A Palavra de Deus deste terceiro domingo comum (Mt 4, 12-23) coloca diante de nós o início do ministério de Jesus. Jesus vai morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia. Ali terá maior agilidade, mas se cumpre, também aí, a profecia de Isaías. Ele é a luz que ilumina as trevas da história, do mundo. Jesus inicia a pregação do Reino dos Céus, cura os doentes, chama os primeiros discípulos. Bento XVI nos ajuda a entrarmos no mistério deste Evangelho:
“Na liturgia de hoje o evangelista Mateus, que nos acompanhará ao longo de todo este ano litúrgico, apresenta o início da missão pública de Cristo. Ela consiste essencialmente na pregação do Reino de Deus e na cura dos doentes, para demonstrar que este Reino se fez próximo, aliás, já veio entre nós. Jesus começa a pregar na Galileia, a região na qual cresceu, território ‘periférico’ em relação ao centro da nação hebraica, que é a Judeia, e nela Jerusalém. Mas o profeta Isaías tinha prenunciado que aquela terra, destinada às tribos de Zabulon e de Neftali, teria conhecido um futuro glorioso: o povo imerso nas trevas teria visto uma grande luz (cf. Is 8, 23; 9, 1), a luz de Cristo e do seu Evangelho (cf. Mt 4, 12-16). A palavra ‘evangelho’, no tempo de Jesus, era usada pelos imperadores romanos para as suas proclamações. Independentemente do conteúdo, elas eram definidas ‘boas novas’, isto é, anúncios de salvação, porque o imperador era considerado como o senhor do mundo e os éditos como anunciadores de bem. Aplicar essa palavra à pregação de Jesus teve, portanto, um sentido muito crítico, ou seja: Deus, não o imperador, é o Senhor do mundo, e o verdadeiro Evangelho é o de Jesus Cristo.“A ‘boa nova’ que Jesus proclama resume-se nestas palavras: ‘O reino de Deus — o reino dos céus — está próximo’ (Mt 4, 17; Mc 1, 15). O que significa essa expressão? Certamente não indica um reino terreno delimitado no espaço e no tempo, mas anuncia que é Deus quem reina, que é Deus o Senhor e o seu senhorio está presente, é atual, está a realizar-se. A novidade da mensagem de Cristo é, portanto, que Deus n’Ele se fez próximo, já reina entre nós, como demonstram os milagres e as curas que realiza. Deus reina no mundo mediante o seu Filho feito homem e com a força do Espírito Santo, que é chamada ‘mão de Deus’ (cf. Lc 11, 20). Aonde chega Jesus, o Espírito criador leva vida e os homens são curados das doenças do corpo e do espírito. O senhorio de Deus manifesta-se então na cura integral do homem. Com isso Jesus quer revelar o rosto do verdadeiro Deus, o Deus próximo, cheio de misericórdia por todos os seres humanos; o Deus que nos faz o dom da vida em abundância, da sua própria vida. O reino de Deus é portanto a vida que se afirma sobre a morte, a luz da verdade que dissipa as trevas da ignorância e da mentira”. (Bento XVI, Angelus de 27 de janeiro de 2008)
Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo Metropolitano de Brasília