O Evangelho deste décimo primeiro domingo do Tempo Comum coloca diante de nós o texto de Mt 9,36–10,8 e apresenta um momento decisivo da missão de Jesus. O texto começa com uma observação profundamente humana e, ao mesmo tempo, reveladora do coração de Deus: «Ao ver as multidões, Jesus teve compaixão delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor» (Mt 9,36). O olhar de compaixão de Jesus é o ponto de partida de toda a ação. Ele não olha as pessoas de forma distante ou indiferente. Seu olhar alcança o sofrimento, as necessidades e os anseios mais profundos da vida do povo.
A imagem das «ovelhas sem pastor» recorda as críticas dos profetas aos líderes de Israel, que não cuidavam adequadamente do rebanho de Deus. Jesus aparece, então, como o verdadeiro Pastor, Aquele que reúne, orienta e conduz o Seu povo. Diante da grande necessidade espiritual das multidões, Ele afirma: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos» (Mt 9,37). A evangelização nasce da percepção de que Deus deseja alcançar todos os homens e mulheres com Sua salvação. Antes de ser obra humana, um fazer nosso, há o primado de Deus que já quis e desejou a salvação. Por isso, o primeiro pedido de Jesus não é uma ação imediata, mas a oração: «Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para sua colheita» (Mt 9,38). A condição para a fecundidade da missão se encontra em respeitar este primado de Deus: a missão deve ser precedida pela oração.
Em seguida, Jesus chama os doze discípulos e lhes confia autoridade para expulsar os espíritos impuros e curar toda doença e enfermidade. O chamado dos apóstolos revela que a missão da Igreja não é fruto de uma iniciativa humana, mas de uma escolha do próprio Cristo. Aqueles que são enviados participam da autoridade e da missão do Senhor Jesus. Os nomes dos Doze, cuidadosamente apresentados por Mateus, recordam que a evangelização passa por pessoas concretas, com suas virtudes e limitações, mas transformadas pela graça de Deus.
Ao enviar os discípulos, Jesus lhes confia uma missão específica: anunciar que «o Reino dos Céus está próximo». O centro da pregação não é uma ideia ou uma doutrina abstrata, mas a presença salvadora de Deus manifestada em Jesus Cristo. As curas, a libertação dos espíritos malignos e a restauração da vida são sinais concretos desse reino que já está atuando na história.
Por fim, Jesus recomenda: «Recebestes de graça, de graça deveis dar» (Mt 10,8). Esta frase sintetiza a espiritualidade missionária cristã. Tudo o que o discípulo possui – a fé, a vocação, os dons espirituais, a própria salvação – é dom gratuito de Deus. Por isso, o anúncio do Evangelho não pode ser reduzido a interesses pessoais ou à busca de prestígio. A missão é serviço, gratuidade e amor.
Também hoje Jesus contempla a humanidade com compaixão, chama novos trabalhadores para Sua messe e envia Seus discípulos a anunciar a proximidade do Reino. O cristão é convidado a cultivar um olhar misericordioso sobre o mundo, a rezar pelas vocações e a viver sua missão com generosidade, consciente de que recebeu gratuitamente os dons de Deus e, por isso, deve colocá-los gratuitamente a serviço dos irmãos.
Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo Metropolitano de Brasília