Bento XVI nos ajuda a entrarmos no mistério do Evangelho deste domingo (Mt 5, 17-37). Diz ele: “Na Liturgia deste domingo continua a leitura do chamado ‘Sermão da montanha’ de Jesus, que ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus. Depois das ‘Bem-Aventuranças’, que são o seu programa de vida, Jesus proclama a nova Lei, a sua Tora, como lhe chamam os nossos irmãos judeus. Com efeito, com a sua vinda o Messias devia trazer também a revelação definitiva da Lei, e é precisamente isso que Jesus declara: ‘Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para os levar à perfeição’. E, dirigindo-se aos seus discípulos, acrescenta: ‘Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus’ (Mt 5, 17.20). Em que consiste essa ‘plenitude’ da Lei de Cristo, essa justiça ‘superior’ que Ele exige?
“Jesus explica-o mediante uma série de antíteses entre os mandamentos antigos e o seu modo de os repropor. Cada vez começa: ‘Ouvistes o que foi dito aos antigos…’, e então afirma: ‘Mas Eu vos digo…’. Por exemplo: ‘Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal’. Mas Eu vos digo: ‘todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes’’ (Mt 5, 21-22). E assim por seis vezes. Esse modo de falar causava grande impressão no povo, que permanecia assustado, porque aquele ‘Eu vos digo’ equivalia a reivindicar para si a mesma autoridade de Deus, fonte da Lei. A novidade de Jesus consiste, essencialmente, no fato de que Ele mesmo ‘completa’ os mandamentos com o amor de Deus, com a força do Espírito Santo que habita nele. E nós, através da fé em Cristo, podemos abrir-nos à obra do Espírito Santo, que nos torna capazes de viver o amor divino. Por isso, cada preceito se torna verdadeiro, como exigência de amor, e todos convergem num único mandamento: ama a Deus com todo o coração, e ao teu próximo como a ti mesmo. ‘A caridade é o pleno cumprimento da lei’, escreve são Paulo (Rm 13, 10). […] Caros amigos, talvez não seja ocasional que a primeira grande pregação de Jesus se chame ‘Sermão da montanha’! Moisés subiu ao monte Sinai para receber a Lei de Deus e levá-la ao Povo eleito. Jesus é o Filho do próprio Deus que desceu do Céu para nos levar ao Céu, à altura de Deus, pelo caminho do amor. Aliás, Ele mesmo é esse caminho: só devemos segui-lo, para cumprir a vontade de Deus e entrar no seu Reino, na vida eterna”. (Bento XVI, Angelus de 13 de fevereiro de 2011).
Jesus nos propõe superar o texto da lei nos colocando numa dinâmica nova do Espírito, onde não se vive o legalismo da lei, vai-se muito além, vive-se na dinâmica do amor. Só o amor pode fazer superar o legalismo. Por isso, a reconciliação com o irmão e os sentimentos contra o irmão são fundamentais. A interioridade, de onde nascem os desejos santos, mas também os atos desordenados, é colocada no centro, pois é a consciência que deve ser boa, bem formada.
Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo de Brasília