura celeste. O Apocalipse fala da veste branca que trajavam os salvos (Ap 7, 9.13; 19,14).

O fato de Moisés e Elias conversarem com Jesus revela que Nele se cumpre toda a revelação veterotestamentária. A Lei e os profetas falam de Jesus, cumprem-se em Jesus. A exigência mais profunda da Lei, a fidelidade à aliança com Deus e ao que esta aliança supõe, encontra o cumprimento no dar a vida de Jesus. O destino de Jesus não é diferente do destino dos profetas, que, na medida que anunciaram a palavra de Deus, foram perseguidos (M. Serenthà, Jesus Cristo ontem, hoje e sempre, 476); tanto que, para João, a glorificação se dá na cruz — a cruz e a ressurreição são a verdadeira glorificação do Filho do Homem. A cena da transfiguração de Cristo está intimamente relacionada ao seu destino de crucificação e ressurreição. São Lucas mostra essa ligação revelando o conteúdo da conversa: “(…) falavam do seu êxodo que se consumaria em Jerusalém” (Lc 9, 31). A nuvem que aparece os encobre com a sua sombra. A nuvem é sinal da presença de Deus mesmo, a shekinah. É a presença do próprio Pai, que revela quem é Jesus: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o” (Mt 17, 5).  A cena relembra aquela do batismo, onde também o Pai revela o Filho. O Pai proclama quem é Jesus, a identidade mais profunda de Jesus — Ele é o Filho amado. E manda escutá-Lo. Jesus, por sua vez, é a Torá mesma. Escutar Jesus é escutar a sua Palavra, palavras que se encontram nos Evangelhos proclamados nas nossas liturgias. Não há verdadeiro discipulado sem escutar Jesus, sem colocar, no centro da nossa vida, a Palavra de Deus.

O texto da transfiguração revela para nós o mistério de Cristo na realidade mais profunda de Filho de Deus que deve ir a Jerusalém, morrer e ressuscitar; revela para nós, também, que, passando pelas cruzes do dia, também nós participaremos da glória de Cristo, Filho amado do Pai. A transfiguração nos ensina a descer da montanha e a viver, na fidelidade, o seguimento de Jesus no dia a dia. 

Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo de Brasília