Em tempos de divisão, Igreja deve ser instrumento de unidade e reconciliação, afirma Arcebispo de Brasília

Cardeal Paulo Cezar Costa recorda que a própria história de Nossa Senhora Aparecida traz uma mensagem de unidade e ressalta a missão da Igreja de promover a reconciliação, o diálogo e a construção de um futuro comum para o Brasil.

Durante a coletiva de imprensa realizada na tarde desta segunda-feira (12), na Esplanada dos Ministérios, por ocasião da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, o Cardeal Paulo Cezar Costa, Arcebispo Metropolitano de Brasília, destacou a importância do diálogo e da reconciliação para a construção de uma sociedade mais fraterna, especialmente em um contexto marcado pela polarização e por divergências políticas e ideológicas.

O Arcebispo reafirmou que a Arquidiocese de Brasília está comprometida com a unidade, a escuta e o respeito, sem assumir posicionamentos partidários. Ressaltou que a missão da Igreja é anunciar o Evangelho, promover a fraternidade e favorecer o encontro entre pessoas que pensam de maneiras diferentes, de modo que as divergências políticas não comprometam a comunhão entre os fiéis nem impeçam a sociedade de reconhecer, no futuro do país, uma responsabilidade compartilhada.

“A Igreja precisa ser sempre um espaço de diálogo, de encontro e de acolhida. Precisamos aprender a escutar quem pensa diferente de nós, sem olhar para o outro como um inimigo, mas como alguém repleto da dignidade dada por Deus e com muitas possibilidades. É no diálogo fraterno que podemos crescer juntos e construir caminhos de unidade”, destacou.

A mensagem de reconciliação encontra um símbolo particularmente expressivo na própria história de Nossa Senhora Aparecida. Durante a homilia da Solenidade, o Cardeal recordou que, em 1717, os três pescadores encontraram nas águas do Rio Paraíba do Sul uma pequena imagem da Virgem Maria, inicialmente fragmentada: primeiro o corpo e, depois, a cabeça. Ao reunirem as duas partes, restauraram a imagem que se tornaria um dos maiores símbolos da fé e da identidade religiosa do povo brasileiro. Para Dom Paulo, esse acontecimento oferece uma imagem eloquente da vocação da Igreja e da devoção mariana em nosso país: reunir o que está dividido, favorecer a reconciliação e recordar que a fé deve ser fonte de comunhão, jamais de separação. Assim como a imagem foi reunida pelas mãos daqueles humildes pescadores, também a sociedade brasileira é chamada a superar suas fragmentações e a reconhecer, sob o olhar materno de Nossa Senhora Aparecida, os laços que a unem em torno de uma história e de um destino comuns.

O Cardeal também reforçou o compromisso da Arquidiocese com o diálogo como instrumento de aproximação e construção do bem comum. “A Arquidiocese de Brasília sempre será a favor da unidade e do diálogo. Não somos uma Igreja partidária, nem queremos fazer da nossa missão um espaço de disputa entre partidos. A nossa missão é anunciar o Evangelho, promover a fraternidade e ajudar as pessoas a se encontrarem, a se escutarem e a reconhecerem que é possível construir algo juntos, mesmo quando pensam de maneira diferente”, afirmou.

A reflexão do Cardeal encontra fundamento na encíclica Fratelli tutti, publicada pelo Papa Francisco em 2020, que apresenta a fraternidade universal e a amizade social como caminhos para a construção de relações mais solidárias, justas e pacíficas. O documento ressalta a importância do diálogo autêntico, capaz de reconhecer a dignidade do outro e superar a lógica da oposição e da hostilidade. Nessa mesma perspectiva, Dom Paulo recordou, durante a homilia, a missão profética da comunidade cristã de ser sinal de reconciliação, conforme expressa a Oração Eucarística para Diversas Circunstâncias I: “Assim, neste mundo dilacerado por discórdias, o vosso povo brilhe como sinal profético de unidade e concórdia”.

Ao abordar o papel da Igreja diante das divisões sociais, Dom Paulo ressaltou que a unidade não exige uniformidade de pensamento, mas a capacidade de conviver com as diferenças, mantendo o respeito, a disposição para o encontro e a busca comum do bem. Nesse sentido, a comunhão entre os cristãos deve constituir um testemunho concreto para toda a sociedade, demonstrando que as diferenças políticas e ideológicas não precisam transformar-se em antagonismos irreconciliáveis, mas podem ser superadas pelo compromisso compartilhado com a dignidade humana e com o futuro do Brasil.

“Em tempos de profunda polarização, a Igreja recorda que nenhuma divergência política deve ser maior que a dignidade da pessoa humana, nem nenhuma preferência partidária deve comprometer a unidade da comunidade de fé. O diálogo, o respeito e a busca sincera da verdade são indispensáveis à construção de uma sociedade mais justa e reconciliada”, frisou.

O Cardeal encerrou a coletiva afirmando que “a Igreja continuará promovendo a cultura do diálogo e do encontro, colocando os valores do Evangelho, a dignidade de cada pessoa e a busca pela paz acima de interesses políticos ou partidários”. A mensagem retoma o apelo apresentado em sua homilia, ao confiar à intercessão de Nossa Senhora Aparecida a reconciliação do povo brasileiro, para que prevaleçam, sobre as divisões e os conflitos, “o vinho novo do amor que vence o ódio, do diálogo que vence a intolerância e da unidade que prevalece sobre o conflito”.