A Vida Bem-aventurada

Neste domingo o Evangelho de São Mateus nos apresenta o programa de vida de Jesus. Jesus subiu à montanha e, como novo Moisés, proclamou a nova lei: as Bem-Aventuranças. Bento XVI nos ajuda a entrar na beleza e profundidade desse discurso. Diz ele:

“Neste quarto domingo do Tempo Comum, o Evangelho apresenta o primeiro grande discurso que o Senhor dirige ao povo, nas doze colinas ao redor do Lago da Galileia, ‘Vendo aquelas multidões — escreve são Mateus — Jesus subiu à montanha. Sentou-se e os seus discípulos aproximaram-se dele. Então, começou a falar e a ensinar’ (Mt 5, 1-2). Jesus, novo Moisés, ‘toma o seu lugar na ‘cátedra’ da montanha’ (Gesù di Nazaret, Milano 2007, p. 88) e proclama ‘bem-aventurados’ os pobres de espírito, os aflitos, os misericordiosos, quantos têm fome de justiça, os puros de coração e os que são perseguidos (cf. Mt 5, 3-10). Não se trata de uma nova ideologia, mas de um ensinamento que vem do Alto e diz respeito à condição humana, precisamente aquela que o Senhor, encarnando, quis assumir para a salvar. Por isso, ‘o Sermão da montanha é dirigido ao mundo inteiro, no presente e no futuro […] e só pode ser compreendido e vivido no seguimento de Jesus, no caminho com Ele’ (Gesù di Nazaret, p. 92). As Bem-Aventuranças constituem um novo programa de vida, para nos libertarmos dos falsos valores do mundo e nos abrirmos aos bens verdadeiros, presentes e futuros. Com efeito, quando Deus consola, sacia a fome de justiça e enxuga as lágrimas dos aflitos, significa que, além de recompensar cada um de modo sensível, abre o Reino dos Céus. ‘As Bem-Aventuranças são a transposição da cruz e da ressurreição na existência dos discípulos’ (Ibid., p. 97). Elas refletem a vida do Filho de Deus, que se deixa perseguir e desprezar até à condenação à morte, a fim de que aos homens seja concedida a salvação.“Um antigo eremita afirma: ‘As Bem-Aventuranças são uma dádiva de Deus, e temos o dever de lhe render grandes graças por elas e pelas recompensas que delas derivam, ou seja, o Reino dos Céus no século vindouro, a consolação aqui, a plenitude de todo o bem e a misericórdia da parte de Deus […] uma vez que nos tivermos tornado imagem de Cristo na terra’ (Pedro de Damasco, in Filocalia, vol. 3, Torino 1985, p. 79). O Evangelho das Bem-Aventuranças comenta-se com a própria história da Igreja, a história da santidade cristã, porque — como escreve são Paulo — ‘o que é estulto no mundo, Deus escolheu-o para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus escolheu-o para confundir os fortes; e o que é vil e desprezível no mundo, Deus escolheu-o, como também as coisas que nada são, para destruir aquelas que são’ (1 Cor 1, 27-28). Por isso, a Igreja não teme a pobreza, o desprezo e a perseguição numa sociedade com frequência atraída pelo bem-estar material e o poder mundano. Santo Agostinho recorda-nos que ‘não é útil padecer tais males, mas suportá-los pelo nome de Jesus, não apenas com o espírito tranquilo, mas também com alegria’ (De sermone Domini in monte, I, 5, 13: CCL 35, 13)”. (Bento XVI, Angelus de 30 de janeiro de 2011)

Cardeal Paulo Cezar Costa
Arcebispo de Brasília