Palavra e Eucaristia

III Domingo da Páscoa

Este terceiro domingo da Páscoa coloca diante de nós a narrativa dos discípulos de Emaús (24,13-35). Esse texto é uma cena de reconhecimento. Não interessa a aparição mesma; Jesus, uma vez que foi reconhecido, desaparece. O interesse recai sobre a descoberta da pessoa mesma de Jesus, num personagem que no início se apresenta desconhecido. O evangelista tem, sobretudo, interesse em mostrar como encontrar o ressuscitado nas noites tristes e difíceis da vida. Dois elementos são fundamentais na transformação que acontece na vida dos discípulos: a Palavra e a Eucaristia. 

O primeiro elemento é a Palavra. Começando por Moisés e passando pelos profetas, o personagem desconhecido explicava-lhes as Escrituras. Elas contêm o verdadeiro significado do messianismo de Jesus e iluminam a necessidade da paixão e da morte para entrar na glória (vv. 25-27). O que é a ação de abrir as Escrituras? É colocar alguns acontecimentos de salvação — dos quais os discípulos participaram sem lhes compreender o significado — num contexto geral de história de salvação que faz aparecer claramente o seu sentido. As Escrituras apresentam-nos o desígnio de Deus sobre o homem e sobre a história. Abri-las significa o progressivo desenvolver-se, no homem, dessa clareza de Deus, da vida da justiça, da verdade, da fraternidade. As Escrituras apresentam-nos Jesus no cume desse caminho, e sua ressurreição como a chave da história que explica todo o desejo do homem: o seu movimento ascensional para a vida, a justiça, a verdade. Permitem enquadrar a totalidade daquilo que o homem pensa e deseja no plano do Espírito e da Verdade e dar-lhe um significado. 

O segundo elemento é aquilo que faz Jesus quando se senta à mesa com os discípulos, ao partir o pão com eles, e deve ser visto à luz da interpretação do evangelista. Partir o pão e pronunciar a bênção durante a refeição era um ato ordinário para qualquer judeu piedoso. A partilha do pão é mais do que hospitalidade, é a partilha da mesa que faz com que o hóspede se torne irmão. É como uma cerimônia de aliança, de amizade. Tal gesto deve ser lido à luz do que Jesus tinha feito na última ceia (Mt 26,26; Mc 14,12; Lc 22,19; 1Cor 11,24), à luz da Eucaristia. É Jesus, que, ressuscitado, se dá aos discípulos na caridade perfeita da Eucaristia. A Eucaristia plasma a existência; ela, nas palavras de Santo Inácio de Antioquia, deve nos cristificar. Santo Agostinho convidava os seus diocesanos a receberem o Corpo de Cristo e a serem aquilo que receberam, Corpo de Cristo. 

Esses dois elementos, Palavra e Eucaristia, estão no centro da nossa vida cristã. Eles nos transformam, enchem o nosso coração de alegria, nos dão força para vivermos o peso da vida do dia a dia. Nesse caminho, a Palavra de Deus nos revela o projeto de Deus a cada dia para nós. A Eucaristia é Ele mesmo que se faz presente, nos alimenta, nos faz recuperar a alegria e a força na caminhada na história. Essa metodologia nos indica um caminho rico de humanidade, que transforma a situação existencial; que, mediante o encontro com o ressuscitado, conduz de volta a Jerusalém, onde está a comunidade reunida. Possa o Espírito do ressuscitado nos ajudar, nos guiar e nos conduzir nesta nossa missão.

Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo de Brasília