Dom Wellington Queiroz: “Onde uma criança é protegida, o Evangelho se torna concreto”

No IV Encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado, bispo destacou a prevenção de abusos como parte essencial da missão evangelizadora da Igreja.

O Bispo de Cristalândia (TO) e presidente da Comissão para a Tutela de Menores e Adultos Vulneráveis da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Wellington de Queiroz Vieira, aprofundou os desafios da prevenção de abusos contra crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis durante a abertura do IV Encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado.

Em sua apresentação, Dom Wellington destacou a dignidade inviolável de cada pessoa humana e apresentou a prevenção de abusos como uma responsabilidade que envolve toda a Igreja. A reflexão teve como uma das referências a encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, que aborda a dignidade humana diante dos desafios e das novas formas de vulnerabilidade presentes na sociedade contemporânea.

Para o Bispo, a proteção de crianças e pessoas vulneráveis deve estar acima de qualquer preocupação institucional com a própria imagem. “A imagem que deve permanecer conosco é simples e exigente: a dignidade de uma criança ou de uma pessoa vulnerável, na comunidade mais distante do nosso continente, vale mais do que a reputação da nossa instituição”, afirmou.

Uma Igreja que protege, escuta e repara

Ao falar sobre a cultura do cuidado, Dom Wellington ressaltou que uma Igreja segura não é aquela que está livre de conflitos, mas aquela que tem coragem de enfrentar a verdade, aprender com os erros e colocar as vítimas e os mais vulneráveis no centro de sua ação. “Se a Igreja quer testemunhar a beleza da comunidade habitada por Deus, essa beleza precisa ser visível no modo como trata os pequenos, os frágeis e os feridos, inclusive aqueles que foram silenciados”, destacou.

O Bispo apresentou algumas características que devem marcar uma Igreja comprometida com ambientes seguros: não ter medo da verdade, reconhecer as próprias falhas, corrigir, reparar e prevenir, além de colocar as vítimas, os pequenos e o Evangelho no centro.

“Uma Igreja segura não é uma Igreja sem conflitos, é uma Igreja que não tem medo da verdade. Uma Igreja segura não é uma Igreja perfeita, é uma Igreja que aprende, corrige, repara e previne. Uma Igreja segura não é uma Igreja centrada em sua imagem, é uma Igreja centrada nas vítimas, nos pequenos e no Evangelho”, afirmou.

Ao concluir, Dom Wellington fez um chamado às Igrejas locais da América Latina e do Caribe para assumirem, com coragem, o compromisso de proteger, escutar, agir diante das denúncias, reparar possíveis falhas e investir continuamente na formação.

“Porque onde uma criança é protegida, o Evangelho se torna concreto. Onde uma criança se sente protegida, o Evangelho se torna concreto”, enfatizou.

Prevenção como missão evangelizadora

Falando a partir da própria experiência pastoral, primeiro como sacerdote e atualmente como Bispo, Dom Wellington recordou que a prevenção de abusos não pode ser responsabilidade de uma única pessoa. O trabalho exige uma rede de proteção baseada na responsabilidade, vigilância, humildade e conversão.

Nesse sentido, o tema, durante muito tempo associado apenas à dimensão do pecado individual, passou a ser compreendido também em sua dimensão criminal e como uma realidade que provoca feridas espirituais, traumas psicológicos, violações de direitos e situações de abuso de poder.

“A prevenção não é tarefa de uma pessoa isolada. Ela exige rede, responsabilidade, vigilância, humildade e conversão”, ressaltou. Para o Bispo, a construção de ambientes seguros está diretamente ligada à missão evangelizadora da Igreja. “Não há evangelização autêntica sem ambientes seguros”, reforçou.

Ao analisar a realidade da América Latina e do Caribe, Dom Wellington reconheceu a riqueza cultural, a diversidade e a profunda presença da fé católica no continente, mas também apontou desafios que podem dificultar a construção de uma cultura de proteção. Entre eles, citou as desigualdades sociais, as grandes distâncias territoriais, a cultura do silêncio, o machismo, o clericalismo e as fragilidades institucionais.

A partir desse cenário, o Bispo apresentou caminhos para fortalecer a cultura do cuidado nas Igrejas locais. Entre as medidas destacadas estão a criação e aplicação efetiva de protocolos de proteção, canais de escuta, formação permanente, prevenção de abusos em ambientes digitais, boas práticas de governança, maior participação de leigos e mulheres, escuta das vítimas e atuação em rede.

A reflexão também retomou a centralidade da dignidade humana apresentada pelo Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas, especialmente diante de novas formas de poder, manipulação e vulnerabilidade presentes no mundo contemporâneo.

Encontro promove partilha de experiências

Após a exposição de Dom Wellington, o encontro prosseguiu com rodas de conversa organizadas por regiões, permitindo aos participantes compartilhar experiências e desafios vivenciados em diferentes realidades do continente. A programação segue com uma exposição sobre “Abusos em ambientes digitais”, seguida por uma nova rodada de partilha de experiências entre as sub-regiões da América Latina e do Caribe.

O IV Encontro da Rede Latino-Americana e Caribenha para a Cultura do Cuidado reforça o compromisso da Igreja com a prevenção, a proteção e a construção de comunidades cada vez mais seguras, nas quais crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis sejam acolhidos, respeitados e protegidos.

Com foto e informações da CNBB.