Durante a saudação aos fiéis poloneses ao final da Audiência Geral desta quarta-feira (11/03), o Papa Leão XIV recordou uma devoção profundamente enraizada na espiritualidade da Polônia e que também é mantida por comunidades de descendentes em várias partes do mundo, inclusive no Brasil: as Gorzkie Żale (“Lamentações Amargas”), oração tradicional que medita sobre a Paixão de Cristo.
O Pontífice destacou que, há mais de três séculos, os fiéis participam dessa devoção especialmente durante o tempo da Quaresma, unindo cânticos e reflexões sobre o sofrimento de Jesus e as dores de Maria. “Há mais de trezentos anos, durante a Quaresma, cantando ‘Lamentações amargas’, vocês meditam sobre a Paixão de Jesus e sobre as dores da Sua Mãe. Eu os encorajo a participar dessas celebrações. Que a oração seja acompanhada por atos concretos de caridade: ajuda, reconciliação e construção da paz, especialmente nas suas famílias e na comunidade da Igreja”, afirmou o Papa.
Na tradição religiosa polonesa, a Quaresma ocupa um lugar central na vivência da fé. Essa espiritualidade também permanece viva entre os descendentes de imigrantes no Brasil, especialmente no estado do Paraná, que abriga uma das maiores comunidades polonesas fora da Polônia.
Segundo o sacerdote polonês Casimiro Długosz, missionário da Sociedade de Cristo e residente no Brasil há quase 35 anos, esse período é marcado por práticas intensas de oração, penitência e renovação espiritual. Natural da cidade de Kielce, ele já exerceu ministério pastoral em diversas cidades do Rio Grande do Sul e do Paraná e atualmente é Pároco da comunidade de São Pedro e São Paulo, em Curitiba.
De acordo com o sacerdote, muitos fiéis poloneses costumam praticar o jejum e renunciar a hábitos cotidianos durante a Quaresma, como assistir televisão ou participar de atividades festivas, buscando um clima mais favorável à reflexão espiritual. Entre as práticas mais difundidas está a celebração da Via-Sacra, tradicionalmente realizada às sextas-feiras.
Outro aspecto importante são os retiros paroquiais organizados em diversas comunidades, com pregações direcionadas a diferentes grupos, como crianças, jovens, casais e trabalhadores. Também são comuns celebrações penitenciais, como a chamada “Noite dos Confessionários”, quando sacerdotes permanecem disponíveis durante toda a noite para atender confissões.
Entre as devoções quaresmais mais marcantes da espiritualidade polonesa estão as Gorzkie Żale, surgidas no século XVIII em Varsóvia e difundidas rapidamente por todo o país.
Segundo o Padre Casimiro, trata-se de uma oração composta por cânticos e meditações que recordam o sofrimento de Cristo. Tradicionalmente, ela é rezada nas tardes de domingo da Quaresma. “A melodia característica toca profundamente os corações e ajuda os fiéis a viver de maneira mais intensa o mistério da Paixão”, explicou o sacerdote.
Outra prática significativa na Polônia é o costume de cobrir crucifixos e algumas imagens nas igrejas a partir do quinto domingo da Quaresma, conhecido tradicionalmente como Domingo da Paixão. Esses símbolos permanecem velados até a celebração da Sexta-feira Santa, quando o crucifixo é solenemente descoberto, gesto que convida os fiéis a refletirem sobre o sacrifício de Cristo pela salvação da humanidade. “Quando, na Sexta-feira Santa, o crucifixo é revelado novamente, os fiéis experimentam de forma ainda mais intensa o mistério do amor de Deus”, explicou o sacerdote.
O Padre destaca que as tradições quaresmais da Polônia demonstram como esse tempo litúrgico continua sendo vivido com grande fervor e profundidade espiritual, marcado pela reflexão, penitência e renovação da fé.
Entre as comunidades polonesas fora da Polônia, algumas tradições também se destacam nas celebrações pascais. No Domingo de Ramos, por exemplo, muitos fiéis participam das procissões vestidos com trajes tradicionais e levam ramos altos e ornamentados que simbolizam as palmeiras.
Outra tradição muito querida é a Święconka, a bênção das cestas de alimentos no Sábado Santo. As famílias preparam cestas decoradas com tecidos brancos e bordados, contendo alimentos que serão partilhados no café da manhã do Domingo de Páscoa, simbolizando a alegria da Ressurreição de Cristo e fortalecendo os laços de fé e comunhão entre as famílias.
Com foto e informações do Vatican News.