Eu e minha casa serviremos ao Senhor

Nos últimos séculos, assistimos a várias investidas nefastas contra a instituição da família, que foi e continua sendo o alvo de inúmeras ameaças e agressões. Neste terceiro milênio da era cristã, para fazer contraponto a tantos sinais de morte que tentam sepultar a família, faz-se cada vez mais necessário que todos os membros da família, em conjunto, saibam demonstrar a beleza da convivência familiar, apresentando sempre a sã doutrina do plano de Deus sobre a família. Em conjunto, os membros da família podem e devem salmodiar: “O Senhor fez grandes milagres por nós e, por isso, estamos tão felizes!” (Sal 125,3).

Como bem sabemos, “o futuro da humanidade passa pela família. É, pois, indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família”. (Papa João Paulo II, “Exortação Apostólica Familiaris Consortio, nº 86”). Sem a família, o horizonte será sempre sombrio, mas, por outro lado, com a força da família, edificaremos escolas de virtudes, onde fidelidade, auxílio mútuo, acolhimento, perdão e abertura para os outros serão mais do que simples palavras: serão, sim, regras de convivência diária.

É vital que assumamos, definitivamente, o compromisso de todos nós, cristãos, na árdua defesa dos valores que aprendemos inicialmente na família, a Igreja doméstica. Cada um de nós deve estar sempre pronto para semear o bem e atento para repudiar a fumaça negra que invade sem estrondo o ambiente familiar. Marido e esposa, com constância, devem bradar: “Melhor é ser dois do que ser um, porque se um cair o outro levanta o seu companheiro!” (Ecl 4,9-10). A manifestação do amor entre os irmãos e a acolhida aos idosos é a melhor maneira de se dizer: somos unidos e felizes “para que todos vejam e saibam, considerem e juntamente entendam que o Senhor fez isso!” (Is 41,20). Somente quem participa de um lar é capaz de entender que a beleza e a união do ambiente familiar são frutos de sublime mistério que não precisamos entender: basta apenas viver!

Cabe às famílias cristãs a missão de viver e transmitir a fé, com entusiasmo, às novas gerações e, por isso, a tarefa de educar na fé e na obtenção das virtudes não pode jamais ser restrita à escola – que hoje se limita a informar e não mais em formar – ou ao Estado. A fé deve ser dada e ensinada aos filhos desde o ventre materno. Desde tenra idade, os filhos devem aprender, com os pais e os irmãos mais velhos, orações de ontem e de hoje, a bênção dos alimentos e práticas constantes de desprendimento e de serviço oculto.

As pequenas tarefas do lar são belas ocasiões para ensinar aos filhos a adquirir responsabilidade e senso de equipe, visão de comunidade. A fraternidade, o companheirismo e a caridade que estão presentes em nossos lares tendem a um extravasamento, pois a sociedade carece do anúncio do evangelho da família. Assim sendo, “é preciso anunciar, com renovado entusiasmo, que o evangelho da família é um caminho de realização humana e espiritual, com a certeza de que o Senhor está sempre presente com a Sua graça”. (Discurso do Papa Bento XVI aos participantes do Encontro dos presidentes das Comissões Episcopais para a Família e a Vida na América Latina).

Para edificar a vivência da fé dos membros da família, é vital que, com inteligência e simplicidade, sejam respeitados tempos e espaços exclusivos para a convivência familiar. Esses momentos podem ser a oração do terço, a participação conjunta na Santa Missa, ou, até mesmo, um horário fixo para a refeição, com a presença de todos os membros da família. E quando um irmão ou algum parente vacilar na fé, será na força da família que ele encontrará o incentivo e a amizade necessários para poder recomeçar. No dia a dia da convivência familiar, a virtude da fé será sempre a unidade fundamental da estrutura da família.

A Igreja, o sinal visível do Cristo invisível, convida as famílias para servirem ao Senhor. Do mesmo modo, os pais devem convidar os filhos a servirem ao Senhor e, por isso, é sempre bom os membros da família professarem juntos: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor!”. (Js 24, 15). No contínuo serviço ao Senhor, os pais devem testemunhar que os filhos são a primavera da família e da sociedade. Devem testemunhar também que reconhecem na Igreja a instituição que os defende, que reza e age por eles, que não teme afirmar a verdade, tornando-se palavra para quem não tem voz, amparo e proteção de quem está abandonado ou discriminado.

Em família, nós aprendemos que o futuro da família e de cada membro do seio familiar depende de Deus e da Sua graça, mas é necessário agir como se tudo dependesse da nossa oração, fidelidade e solidariedade. No cotidiano do lar, temos que incrementar a consciência de que “a presença do Senhor habita na família real e concreta, com todos os seus sofrimentos, lutas, alegrias e propósitos diários. Quando se vive em família, é difícil fingir e mentir, não podemos mostrar uma máscara. Se o amor anima esta autenticidade, o Senhor reina nela com a Sua alegria e a Sua paz. A espiritualidade do amor familiar é feita de milhares de gestos reais e concretos. Deus tem a sua própria habitação nesta variedade de dons e encontros que fazem maturar a comunhão. Esta dedicação une o humano e o divino, porque está cheia do amor de Deus. Em suma, a espiritualidade matrimonial é uma espiritualidade do vínculo habitado pelo amor divino”. (Papa Francisco, Amoris Laetitia, nº 315).

Que a Virgem Santa Maria, Rainha das Famílias, interceda pela defesa e preservação da família! Que a Sagrada Família de Nazaré seja sempre nosso maior modelo na construção de um lar cristão! Solidificadas na graça de Cristo, “sejam fortes as nossas famílias com a fortaleza de Deus, guiem-nos a Lei Divina, a graça e o amor, nelas e por elas se renove a face da terra!” (Discurso de João Paulo II por ocasião do Dia dedicado à Família, em 12 de outubro de 1980). Sagrada Família de Nazaré, rogai pelas nossas famílias!

Aloísio Parreiras

 

2020-08-10T15:54:15-03:0010/08/2020|